Pesquisa:

Curiosa visita a um banco Italiano

I

           Na década de 1970, fui indicado pelo então Banco Real para participar de uma comissão de cinco representantes de bancos brasileiros que, na Europa, pesquisaria o então nascente sistema de Informática de bancos daquele Continente. Inclusive, cabia à comissão a escolha da grafia definitiva da chamada Linha2 do Cheque, código de barras ao pé do documento. De tal pesquisa resultou a vigência atual, no Brasil, da grafia denominada CMC7, formulada pela Olivetti  italiana, terminando aqui com a aplicação do código americano E3B.

          Na Europa, a quase totalidade dos bancos já deixara os livros e entrara no sistema computadorizado.  Dos inúmeros bancos visitados, em mais de três países, trouxe eu de um deles, e guardo, curiosas recordações:

PALACIO DE CASSA DE  RISPARMIO  DI  ROMA         


         Banco de poupança, que, em nossa visita, nos reservou a primeira grande surpresa: fora inaugurado em 1482, ou seja, oito anos antes de Cabral descobrir nosso Brasil.

        Mantinha-se atualizado em imóvel moderno e, tecnicamente, à altura dos melhores e mais modernos bancos da Europa. Porém, diferenciado em suas funções, pois não trabalha nos moldes do atual sistema financeiro da banca mundial. Não recebe depósitos de terceiros nem realiza empréstimos e financiamentos ao público.

        Sua principal e única função é de um inteligente e antigo trabalho junto à Prefeitura de Roma, em sistema que desconhecíamos, e desconhecemos existir em qualquer outra parte do mundo.

       No início de cada ano calendário, recebe da Prefeitura local, para cobrança, todos os boletos ou recibos próprios, relativos ao universo dos impostos municipais de Roma do ano em curso. Em troca, credita à Prefeitura, de imediato, o fabuloso valor total dos impostos a serem por ele arrecadados no referido período.

       Dá, assim, àquele órgão público, já no primeiro dia do ano, um agigantado capital monetário, abastecendo-o, de pronto, de recursos para as diversas obras e despesas anuais do município. Ao contrário do que conhecemos, não há ali o constante problema brasileiro  de adiar obras ou benefícios “por falta de verbas”, algo arraigado em nossa burocrática administração pública.

       Cobra, obviamente, alta comissão da Prefeitura, a título de juros, e se paga do empréstimo pelo recebimento, em seus guichês,  do total de impostos anuais devidos à municipalidade.

       Outra diferente, ou inexistente benesse de que se vale é a de que não tem acionistas, aos quais deveria pagar dividendos relativos aos lucros obtidos em cada ano. É que seu capital social foi feito, naturalmente, quando de sua inauguração, no distante século XV... Os “romanos” que então subscreveram seu capital foram transferindo suas ações para seus descendentes,  e, em um dos anos dos séculos seguintes, teria cabido uma só ação a cada herdeiro, e, após,  claramente, zerado o direito, em razão  de seu ínfimo valor.  

       Como não havia, pois, a quem distribuir seus lucros,  foram eles, estatutariamente,  destinados às diversas organizações beneficentes do município, concessão ainda vigente.

II
      Nossa visita à Cassa de Risparmio se fez pela manhã.  e, logo que chegamos fomos convidados a visitar o subsolo do prédio onde estava sendo reconstruído um antigo palácio da Roma secular. É sabido que Roma “são” três. Desprovida, em seu antiqüíssimo passado, da tecnologia prestante ao desmoronamento de seus imóveis, valia-se da aterrissagem do local e, acima, edificava novo prédio ou palácio. A história registra que no tempo, Roma teria feito, pelo menos, duas aterrissagens em seu solo, para, por cima, reconstruir. A Roma atual seria a terceira reconstrução da cidade.

     O que vimos no subsolo do Banco era uma bela sala toda em mármore de primeira grandeza. Informaram-nos  que, por lei, qualquer resquício de imóvel encontrado, ao acaso, no subsolo de Roma, passa a ser intocável, devendo a Prefeitura ser avisada, de pronto, a fim promover sua reconstrução. Era o que, entre dezenas de operários, ali estávamos a ver.

    Curiosos, eu e o diretor do Banco Econômico da Bahia, companheiro e amigo Sachi,  fomos verificar a refeição dos operários, que era feita naquele momento. Um tanto surpresos, vimos que ao lado de cada  operário havia sempre, ao lado de seu prato, uma boa  garrafa de vinho, certamente, italiano. Levou-nos a isso certo viés de comparação entre a refeição de um operário europeu e a de um dos nossos.

III

     Subimos para o almoço que nos ofereciam, após o qual iríamos nos reunir para discussões pertinentes ao nosso objetivo. Refiro aqui o almoço, banquete, apenas para registrar que, novamente surpresos,    observamos que o vinho a nós servido era da mesma marca e qualidade do que víramos na refeição dos operários.

     Na reunião, antes de iniciar a discussão profissional que ali nos levava, o presidente do Banco passou-nos às mãos um minucioso folheto com a relação de todos os impostos e taxas cobrados pela Prefeitura de Roma. Era natural que assim fizessem, pois nada mais faziam que mostrar-nos a grandiosidade do “cadastro” de seu único cliente,  possuidor, claro, de largo volume de créditos, nos diversos impostos e taxas a ela devidos,  os quais  faziam a boa lucratividade do Banco.

    Pelo folheto, demos conta de que a Prefeitura cobrava impostos que, de longe, poderíamos imaginar. Taxa anual para quem possuísse um cachorro em casa; ou um gato; também para quem tivesse uma bicicleta ou uma televisão; enfim, algo, de tal forma, de fazer inveja à nossa Receita Federal ou às modestas prefeituras de nossa pátria amada.

   No rol dos impostos e taxas, encontrei uma referência explícita a “judeus”.  Curioso – ou irônico – indaguei do Presidente:
 – Aqui, na Itália, ou em Roma, cobram “imposto” dos judeus?
   E ele, delicado e  humorístico:
–  Cavalheiro, não acha o Senhor que, de tal forma, somos nós bem mais      benevolentes que o finado Adolfo Hitler?

   Era uma taxa associativa da comunidade judaica...


                                                                                                                      Feiz Bahmed

                                                                                                                                                      dezembro/2012