Pesquisa:

A Escola e a Vida

Universidade de Harvard

É comum entender-se que a escola, por seus diversos segmentos convencionais, propicia o saber, a cultura, as tecnicidades – constituindo-se, assim, em componente de sucesso e triunfo na vida. Por compreensível inferência, há que se crer que a boa qualidade do ensino escolar prenuncia o êxito daqueles que, com esforço e gana, se nutrem do que lhes ministram os estabelecimentos acatados como de alta valia.

Não poucas pessoas, porém, opondo-se à rigidez desse raciocínio, distanciam-se da lógica desse juízo corrente e, de forma contraditória, acreditam que outros motivos poderiam se constituir em causas, ou pelo menos em indicadores, da realização pessoal e profissional dos indivíduos, que, por razões diferentes, poderiam alcançar resultados iguais ou semelhantes. Percebe-se, então, que tal juízo não é assim tão categórico, já que não há consenso no assunto, tão polêmico e sempre questionado.

Há tempos, na publicação americana “Training Directors Journal”, foi noticiada uma pesquisa que buscava razões lógicas para o amparo científico desse conceito sociológico por vezes oscilante. A reportagem divulgava que um grupo elitista de sociólogos e psicólogos americanos quis provar a concepção corrente de que a excelente escolaridade determina o excepcional sucesso de quem na vida a recebe. E, ao reverso, na mesma pesquisa, o grupo pretendia demonstrar que o rendimento escolar medíocre levaria o aluno a insucessos ou, quando muito, a modestas vitórias em seu futuro.

A confiabilidade do austero trabalho de pesquisa foi atestada, inicialmente, pela escolha da escola onde seriam buscados os dados iniciais da investigação – peça fundamental do processo. Por consenso, elegeu-se a Harvard University, uma das instituições mais prestigiadas do mundo e casa de ensino superior mais antiga e tradicional dos Estados Unidos.

O grupo de cientistas, no ano de 1965, solicitou à Harvard que lhe fornecesse a relação – com nome completo e outras indicações pessoais – dos vinte ex-alunos de maior mérito escolar que haviam feito parte do corpo discente da Universidade vinte anos antes, isto é, em 1945. De igual forma, foi também solicitada a relação dos vinte ex-alunos de mais baixo mérito escolar no mesmo período e nos mesmos cursos. Recebido o relatório da Universidade, a premissa da pesquisa estava, assim, concretizada, seguindo-se o trabalho com a complexa execução do ousado projeto.

Na investigação propriamente dita, efetuou-se, por primeiro, a necessária e trabalhosa busca dos locais onde se encontravam as pessoas cujos nomes constavam das duas relações fornecidas pela Universidade. Em seguida, passou-se à análise da parte que merecia mais acuidade e critério, consistente nas observações minuciosas e fidedignas do status social, profissional e econômico dos pesquisados; ou seja, o prestígio, o renome e a posição mais ou menos favorável em que se encontravam esses ex-alunos de Havard na sociedade em que cada um deles se achava inserido vinte anos depois.

Demorados e rigorosos foram os trabalhos pertinentes à complexa pesquisa de campo responsável pela avaliação do grau de êxito dos ex-alunos – encargo terceirizado a instituições especializadas e idôneas –, com a qual se deram por achados os dados fundamentais necessários a um completo estudo, cujo grau de confiabilidade conduziria a irrefutável conclusão.
Colocadas as apurações finais sobre a mesa, entretanto, grande, ou mesmo insolúvel, se tornou o problema da proclamação de um resultado cientificamente válido. É que os dados então finalmente obtidos não possuíam a esperada e necessária “correlação estatística”, que indicasse, aritmeticamente, a conclusão científica a que pretendiam chegar os pesquisadores, ou seja, dados que provassem que um dos grupos listados pela escola de Harvard teria obtido, sobre o outro, significativa condição de superioridade no complexo exame do sucesso na vida.

Essa foi a conclusão a que, consensualmente, se chegou. O grupo de pesquisadores, diante de tal fato, foi então induzido a um raciocínio diferente, porém, virtualmente lógico: se o grau da escolaridade ou da competência intelectual não levam o cidadão ao êxito certo na vida, haveria outro fator causal que caberia levar-se em conta; mas qual seria esse fator?

O grupo, no curso dos debates que se seguiram à pesquisa, anuiu então ao julgamento de que, embora reconhecendo a escolaridade e a cultura como elementos concorrentes ou simultâneos, o fator prevalente do êxito na vida – claro e aceitável pela incontestabilidade – seria a personalidade, traço eminentemente íntimo e de rigor autônomo de cada indivíduo.
Temos, na vida real, claros exemplos que validam essa asserção.


Postado em out/2009 - Feiz Bahmed