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Carta à Dr.ª Maria Coeli Simões Pires

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Por ter notícias – muitas – da surpreendente e admirável qualidade literária dos livros nascidos da pena da Dr.ª Coeli, logo que voltei a Minas, vindo de longos anos de ausência, interessei-me por conhecer os poemas e romances dessa eminente líder política mineira, nome de vulto, igualmente, na velha cidade em que ela nasceu, a vetusta e querida Vila do Príncipe, plantada no pobre, mas adorável Vale do Jequitinhonha.

Por gentileza sua, e grande interesse meu, consegui com ela, recentemente,  exemplares de seus livros de poemas, romances, e até dos de Direito, disciplina em que possui eminente doutorado. A carta abaixo transcrita é de agradecimento e de apreciação do que, ao tempo, pude haurir de seus magníficos escritos.             
       
A destinatária é, hoje, para orgulho de nós, de Serro – terra de grandes vultos nacionais em seu passado – uma das marcadas personalidades mineiras contemporâneas, por sua ação profissional no Direito, sua apreciável cultura humanística e literária e por seu relevante posicionamento no renomado ranking político-administrativo do Estado.      

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Minha talentosa conterrânea e prezada amiga Dr.ª Coeli:

Por urgente, devo dizer-lhe que meu atraso em vir agradecer-lhe a gentileza de enviar-me alguns de seus livros deveu-se ao fato de que, logo após recebê-Ios, e já quando entrava a desfrutar do bom e do ótimo neles contidos, fui para a cama, com febre de ter que “chamar doutor”.

Mal me livrei disso, viajei a São Paulo, por necessidade inadiável de nossa galeria de lá e daqui.

Por isso, só agora venho dizer-lhe que a dádiva foi recebida de forma – imitando a grafia de minha netinha! – de forma muiiiiiiiiiiiiito prazerosa, e não pode você julgar o quanto nos emocionaram, a mim e a Maria Helena, as coisas do Serro e de sua gente, que vieram contidas em seu adorável presente.

Os romances, já os conhecia, atendendo a entusiástica recomendação de meu saudoso irmão Líbano, quando aqui cheguei, vindo de São Paulo. Mas merecem até releitura, pois isso se deu há cerca de trinta anos. E já os coloquei em minha estante, “trono” dos meus poucos, mas bons livros, onde homenageio os que admiro, e, não raro, os sirvo em comodato a parentes até segundo grau, e a amigos, sempre contra recebimento de Nota Promissória, como comigo fazia o saudoso serrano, desembargador Dario Lins!

Os bons escritos, além do prazer de lê-Ios, resta neles a alegria de poder revê-Ios e, assim, recordar o de bom que eles contenham. Nelson Rodrigues dizia que escrever não era seu prazer. Seu prazer se fazia na leitura do que escrevera… Pois livro é imanente, mas o leitor é mutável e volúvel, no tempo e nas circunstâncias. Assim, se lhe apetece reler algo, melhor cumpre seu papel de ledor, embasado na consideração de que “o autor escreve apenas a metade do livro. A outra metade fica por conta do leitor” (Joseph Conrad).

Pois até quanto a mim (pobre de mim!), talvez por imposição de recordações, ou mesmo pelo implacável vício do saudosismo - ponho-me às vezes a reler coisas – ainda que de pouco ou mesmo de nenhum peso – que no passado, ousei escrever.

Quanto à sua tese de doutorado, de notório saber, com carinho e respeito, guardo o livro como um ícone do talento e do brilho da ilustre conterrânea. Mas, creia, não o deixarei na condição dos da vasta estante do Barão do Serro, dos quais um nosso poeta disse serem eles “coleção das onze mil virgens do Barão”.

Pois, já quando o foliei pelo índice, vi lá coisas que também servem a leigos, porque, na sua magnitude e caracterização jurídica, tem o de que pensar também em outros segmentos de vida e do mundo. Curiosamente, logo de início, dei com o título “Tempo e Sociedade - ARS LONGA VITA BREVIS”, onde encontrei conceitos coerentes ou paralelos com os contidos no gostoso best-seller de um professor de Harvard, agora traduzido para nós, o qual tenho em mãos, denominado “Uma Breve História do Mundo”, a começar de milhões de anos antes de Cristo.

Planejo também visitar suas páginas que falam das constituições brasileiras, pois adivinho ser um saboroso prato, mesmo para a leiguice de um pobre leitor.

Meu extravagante, mas permanente interesse por textos jurídicos, decorre de alguns motivos: um deles é o de que, por ausência de profissionais da carreira que pretendessem a Promotoria da Comarca do Serro, o Dr. César Silveira, então Juiz ali - convidou-me e nomeou-me Promotor Interino da Comarca, com provimento da então Secretaria do Interior, a partir de 1952 e por perto de três anos.

Fui forçado, por isso, ainda jovem, a “fuçar” as coisas do Direito, enredando-me nos códigos e jurisprudências, buscando algum acanhado, mas necessário saber, para não fazer feio… e, principalmente, para o pálido exercício da função de que não fui demitido, mas forçado a deixá-la quando da Lei 1.002/1949 - “Moratória aos Pecuaristas” - que me colocou em conflito com minha profissão bancária.

A outra razão foi que, recentemente, em comunicação trocada por e-mail com o Congresso, acompanhei de perto, por mais de ano, a discussão e a aprovação das coisas do novo Código Civil, porque elas atingiam diretamente os meus projetos familiares e, de forma nada racional, minha vida empresarial. Ao cabo de tudo, frustrei-me com a “pressa” do FHC em sancionar o projeto, para – com certa razão –  não deixar ao Lula tal encargo… Mas isso valeu jogar ao lixo cerca de duzentas emendas do relator Fiúza, plenas de racionalidade e judiciosamente promovidas.

Também trabalhei em um estudo sobre o Conselho de Sentença do júri, enviado ao Senado e transcrito nos anais da comissão formada pelo então senador Murilo Badaró, ao impulso do processo e do julgamento do assassínio de nossa conterrânea Ângela Diniz. Acha-se no volumoso e desprezado arquivo do Senado, mas, se me permitir, um dia o mandarei para sua apreciação, o que muito me honrará. O júri foi “minha praia”, pois, além de ter servido inúmeras vezes como jurado, enquanto promotor em Serro, comarca que incluía Rio Vermelho, Casa de Telha, Itambé, Mãe dos Homens etc., o Fórum ali se ocupava principalmente do Direito Penal.

Mas, de tudo, e principalmente, resta-me a agradável razão de que muito me apraz a redação jurídica, um segmento estético da língua, que há de se conter em sua tese de doutorado, feita, obviamente, na música de sua preciosa redação posta na esteira dos ditames do “Português do Direito”. Este, que sempre me cativou, dele possuo alguma literatura, do pouco que a nossa crítica filológica o abordou. Tenho que a redação jurídica se faz rica por seu estilo distinto e precioso e ainda pela singularidade de seus termos, às vezes passadistas, mas imponentes e eternos, fundidos – parece – no cadinho do latim clássico, um tanto distantes do latim vulgar de que resultou quase toda nossa “inculta e bela” linguagem do cotidiano.

Deixo por fim, “last but not least”, o “Serro”, no espelho do título e da alma da autora, e o “Balaio de Taquara”, livros onde você me diz das coisas de que ninguém até aqui me falou. Neles revi um tempo que passou sem passar, ainda gravado no para sempre da memória. Tempo vivido na infância, algo eterno no efêmero da vida. Lamento o pouco que frequento o Serro, onde, por ele e por meus pais, sempre reencontro as matrizes indicadoras dos caminhos por onde andei até aqui.

De tudo gostei nos livros - e os tenho relido sozinho ou com Maria Helena, também serrana e contemporânea das coisas ali poeticamente contadas. Porém, o que mais me falou foi sua inédita idéia de descrever as figuras dos tipos populares de antanho, com os quais minha infância conviveu, com eles sorriu, brincou e, por vezes, em nossa ternura de então, a eles até amou. E você, ao que parece, o fez com o intuito de “maltratar” aqueles que viveram um tempo de que já haviam se esquecido, recordando-o para nossas lembranças e saudades.

De coisa igual ou parecida, lembro que o Dr. Soter Couto escreveu, há muitos anos, “Tipos Populares de Diamantina”, que lá se punham tão psicologicamente amarfanhados quanto os nossos de Serro. Porém, eles, lá, com nítido DNA da sífilis e da cachaça, abundantes na pujança socioeconômica da Diamantina, ao tempo do caudal das pedras que lhe emprestaram o nome.
Mas, voltemos aos nossos. Me havia esquecido do inesquecível “AGAPITO TREIS-TREIS”, porte de rei, em seu tipo ereto e retilíneo, ajudado por um bordão ameaçador para nós, meninos, que escutavam e entendiam seu emblemático silêncio. Sempre o via, encostado que se punha ao paredão da Matriz, emprestando cor local à paisagem que dali descia morro abaixo, morrendo na planície dos históricos córregos da “nossa” praia.

Sua mudez me lembra Eça de Queirós, em “Correspondência de Fradique Mendes”, onde conta, em missiva ao Senhor E. Mollinet, haver conhecido um intelectual influente, personagem político de nome Pacheco. Pacheco, segundo Eça, nunca dera ao país uma só obra, uma fundação, uma idéia, uma frase, e era tido por todos como um talento, vizinho do gênio. Não falava, ou, pouquíssimas vezes, dizia um monossílabo. Seu silêncio e sua postura eram tidos como síndrome de uma imensa cultura que, por sua mudez, se fazia, propositadamente, indisponível aos demais mortais, que o respeitavam e enalteciam.

Nosso Agapito, para nós, crianças, frequentava nosso imaginário como o Pacheco do Eça. Ao revés, a Coleta supria seu silêncio com um linguajar perto do libertino e enchia as ruas do Serro com seu discurso altissonante e inacabável. 

A Binga Lulu, a Maria Pepé, o Flavico, o Juquinha (influente lobista dos ricos junto à modesta zona boêmia, ao pé do cemitério). O Sebastião Pires, meu primo inesquecível, que por vezes, altas horas, se punha à porta de nossa casa e recitava alto e bom som: “Pra toda essa gente aí, tirando minha madrinha Zulmira (minha mãe), vai tudo a puta que pariu!”.

Era a liberdade e a democracia das madrugadas do Serro, quando, pelos morros e quintais, até os cachorros se debatiam em diálogos certamente político-reivindicatórios, em pleno regime draconiano do Estado Novo. Geraldo Zoeira, as cinco Marias do Morro, que não conheci, mas lembro Luiz, andarilho famoso, atravessava a Serra do Cipó e sumia no mundo. Com o devido respeito, lembro também o citado Sebastião Rabelo, que me lecionou gramática para eu entrar no Ginásio. E a Chiquinha Costa, que me lecionou Deus, para eu entrar no Céu.

E você, Maria Coeli, toma toda essa gente, as coisas, as histórias, e nelas sopra a sua doce poesia. O “Serro” e o “Balaio de Taquara” acodem à lembrança da gente, atiçam nossa saudade, citando pessoas, fatos, humor, coisas de um passado que, ainda que contidas nas sombras de um “terceiro-mundismo”, se faziam, entretanto, ricas, saudosas e bonitas para nós que com elas convivemos felizes. Mormente porque foram elas vividas na Vila onde nascemos, ali agasalhadas num vínculo recíproco de solidariedade humana, sempre tão presente e vivenciada nos contextos do subdesenvolvimento.

Só falta, agora, dizer-lhe muito obrigado pelo seu presente, doces lembranças que nos trazem à alma aquilo que um dia o gigante Camões chamou de “a grande dor das coisas que passaram”.

        Meu abraço e minha admiração, Feiz.
        BH, 05 de junho de 2009.

 Post junho 2010 - Feiz Bahmed