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O Futuro Já Aconteceu

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O Jornal de papel está na UTI


O prognóstico mais favorável de especialistas que acompanham a migração do enfermo jornal impresso no suporte de papel para a mídia digital - vale dizer, para a internet - é o de que o paciente continuará em coma assistido por alguns semestres. Até aqui, respira por aparelhos e é alimentado de forma frugal, razão de seu atual estado de relativa estabilidade.

Já se esperava, havia tempo, um tropeço desse meio de comunicação.Tal tipo de imprensa vinha sofrendo certa anemia de aporte de aperfeiçoamentos, acomodado pelos longos tempos em que viveu sem concorrência aceitável que lhe fizesse sombra. Daí a preguiça de mover-se, ao revés do que acontecia com outros produtos similares, que se transfizeram, modernizaram-se e evoluíram. Sua única proposta de progresso foi fazer-se enciclopédico, publicando uma dúzia de cadernos, dos quais o bom leitor usa um e oferece onze ao lixo e à reciclagem.

Com isso, tornou-se apenas mais pesado. mais robusto e obeso, mas nem sempre melhor. Enquanto toda a indústria global cuidava de modificar seu produto, dando-lhe novas feições a cada dia, a ponto de criar-se a chamada “indústria da obsolescência”, ou seja, a leve modificação do produto, com atrações como: maior comodidade, mudança de material ou aparência mais atraente - a fim de depreciar o anterior e revalorizar o atual.

O RELEVANTE ASPECTO ECONÔMICO

O jornal convencional não ficou imune à atual crise econômica. Sofreu-a em sua atual forma globalizada, que para ele se tomou potencializada pela forte concorrência provinda da mídia digital. O conceituado jornal “La Nación”, na sua edição de domingo, dia 3 deste junho, publicou memorial em que, sobre os jornais, diz: “O panorama é inquietante: a média diária de exemplares vendidos nos EUA caiu de 62 milhões para 49 milhões, desde que, há 15 anos, a Internet foi se tornando acessível a todos. No mesmo período, o número de leitores de jornalismo digital nos EUA subiu de zero para 75 milhões”. E prossegue: “A fuga da publicidade, sangue comercial do jornalismo em papel, reduziu os lucros de maneira drástica, o que gerou a demissão de grande quantidade de funcionários (uns 15 milhões nos EUA, em 2008)”.

O “The New York Times”, chamado o maior jornal do mundo, vendeu, segundo notícia publicada por toda a imprensa brasileira, vinte e um dos cinquenta e dois andares de sua sede na 8a Avenida, em Nova York, ou seja, cerca de 750.000m2 de espaço na região mais valorizada daquela metrópole - área correspondente a 50% de seu majestoso prédio.

Na imprensa brasileira, temos visto alguns jornais entrarem em processo pré-falimentar, como aconteceu com a tradicional “Gazeta Mercantil”, jornal de economia fundado há cerca de um século e que editou seu anunciado último número no dia 1º deste mês de junho, inviabilizado por dívidas trabalhistas superiores a 200 milhões de reais!

Não são poucos os jornais que buscam reinventar o seu negócio, numa estranha circunstância em que, no momento, eles vivem uma crise inédita, a despeito de vir o jornalismo se destacando de forma brilhante. É impressionante o vigor da atividade de telemarketing em favor de assinaturas de edições, favorecidas por descontos, prazos de pagamento e até de presentes relativamente compensadores.

Cremos, por tudo, que a internet haverá de ser o nicho do marketing que oferecerá ao jornal o caminho de reingresso na pujança de outrora.

FATORES FAVORÁVEIS À MUDANÇA DE PROCESSO

Na prática do jornalismo on-line, o próprio redator, ao redigir seu texto, pode já transpassar inúmeros e custosos processos técnicos, então desnecessários, pois, revisto que seja seu escrito, pode já cair ele no corpo definitivo do jornal. Esse processo, além de infundir alta velocidade ao trabalho, economiza relevantes custos de mão de obra e de material, antes usuais.

Os jornais, que hoje imobilizam considerável espaço físico, maquinaria altamente sofisticada e cara, além dos gastos com papel e tinta, em se tornando on-line, conseguirão certamente ponderável economia pela minimização de espaços e barateamento de máquinas e equipamentos - prática costumeira da informática - além da significativa e certa simplificação dos processos. As lojas virtuais hoje existentes, com faturamentos bilionários, dão-nos exemplo da simplicidade, da economia e da boa rentabilidade do processamento on-line.

Outra questão de ordem econômica das editoras que não pode ser esquecida é a do frete dos jornais de papel. Sua distribuição pelo País e, eventualmente, pelo exterior, implica relevante custo financeiro, de veículos terrestres e aeronaves, para o transporte da não pouco pesada carga. Muitos editores constroem sua própria frota, como medida de economia ou de eficácia na distribuição. O custo com distribuição desaparece no jornal on-line, já que ele é lido alhures praticamente ao mesmo tempo em que é escrito na redação.

E, last but not least, vale citar o ganho da presença ecológica no processo de eliminação do suporte de papel, produto de origem vegetal, oriundo de árvores que, para a felicidade ambiental, serão poupadas em apreciável escala pelo novo sistema eletrônico.

AS VANTAGENS DO JORNAL ON-LINE PARA O LEITOR

Velocidade 

Vejamos, por primeiro, a extraordinária vantagem da internet no que respeita à velocidade da notícia e dos demais temas jornalísticos. É sabido que a celeridade no mundo de hoje é a característica que marca o avanço e a modernidade de quase todos os segmentos de que se serve a humanidade. Tomemos como exemplo a assinatura de um importante decreto pelo governo, em Brasília, ocorrida às 8 horas da manhã de uma segunda-feira. Tão logo transmitido ao jornal on-line, em 1O minutos, ele já estará transcrito na tela de milhões de computadores. Os telejornais, de regra, noticiarão o fato à noite, na segunda-feira, e o jornal convencional o publicará para leitura na manhã de terça-feira, ou seja, 24 horas após o evento.

Presteza

O conforto de ligarmos o computador pela manhã, ao acordar, e já nos tornarmos donos das notícias de tudo o que ocorreu, desde a noite anterior até aquele momento, é realmente formidável. Num mundo em que se sabe que as comunicações entre cidades, países e continentes hoje se fazem em segundos, soa atraso esperar-se o dia seguinte para tomarmos conhecimento do que ocorreu há vinte e quatro horas. Vale lembrar ainda, em complemento a esse raciocínio, que durante nossa noite aqui, é quando recebemos notícias do claro dia de grande parte da Europa e de todo o Oriente.

O empresário e/ou o executivo poderão ter em sua mesa de trabalho um pequeno computador ligado ao site informante de sua preferência, mudo ou com som, de acordo com a possibilidade e/ou o interesse do telespectador.

Arquivo 

O jornal on-line se presta para, de melhor forma, rapidamente selecionar e imprimir o que desejamos. “Recortar” escritos e, no mesmo instrumento (computador), enviá-Io ao escritório, ao amigo, ao sócio que se encontra em Xangai… Conta mais a comodidade de manusear o mouse ao invés do “esforço” de pesquisar e buscar, nos atuais jornais, cadernos especializados e folhas numeradas! Vale lembrar que, no processo recomendado, têm-se, no mesmo instrumento de leitura, a “caixa” onde guardar a nota que interessa ou a foto que se queira arquivar, além do conforto de desmanchar (deletar) o que não interessa, sem ter que jogar um monte de papéis no lixo.

Novidade jornalística 

O jornal on-line tem a mesma possibilidade de reproduzir fotos de eventos, tal como na imprensa escrita de hoje, mas pode, também:
- exibir vídeos ou até filmes da ocorrência comentada ou relatada no artigo ou na reportagem;
- transcrever um discurso de uma autoridade, de um intelectual ou de um político e transmiti-Io também em filme, quando o leitor passa a espectador, podendo, após, a um simples toque, imprimir o texto para o arquivo;
- entrevistar pessoas, a viva voz e através de um vídeo, por meio dos já acessíveis sistemas de escrita e televisão acoplados;
- transmitir, ao vivo, concertos musicais e shows, ao invés de apenas noticiálos.

Duplicidade necessária 

Necessário será, por óbvio, que haja, por tempo indeterminado, uma duplicidade de edição: a do jornal on-line, para aqueles que possam recebê-Io, confortavelmente, em seus computadores ou laptops, e a continuidade do jornal convencional, para outros que, por qualquer razão, prefiram a mídia impressa. Essa duplicidade já se ensaia hoje em inúmeros órgãos da imprensa nacional.

Por fim, deixamos à imaginação de quem nos lê o que mais se possa acrescentar de bom (ou de mau) nesse instrumento do futuro … que já está batendo à nossa porta.

E O SEGMENTO DAS REVISTAS SEMANAIS OU MENSAIS?

As revistas, por certo, seguirão o mesmo caminho. Algumas da editora Abril, através de e-mails de propaganda, já oferecem suas edições on-Iine para assinatura e colocam na tela do computador sua imagem, podendo o leitor folheá-Ias com o mouse do computador, página por página, e lê-Ias, gratuitamente, sem necessidade de molhar os dedos na língua para passar as páginas …

Sugiro ao leitor buscar o site www.experimenteabril.com.br e verificar. Naturalmente tais revistas que se põem, experimentalmente, no processo on-line acima citado - “Veja”, “Exame”, “Caras”, “Superinteressante”, “Contigo”, “Cláudia”, “Você”, “Escola”, “Nova”, “Glass”, “Info” e outras- são, hoje,  editadas na mídia impressa, porém,  já anunciam sua estreia no sistema novo de suas edições.

E O LIVRO?

O livro já sofreu alguns experimentos na internet, pois, em meu arquivo de e-mails, tenho mais de trezetos com a seguinte indicação: “É só clicar no título do livro para lê-Io ou imprimi-Io”.

O blog da Brasiliana - USP, São Paulo,  neste mês de junho, publicou a nota abaixo, o que nos leva a pensar que o futuro também está chegando, aos poucos, para os livros:

Blog da Brasiliana

“Tesouro brasileiro na internet, 18/6/2009
Enviado por brasiliana, 19 junho, 2009 - 09:09
Por Fábio de Castro”

“Agência FAPESP – Foi lançado oficialmente, na última terça-feira (16/6), o projeto Brasiliana Digital, que disponibilizará pela internet, com acesso livre, a coleção de cerca de 40 mil volumes da Biblioteca Guita e José Mindlin, doada à Universidade de São Paulo (USP) em 2006, além de outros acervos da USP.”

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Porém, acredito que o livro será a última publicação a abandonar o papel. É que, parece, só no papel se pode riscar, opinar na margem, dizer “não” ou botar pontos de interrogação ao lado de tolices! De que vale um livro no qual, talvez,  não se possa fazer nada disso? O escritor inglês, Joseph Conrad, já dizia que “O autor escreve apenas a metade de um livro. A outra metade fica por conta do leitor”, que interfere, escreve e risca nas margens dele, ou seja, bota ali também seu pensamento.
E tem mais, livro é fetiche, objeto de reverência a que se empresta estima e até carinho. Vale, pois, é lê-Io, sentir-lhe o cheiro, pegá-Io, afagá-Io, rabiscá-Io, e, após, colocá-Io na estante, eternamente calado, apenas para nele rever o companheiro de estrada  que, um dia,  nos ajudou a pensar ou a sentir.

Postado em  junho/2009 Feiz Bahmed