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Sêrro > Serro

 

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Coisa do passado, mas vale recontá-la. No colégio, a professorinha ensinou algo bem interessante. Na escrita, devemos acentuar certas palavras com o "chapeuzinho do vovô" a fim de distinguirmos um vocábulo de outro que se escreve igualzinho. Assim, por exemplo, a palavra "êle", para diferenciá-la do vocábulo "ele" (o nome da letra L), pois ambas se escrevem de forma idêntica. "Entenderam?" Perguntou a professora. E são muitas as palavras em que devemos colocar o chamado acento circunflexo, pelo motivo exposto. Assim, "gôsto" (paladar, sabor das coisas) para não se ler "gosto", do verbo gostar. "trôco" (dinheiro que, eventualmente, se recebe em compras) para distingui-lo de "troco", do verbo trocar (dar uma coisa e receber outra). E até o vocábulo "tôda", para diferençá-lo de "toda" ´ (coisa que ninguém sabe o que é, mas que deve existir!)

Aí vieram os gramáticos de plantão e desmentiram a professorinha. Disseram: "Esqueçam essa regrinha, que só dá trabalho". E danaram a escrever para desregrar a norma bem lógica e determinada por costume já enraizado. Esqueceram-se de que a língua francesa, bem mais certinha que a nossa "inculta e bela" carrega milhentos acentos diacríticos em seu escrever. Querem ver? Comparem estas frases:

"A floresta muito bonita, enfeitada com flores coloridas, fica perto da igreja" "Le forêt, très jolie, décorée avec des fleurs colorées, reste près de l'église."

No português, em uma frase com doze vocábulos, sequer um acento; na língua de Victor Hugo, treze vocábulos, sete acentos! E não abrem mão.

De tudo, então, veio para nós, os que somos do Sêrro - MG, o desastre: nada de a Vila do Príncipe gastar acento… Mexeram, sem licença, em nosso vetusto e adorável topônimo! E ninguém gritou! A Bahia berrou quando quiseram tirar-lhe o "h". Hóspede "entrão'', ali ficou, com comida e roupa lavada: "daqui não saio, daqui ninguém me tira". E lá deixaram o vocábulo secular, vestido com o "h" tradicional, que não deve nem pode desaparecer. E os manda-chuvas anuíram, obedientes.

Os serranos aceitamos, quando tínhamos maior razão para recusar, pois, além de carregar os mesmos e tantos argumentos baianos, a ausência do acento circunflexo que nos roubaram deixou-nos a confusão com o homógrafo, irmanando um brilhante e histórico topônimo com um vulgar e ensombrecido indicativo presente do verbo "serrar" (eu "serro" ´)

Na prática, um pernambucano ou baiano que só "toca berimbau" – distante da exuberante história da cidade e do nome do Sêrro – vai, necessariamente, desentender a frase, se o termo for escrito de acordo com os ditames dos "doutos" da ABL - Academia Brasileira de Letras.

Alguns vocábulos só ganham a necessária oralidade pela composição das letras e pelos diacríticos – sinais gráficos – que recebem. Assim, o til (~) é um sinal que empresta nasalidade à vogal a que se soprepõe. O acento agudo (´) impõe ao termo o som aberto ou agudo, como em "já", "Zé" e "pé". O circunflexo (^) indica o som fechado, como em "lê", "vês". Isso sem falar no cedilha e no já saudoso trema, que, recém-abolido de linguiças, pinguins e quejandos, precisa continuar constando dos dicionários, após o vocábulo, na ortoépia esclarecedora da pronúncia ("¨"), para indicar que o "u" deve ser pronunciado.

Entretanto, o artigo 1º da Lei nº 5.765, de 1971, determinou que:
"[...]de coformidade com o parecer conjunto da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa [...], fica abolido [...] o acento circunflexo diferencial na letra e e na letra o, da sílaba tônica das palavras homógrafas de outras em que são abertas a letra e e a letra o, exceção feita da forma pôde, que se acentuará por oposição a pode [...]"

Para não "gastar" um necessário parágrafo de exceções, no próprio caput do artigo - exceptis excipiendis – deu a exceção apenas à forma "pôde" por oposição a "pode". Outras exceções se fariam convenientes. Por que só "pôde" pode?

Depois disso, o Acordo Ortográfico de 1990, promulgado pelo Decreto nº 6.583/2008, que também aboliu outros tantos acentos gráficos, determinou que o "pôde" continuava podendo – ou melhor – devendo ser acentuado para o diferençar do presente, "pode". Além dele, também por dever, se acentua o verbo "pôr" – que assim se distingue da preposição "por" – e ainda permitiu outro: o "acento opcional" na palavra "fôrma" que, agora, não mais se confunde com a homógrafa "forma". Isso sem falar dos inúmeros vocábulos que, pelo Acordo, foram mantidos com dupla acentuação gráfica, a fim de resolver as diferenças de pronúncia do português do Brasil e de Portugal. E porque então, pelo mesmo critério, não acentuar-se o topônimo "Sêrro", para que sua pronúncia não se confunda com a da despicienda forma verbal?

Cortar o acento circunflexo de "êrro", "destêrro" e do próprio nome geográfico de "serro" ^ – enquanto cadeia de montanhas, cordilheira, espinhaço – tô nem aí! Mas, de modo apalermado, modificar a forma gráfica do nome de uma cidade histórica é algo que entendo seguramente contestável. Já por motivos óbvios e mais: porque SÊRRO é nome próprio, e, em meu entendimento, em nomes próprios é defeso tocar-se, são imexíveis!

Que é nome próprio, isso afiança o respeitado Napoleão Mendes de Almeida em sua Gramática Metódica da Língua Portuguesa (4ª ed., pág. 80), quando diz que "São próprios os substantivos que designam: 1 – pessoas: Alberto, José, Fernando, Jôfre; 2 – nações, estados, cidades, localidades, acidentes geográficos: Brasil, Recife, Itatiaia, Tocantins."(grifei)

Por sua vez, a norma suprema da República, a Constituição Federal de 1988, deixa claro em seu artigo 5º, que "a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada". Se uma localidade que se fez tombada pelo próprio estado como patrimônio histórico nacional – não tem, em seu nome histórico, milenar, um "direito adquirido", então cria-se um estranho entendimento: apenas o"nome" de pessoas é, legalmente, imutável, e não o de um rio tradicional, um monte, uma ilha de apelido milenar.

Além do mais, pelo rito jurídico, cabe ao estado – e só a ele – dar nome às localidades, ou modificá-lo. Seria lícito a ABL fazer isso? Se assim for, apelo, então, para quem, em norma de maior autoridade, estabeleceu limites a certas liberdades: "Tôdas as cousas são lícitas, mas nem tôdas convêm; tôdas são lícitas, mas tem tôdas edificam." [Paulo, 1 Cor. 10:23]. Seja como for, para mim, serrano de nascimento e alma, a acentuação é intrínsica e inerente à grafia de um nome, e suprimir um acento gráfico é, sim, modificá-lo. Retirar um circunflexo de um nome é roubar-lhe a sonoridade, senão a identidade, é asumir o risco de modificar o falar, ainda que a norma, com sua pretensa autoridade, determine, como o fez, que mesmo com a perda do acento gráfico de algumas palavras, elas continuarão a ser pronunciadas como antes.

Para mim, os nomes próprios teriam que, necessariamente, ganhar excepcionalidade nas normas de reformas ortográficas, limitando-se os gramáticos ao universo dos verbos, das preposições, dos adjetivos e caterva, que sobre esses têm eles algum arbítrio.

Vale ressaltar aqui que tenho ouvido – e não pouco – alguns serranos pronunciarem "AASER ´" (com o "É" aberto), ao invés de "AASER ^" ( com o "Ê" fechado) o nome da admirável "Associação dos Amigos do Sêrro" – fundada, há algum tempo pela notável serrana Dr.ª Maria Coeli Simões Pires e hoje dirigida pela competente Dr.ª Laene Freire.

Teria já a ilógica alteração feita no vocábulo Sêrro contaminado termos dependentes e/ou relativos à esplendorosa matriz de um nome? De tudo, só nos resta agora um caminho: empreender uma serena, porém, inarredável "desobediência civil" (à moda Gandhi), e passarmos a escrever, sempre, com o "chapeuzinho": SÊRRO. Corrigir os desavisados e ganhar a grafia correta do nome da terra em que nascemos, em harmonia com o nosso mais que centenário falar. De mim, há algum tempo, já assim escrevo, e não fui nem preso nem advertido por isso. As tantas exceções de dupla grafia permitidas pelo último Acordo Otográfico assinado conjuntamente por todos os países de língua portuguesa avalizam meu cometimento, meio abusado, porém patriótico.

*** Ivituruy – Arraial das Lavras Velhas – Vila do Príncipe – Sêrro Frio – Sêrro > SERRO…

Obs. Quosque tandem abutere, ABL, patientia nostra?

Postado em dez/2010 - Feiz Bahmed