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Uai

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A DUVIDOSA E SIMPLÓRIA ETIMOLOGIA DA INTERJEIÇÃO MINEIRA 

“UAI 

No de repente, cruzou os céus a mal-contada história da expressão mineira “uai”. E fez-se a hora e a vez de os e-mails voarem Brasil afora, dando conta de uma “descoberta”, repetida nas mil páginas do “sabe tudo” Google. É que o jornal “Correio Brasiliense” informou que a professora Dolária Galesso, juntando-se ao cirurgião-dentista Silvio Carneiro, acatou o pedido do presidente Juscelino Kubitschek de que encontrasse a origem desconhecida (sic) da expressão mineira “uai”.

            Encargo de etimologistas entregue a dois leigos, foram os tais em exaustíssima busca do mistério. Cruzaram mares e invadiram até os arcanos da arquidiocese de Diamantina, onde – sei lá por quê – entendiam encontrar vestígios do que investigavam. Todas as notícias e publicações – repito, todas – informavam que se tratava de um pedido de Juscelino Kubitscheck, o que nos parece ser o “sal” da pesquisa, que, assim, além de engrandecê-la, mais apetecida ficava – sem dúvida, o aval de JK dignificava o dificultoso estudo!

            Os encarregados da pesquisa, então, encontraram a explicação. Descobriram a origem da expressão mineira “uai”. Em seu informe, contam que os inconfidentes mineiros, considerados subversivos pela Coroa Portuguesa, se comunicavam através de senhas, com elas protegendo o secretíssimo intento patriótico que perseguiam. Conspiravam eles nos porões de Ouro Preto e alhures, onde só recebiam os companheiros à moda maçônica: com três batidas na porta, quando de dentro vinha a pergunta “Quem bate?”, o inconfidente respondia: “UAI!”. Eram, segundo os investigadores, as iniciais da sigla secreta “União, Amor e Independência”.

OS ÓBVIOS CONTRA-ARGUMENTOS

  1. Os maçons, que guardam seus invioláveis segredos, teriam, assim, passado um deles a incontáveis inconfidentes?
  1. Por que Juscelino, militando nos altos centros culturais do país, teria dispensado os inúmeros etimologistas e filólogos mineiros e brasileiros, entregando sua consulta a dois leigos?
  1. Uma pesquisa etimológica deve conter provas escritas, proveniências, fontes, datação, registro de termos raízes – ferramentas usuais da etimologia, palavra por sinal vinda do grego e que significa “estudo da origem e da evolução das palavras” (étimos = verdadeiro e logia = estudo, como a define Napoleão Mendes). Vale aqui lembrar ainda o Aurélio, que registra a antonímia desse vocábulo como “Falsa etimologia ou etimologia popular”.
  1. A agora notória descoberta peca, assim, por dar a conclusão sem dar o válido registro de provas. Pergunta-se: onde se encontra escrita, nos mil informes da Inconfidência Mineira, a expressão “União, Amor e Independência”? A meu ver, à pesquisa caberia valorar a informação, citando o registro da sigla em livro ou em outras quaisquer crônicas da época.
  1. Na citada expressão, feita certamente por cultos inconfidentes, acontece a menção a “amor”, o que enfeita a frase, mas, cremos, não refere nada ao sentido político da demanda em que se envolviam.
  1. Conjurada a revolta, alegam os pseudoetimologistas, “sobrou a senha, que, de pronto, virou costume nas Alterosas” Ora, se em 1789, uma elite de mineiros cultos sofreu severíssimas penas conferidas a “crime infame” – como a gente mineira iria dar curso imediato em seus diálogos e escritas à sigla “UAI”, que, objetivamente, remetia a um pleito contra a Metrópole, considerado de altíssima criminalidade? Por lógica, tal expressão deveria, em bom juízo, ser deslembrada e impronunciável…
  1. Falha a pesquisa, por fim, pois, em consultando o dicionário Aurélio, lá diz que “uai” é uma interjeição vinda do “provincianismo português”; e o mestre Houaiss o confirma, definindo “uai” como um “regionalismo de Açores, arquipélago de Portugal no Atlântico”.

            Gente, a origem das expressões, muitas são “duvidosas”. Ainda há pouco fiquei sabendo que “trovoada” não é “Papai do Céu ralhando”. Mas, por muito tempo eu acreditei na pesquisa de minha mãezinha, que assim me dava conta, com seriedade, quando das minhas traquinagens infantis… Trovoada é, provadamente, uma descarga elétrica das nuvens! Sabiam? Pois é, sem desmerecer a grande sabedoria de minha mãe, eu hoje prefiro acreditar na pesquisa da ciência, em tudo e por tudo.

Post fev/2012 – Feiz Bahmed