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Majestoso Brilhante

 

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Anel Brilhante

O pôquer, a bordo do gigantesco navio Ed Quinker, dava aos cinco felizes passageiros, parceiros do jogo, um ambiente alegre e bem-humorado, fruto do prazer do tradicional divertimento, certamente somado à tranquilidade e ao luxo da embarcação, já conhecida de todos nas suas frequentes viagens internacionais.

          O empresário Sávio Couto Servillo trouxera à mesa sua linda esposa, Danielle, de quem, em todo o percurso da viagem, nunca se separava. Embora se entusiasmasse sempre com as emoções que o pôquer lhe trazia, era a presença da sua “Dani” o que mais enfeitava aquela noite gostosa, sobre um mar tranquilo.

           Ao lado do esposo, distraía-se Danielle com as cartas do baralho que Sávio, com grande e propositada morosidade, fazia escorregar com um dos dedos, na otimista esperança de que “entrasse” o ás que faltava à sua “sequência máxima”, assim chamada porque se fazia da carta dez, seguida do valete, da dama, do rei e, finalmente de um ás, que lhe faltava. Danielle, que de tudo sabia um pouco, só pouco sabia de pôquer. Certamente por isso, irritava-se com a lentidão do marido:

            – Mas, por que essa lerdeza no abrir as cartas? Isso irrita! Quero ver logo se lhe saiu um royal straight flush, como vocês dizem, o jogo-rei do baralho!

        – Não é assim, Dani; o bom do pôquer é filar as cartas devagarzinho, para, assim, adivinhar qual será ela, pelo simples e inexpressivo pedacinho visível da cor, ou do número, do D da dama, do J do valete ou do R do rei!!! Você deveria entender, pelo muito que me acompanha nas noitadas em nosso clube.

            – O simpático e elegante parceiro de jogo, Joseph, que Sávio conhecera a bordo, e com o qual discutira, animadamente, futebol, política e filosofia, interveio:

            – Você, Sávio, está certo no que diz à sua companheira. Mas, talvez se esqueça de que, tendo ao lado a figura – se me permite dizer – maravilhosa de Madame Danielle, deveria abandonar os hábitos e a burocracia do jogo e atender à esposa, abrindo as cartas na velocidade conveniente, a fim de satisfazê-la.

           – Se já estou, até agora, perdendo três cacifes – respondeu Sávio – e vem você ainda sugerir que eu abra mão do único prazer que me resta, que é filar lentamente minhas ingratas cartas, é muita amargura junta para um “pobre marquês…”

           – Não se queixe das perdas do jogo, Sávio – retorquiu Joseph –. Você bem conhece o ditado: “infeliz no jogo, feliz no amor…” Ademais, é fácil adivinhar a fortuna do amigo, quando não fosse pelo que já me disseram, a bordo, de suas valiosas exportações, valeria observar o tamanho e a expressão do brilhante que sua esposa, elegantemente, conduz no dedo indicador, dando ares majestosos a essa pedra que, a toda hora, me assusta pelo brilho que me joga nos olhos

        – Como as aparências enganam, Joseph! Gostaria de ter a fortuna que lhe foi confidenciada por algum mal-informado amigo meu. Mas, vá dizendo, vá dizendo; que os anjos escutem e me ajudem nas exportações, passando eu a vender para a Alemanha e pro Japão, o que sempre foi meu sonho… Vá dizendo…

     Sávio silenciou a respeito do brilhante citado por Joseph. Este, no entanto, voltou ao assunto, o que o obrigou a esclarecer, entre gargalhadas, sarcástico e irônico, que Joseph não devia ser um expert em jóias, pois estava inteiramente enganado quanto à pedra, que, na verdade, não era legítima. E emendou:

 – Diga a ele, Dani, quanto custou esse “rico” brilhante por que tanto se encantou o nosso amigo… Diga!

              – Diga você, Sávio, pois já lhe contei mil vezes!

              – Não, Dani, diga você, que comprou a “jóia…”

              – Bem, digo. Não guardo qualquer orgulho tolo. É um anel, digamos, esportivo. Senhor Joseph, o Senhor deve conhecer bem de brilhantes… Mas este é um simples “zircônio”, comprado por mim mesma, quando em férias aqui, no porto de Nova York, onde se escondem aqueles vendedores de réplicas de famosos relógios e também de pedras. Entre muitas, achei esta linda e a adquiri pela “fortuna” de trinta dólares!

              – Posso ter a honra de vê-lo de perto, posso?

              Danielle passou-lhe, delicadamente o anel, não disfarçando seu sorriso pela situação criada.

              Joseph tomou a pedra, colocou-a em várias posições, contra a luz, delicadamente esfregou-a na lapela do smoking, mirou-a de todos os lados e, voltando-se para Sávio, disse-lhe:

              – Meu caro amigo, até onde entendo de pedras preciosas, você está desejoso de, por modéstia, esconder a legitimidade desta pedra. É ela um brilhante genuíno, e dos bons.

              – Se você tem tanta certeza, Joseph, vamos fazer uma “apostazinha”… Cinquenta mil dólares; aceita?

               Joseph julgou exagerada a quantia, e fecharam a aposta, formalmente, por trinta mil dólares. Tão logo em terra, levariam a pedra para ser avaliada por um joalheiro de confiança.

               Talvez pelo acontecido, Danielle desinteressou-se do jogo e achou melhor recolher-se, o que fez, alegando sono.

                O pôquer continuou noite a dentro e só pela madrugada resolveu-se pôr fim ao jogo. Foi quando Joseph se despediu dos companheiros e foi ter à sua luxuosa cabine. Ao entrar, percebeu algo no chão, certamente posto por debaixo da porta. Apanhou o papel. Era um cheque. Assinado por Danielle M. Servillo, esposa do companheiro Sávio! Curiosamente, do valor de trinta mil dólares!

               Ainda vestido, Joseph recostou-se em sua cama, pôs-se a meditar, mas não teve dúvidas. Entendeu que o cheque objetivava a que ele desdissesse a avaliação que fizera da pedra, admitindo, agora, como falso o brilhante. Embora isso pesasse em seu conhecimento e o humilhasse um tanto, cabia-lhe, no caso, de forma inconteste, antes de tudo, ser um cavalheiro.

                Afinal, o grande prejuízo não seria o dele. Teria sido, certamente, de um descuidado marido que, em negócios pela Europa, deixara a linda mulher, sozinha, flanando na estroinice de uma pecadora Nova York…


                                                                                                                              Post / fev / 2010 – Feiz Bahmed