Pesquisa:

A Formiguinha

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Há tempos penso em divulgar minhas pesquisas com formiguinhas que frequentam minha mesa da copa. Nunca aparecem quando lá estamos no lanche da tarde, no costumeiro cafezinho “boca de pito” ou no “papo” regado a cerveja que ali acontece quase sempre. Sua ocupação, no entanto, é no vazio da noite ou nas silenciosas tardes domingueiras, evidenciando, desse modo, um raro senso de oportunismo e discrição. Sapientíssimas!

Bem pequenas, medem, aproximadamente, três a quatro milímetros, de cabo a rabo. Eu diria serem elas bem bonitinhas, só vendo! Portam-se com elegante senso de cavalheirismo, e andam sempre aos pares ou trincas, nunca em chusmas ou turbas. Distanciam-se assim das outras maiores, donas de um subdesenvolvido e caipira instinto gregário, que se deleitam em pastejar em bandos ou filas intermináveis. Detesto-as! Chifrudas, entronas, chatas e exploradoras habituais de nosso acervo de coisas apetitosas – onde quer que a gente as esconda. Vivem de conluios. Fraudulentas, sempre em grupo, incriminam-se em suas invasões de domicílios e formação de quadrilhas. Encontram-se a toda hora, inclinam-se para as companheiras, cochicham entre si segredando confidências quase sempre – desconfio – em nosso desfavor.

As minhas formiguinhas, não. Com elas me divirto: cerco-as com filetes d’água, sopro forte sobre elas que, firmes, impassíveis, aturam o “vendaval”; brinco com elas de pegador e tudo. Fico a mirá-las, pensativo sobre como um corpinho daqueles, de milímetros, pode, com seis perninhas, sair a correr como uma pequena Ferrari de seu mundinho, a 240 centímetros por hora!
Andam, param, correm e, para isso, como nós outros, ganham a energia na sua permanente faina por comida – restos de pão e bolachas que, por mais que retirados, deixam sua marca em minúsculas migalhas de que se alimentam os bichinhos. Têm boca, garganta, estômago, fígado e rins microscópicos que, maravilhosamente, lhes dão a energia e, com ela, a vida.

II

Tudo muito bonito, mas ontem – era uma hora da manhã – me estrepei! Vi que umas formiguinhas andavam lépidas pela mesa, passeando em busca de um pequeno rango, à guisa de sua ceia, certamente. Depois de acompanhar seus roteiros, como às vezes faço, a título de pesquisa, peguei um cálice de cristal transparente e “pá!”, prendi sob o cálice uma delas que, em desvairado apuro, começou a correr, afogadiça, naquele círculo sem saída. Sim, ela, para além de agilíssima e fugidia, que melhor meio teria de vê-la e deleitar-me com o bichinho?

A princípio, a formiguinha pareceu não se sentir presa naquela – para ela – catedral de vidro. Cercada em todo o percurso, começou a correr veloz, sempre circulando apegada à borda interna do cálice e, após voltas e voltas, supus, já entenderia estar prisioneira. Ainda assim, por natural instinto de conservação e defesa, tudo fez para sair do que já desconfiava ser uma prisão perpétua, ainda que iluminada e, por que não dizer, requintada e moderna! A prisioneira deu uma, cinco, dez, trinta voltas dentro de sua inusitada prisão, em busca de uma forma de livrar-se daquele martírio a meu ver mais “psicológico” que físico.

Seu raciocínio seria, acredito, o de que todo lugar neste mundo teria uma porta ou mesmo um buraco para se fugir. Precisava encontrar o caminho, um vão, uma passagem qualquer para voltar ao mundo. Por isso, continuava enérgica, a correr desatinada dentro da insólita cadeia.

III

Saí da copa e entrei, despreocupado, em meu escritório a fim de fuxicar os intermináveis e-mails no computador. De forma um tanto sádica, deixei que ela continuasse sua aflita e infrutífera busca por uma porta, uma fenda, por onde escapar. Aprazia-me saber que, quanto mais tempo vivesse ali, maior alegria teria quando fosse libertada.

Em dado momento, entretanto, acudiu-me uma séria dúvida: será que o bichinho, tão parente nosso, não estaria vivendo, como nós, um sinistro drama de claustrofobia? – Eu já passei horrores em um elevador parado! – Ou, então, um conflito de agorafobia, que me disseram ser um terrível medo de ficar sozinho em grandes praças ou espaços abertos? E eu a abandonei só, num mundão sem fim, Deus do Céu!

Corri a vê-la, vinte ou trinta minutos após deixá-la, e assustei-me! Estava ela tombada, imóvel, recostada à parede interna do cálice, arriada, quieta e, para minha surpresa – cria eu –, infelizmente, morta, a coitadinha… Morrera certamente da estafa a que se impusera na labuta de correr e lutar para salvar-se!

Entrei então num penoso complexo de culpa por haver tirado a vida de um ser que passeava, feliz e saudável, em busca, sem dúvida, de um alimento, vale dizer, da vida. Assumindo essa realidade, o que me restava era, emocionado, fazer-lhe o necessário e tradicional velório. Que mais poderia eu? Mirei-a e a vi (vi?!) pálida, parada, sem vida.

Pensativo, senti que meu assassinato fora um ato doloso! Sim, à luz do Código Penal, embora não tivesse vontade consciente de praticar o ato criminoso, assumira, por egoísmo, o risco de produzi-lo. Daí o dolo, que, de imediato, assumi honestamente. Cabia-me saber que aquele ser inocente poderia morrer após o esforço imenso e descontrolado que faria para escapar. Não me perdoava. Deveria eu, agora, fazer-lhe uma oração? Não. Formiguinha não é um ser humano. Seria risível. Teria ela um céu? Teria um Deus? Sei lá! Na dúvida, tentando amenizar minha culpa, em silêncio – eu estava sozinho – chacoteei minha vaidade, fiz no peito um sinal da cruz e pronto. Por bobagem. Besteira! Mas fiz. Imaginei enterrá-la de modo formal. Afinal, doía-me jogá-la no lixo. Só me faltava a ideia de um local à moda de sepultura para o bichinho. Não havia. Pensei, então, num moderno extermínio do corpo: vou cremá-lo!

Busquei uma vela nova e o fósforo que se achava na prateleira da cozinha e, de forma a mais solene que me foi possível, aproximei-me do então cadaverzinho. Mirei-o. Estava hirto, tranquilo, como se dormindo estivesse…

Era a hora derradeira. Sentia ainda o peso da culpa quando acendi a vela. Pesou-me à alma ver a então imensa chama da vela pronta para queimar um pequenino ser, ali inerte, imóvel, morto! Era necessário coragem, e eu a tive. Molhei o dedo na boca a fim de carregá-la para o sacrifício. Com determinação, então, levantei o cálice para retirá-la. Entretanto, descoberto que foi, o cadaverzinho deu um espertíssimo pulo e correu, lépido, esbelto, pela mesa afora, à velocidade de um tornado! A pequenina, de forma inteligente, deixou-me, enganado e idiota, a segui-la com os olhos, até que desceu, rapidíssima, lá no fim, pela ponta arredondada da mesa…

Entre feliz e estarrecido, veio-me à mente o pensamento de que é comum nascer em nós ardentemente um sonho e, depois de por ele muito lutar, um dia, desiludidos, cansados, o abandonamos morto numa esquina qualquer da vida. Agradeci, no entanto, o que, de forma pouco acreditável, naquela madrugada, a formiguinha me ensinou…


 


Post novembro/2010 - Feiz Bahmed