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Anel jogado ao chão

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  I

Enquanto, por cinco anos, me ensinavam as coisas primárias de “engenho e arte”, no então Ginásio de minha saudosa Diamantina – o “Ginásio Diamantinense” – de tudo me ocupava numa intrigante mistura de conhecer e de brincar. Lá estava, sabia eu, para dar trato à cabeça, mas havia pasto – e muito – para as coisas que levavam a gostosas estripulias: futebol,corridas, basquete, vôlei, barra fixa, etc. O recreio se fazia em amplo campo repleto de felicidades.

Gostava, particularmente, do basquete. Nossa quadra no Ginásio, porém, era de terra batida. O 3º Batalhão de Caçadores Mineiros, que morava – ou ainda mora – num pequeno morro da zona urbana, possuía, além de um bom time de basquete, uma quadra bacana, cimentada e tudo. Era comum, no de vez em quando, nosso grupo de atletas se deslocar para lá, onde, após pedir licença ao Comandante, treinávamos em campo de gente grande.

Numa dessas incursões, subindo ampla rua após o primeiro portão, já nos domínios do quartel, encontrei, jogado ao chão, um anel de ouro com uma pedra que me pareceu ser um brilhante. Meus companheiros – não mais que dez – curiosos, se acercaram de mim e festejaram o achado, cujo valor, se dividido entre o grupo, daria, certamente, para todos os cinemas e sorvetes do ano então corrente, sobrando, certo, para o ano que estava por vir.

Contudo, guardei a jóia no bolso e fui em direção ao prédio onde cabia sempre a mim a inevitável missão de solicitar a devida licença para usarmos a quadra em nosso treinamento. Já na antesala do comando, me lembro de ter solicitado ao Sargento de plantão que me permitisse entrar no gabinete do Comandante Villas Bôas. O Sargento se recusou a me deixar falar com o Comandante, dizendo que o faria por mim. Não concordei e, um tanto atrevido, disse-lhe que precisava falar ao Comandante. Eu, não ele. Por fim, vendo minha disposição e empenho, acabou por concordar. Ao final, entrei.

O Comandante Villas Bôas tinha perto de dois metros de altura! Por seu porte, pela engomada farda militar e pelo tamanho da sala, a princípio, me intimidei.

Ao ser recebido, contei-lhe o ocorrido e lhe entreguei o anel que havia encontrado. O Comandante perguntou-me meu nome, idade, série que cursava, e tudo anotou silenciosamente. Aquela atitude me deixou um tanto tenso, pois as relações entre nós, estudantes, e o pessoal fardado que policiava as ruas de Diamantina não eram das mais saudáveis. Mas, prender a gente, embora imaginasse viável, pareceu-me injustificável naquela circunstância.

A frieza com que me recebeu o Comandante, somada à altissonante vaia recebida dos colegas que tomaram conhecimento de minha atitude de “puxa-saco” me acabrunharam. Achei que seria o herói da tarde e me trataram como se fosse um Judas Iscariotes. Coisas da vida…

II

Nosso refeitório no Ginásio Diamantinense era composto por inúmeras mesas, em cada uma das quais se acomodavam cerca de oito ou dez alunos. Havia um púlpito, no centro, onde, algumas vezes na semana, durante a refeição, um aluno ali fazia leitura, ouvida silenciosamente por todos os cento e poucos internos. Por regra ou tradição, liam-se ali, então, “atraentes trechos” do “Velho Testamento”! Uma festa!… Lição religiosa para jovens com idade entre onze e dezesseis anos, ainda em formação, que só desejavam falar e ouvir futilidades e “coisas depravadas” como: futebol, pingue-pongue, filmes de cowboy e de “mocinhos” e, até mesmo, mocinhas!… Em outros dias, a palavra era totalmente franca e o ambiente se tornava um retumbante e alegre falatório.

Num desses estrepitantes almoços, passados alguns dias do achado do anel, o então Reitor, Cônego Sebastião – ortodoxo vibrante e clérigo cheiroso dos perfumes que usava e abusava no cotidiano – tocou o tímpano: sinal que determinava silêncio total. De papel em punho, leu para todos a oficial comunicação nº 3.885, inscrita em papel timbrado da “FORÇA PÚBLICA do Estado de Minas Gerais – 3º Batalhão de Caçadores Mineiros”. O teor da comunicação, dirigida ao “Exmo. Snr. Cônego Reitor do Ginásio Diamantinense”, e cujo original encontra-se arquivado na Secretaria daquele estabelecimento de ensino, era o seguinte:

Diamantina, 23 de setembro de 1940

Exmo. Sr. Reitor,

É possuído do mais intenso júbilo que venho trazer ao conhecimento de V.Excia. uma belíssima ação praticada por um dos alunos desse conceituado educandário.Trata-se do jovem Feiz Nagib que encontrando nas proximidades deste quartel um anel de ouro, apressou-se a entregar-me, persuadido que o mesmo pertencesse a algum militar.

Efetivamente, tal objeto pertence ao sargento Otelino Januário da Cruz a quem foi entregue e valho-me da oportunidade para elogiar o gesto de Nagib, digno de ser imitado por todos.
Cordiais Saudações

O Comandante,a) Major Adhemar Villas Bôas
O restante dessa história é contado pelas correspondências que se seguiram a essa comunicação que coroou de honra um simples e espontâneo gesto de honestidade. A próxima carta partiu do Ginásio Diamantinense, e era endereçada a meu pai:

Diamantina, 28 de setembro de 1940.

Prezado amigo Sr. Nagib,
Minha visita ao Sr. e à Exma. Família.
Tem esta um duplo objetivo: - 1º - enviar pára o seu conhecimento e dos seus, um ofício do comando do 3º Batalhão da Força Pública com referência a um belo gesto do Feiz e 2º - transmitir ao Sr. e a sua Exma. Família os meus cumprimentos.
Pediria ao Sr. a fineza de devolver o ofício, o qual deverá ficar arquivado neste Ginásio.
Sempre ao seu dispor,

O crº obrº

a) Mendonça

Secretário do Ginásio Diamantinense
O “meu” senhor Nagib Bahmed ao receber a elogiosa missiva, que exaltava as “virtudes” de seu rebento, fez questão de registrar seus sentimentos na grata correspondência que, por sua vez, dirigiu ao Comandante:
Serro, 5 de outubro de 1940
Exmo. Sr. Major Adhemar Villas Boas
DD. Comandante do 3º Batalhão de Caçadores
DIAMANTINA

Exmo. Sr.

Tenho a honra de levar ao conhecimento de V.S. que tive a grata satisfação de ler o offício n. 3.885 de 23 de Setembro p.p., dirigido por V.S. ao Sr. Reitor do Gymnasio Diamantinense, elogiando um acto praticado por um aluno do referido estabelecimento, que é o meu filho Feiz Nagib. É grato, Sr. Comandante, ao coração de um pae saber que seu filho procura cumprir o seu dever e praticar actos que lhe proporcionam tão honrosos elogios. Portanto, si é justa a minha satisfação pelo acto por ele praticado, é justíssima a minha gratidão pelo gesto tão nobre e de tanta significação do nobre Comandante, fazendo o elogio que tanto eleva e estimula o filho para sempre agir com dignidade na vida.

Queira pois, Sr. Comandante, aceitar os meus sinceros agradecimentos e os protestos de minha alta consideração e apreço, acompanhados das mais cordiais e Respeitosas Saudações

a) Nagib Bahmed

O ofício seguinte partiu da “FORÇA PÚBLICA do Estado de Minas Gerais” e foi, desta vez, dirigido a meu agradecido orgulhoso “pae”.
Diamantina, 11 de outubro de 1940 –
Ao Sr. Nagib Bahmed
SERRO

Ilmo. Sr.:
Ao acusar o recebimento de vossa carta de 5 do corrente, venho reafirmar-vos meu elogio feito a pessoa de vosso filho Feiz Nagib.Deve ser grato ao vosso coração de pae o saber que aquele que deverá ser o continuador de seus passos, comece por fornecer exemplos que o dignificam.
O gesto do menino Nagib, espontâneo e leal serve para espelho daqueles que, menos avisados, erram movidos simples e puramente pela ignorância.Queira aceitar os votos de minha grande estima e consideração.Cordiais Saudações,

a) Major Adhemar Villas Bôas

Nota do autor: O pessoal, naquele tempo, achava que ser honesto era coisa muito boa.
Êta subdesenvolvimento!

Post/ outubro/2010 - Feiz Bahmed