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Meu tio cultor de Kant

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Sim, tenho muito que contar de meu tio, cultor de Kant, seu alter ego, mas que, por nome, na pia de batismo, botaram-lhe Aristóteles. Também, ninguém pode adivinhar. Morava em São Paulo, mas, de quando em vez, vinha visitar o Serro, em Minas, sua terra natal, hospedando-se em nossa casa. Em suas conversas com os poucos intelectuais autóctones, de sua época, falava sempre de Kant, a quem eu – criança ainda – julgava tratar-se de algum amigo paulistano. Só quando me tornei adulto percebi que, conquanto tenha sido, sim, um “fiel amigo”, não era nenhum paulistano. Mais tarde, por seus escritos, compreendi a profunda ligação de meu tio com o filósofo, por quem também passei a interessar-me, menos por entendê-lo, confesso, do que pela vinculação afetiva de seu nome, que remetia à lembrança do querido tio que o cultuava.

Menino, eu, admirava meu tio pelas respostas sempre prontas e claras que dava às minhas constantes e ingênuas perguntas infantis. Sempre a ele apegado, quando o tinha como visita em nossa casa, gostava de acompanhá-lo em seus constantes diálogos com os amigos, ainda mais porque, não raro, ele me brindava com balas, presentes e me mandava “alugar” a sinuca do bar, onde, com ele ou sem ele, eu passava boa parte do dia.

Mais amadurecido, muito ainda dele, indiretamente, me valia, através da robusta biblioteca existente em sua fazenda, a que, idoso, retornara e aonde fortuitamente ia eu, confesso, malandramente, não apenas pelos livros, mas também pelas uvas, pêssegos e maçãs por ele cientificamente cultivados em terras dantes possessão tradicional das caipiras mandiocas e inhames… Também fabricava rosas, meu tio – fabricava, sim, pois as fazia em cores artificiais, mediante enxertos e injeções milagrosas, tomadas como magia pelos roceiros.

Em praticamente todos os livros de sua grande biblioteca, podia-se ler, em letras de forma, o escrito do autor, e, sempre, ao lado deste, a lápis ou pena, a crítica admirável do acurado leitor, concordante, discordante, ou de arremate. Melhor me pareciam sempre as letras dele que as impressas, já que, quando preciso, meu tio acometia, apedrejando e bronqueando quanto coubesse na estreita tira branca da página. Falava ali, também, com frequência – exaltando ou censurando – através de símbolos de exclamação, interrogação, reticências…

Guardo ainda comigo um livro que dele herdei: “O Futurismo que passou”, no qual fez meu tio, a seu modo, severas críticas ao então nascente movimento artístico e literário que teve berço na Itália nos primórdios do século XX. O Manifesto Futurista, escrito pelo poeta italiano Filippo Marinetti (1876-1944), publicado no jornal francês “Le Figaro” em 1909, rejeitava o moralismo e, igualmente, o passado, proclamando a identificação do homem com a máquina, a velocidade e o dinamismo do novo século. O mundo se levantou contra. Meu tio, à pena e à tinta, no corpo do livro, postou-se ao lado do mundo.

Tela Futurista

Enunciava o Futurismo um tipo novo de beleza, baseado na velocidade e na elevação da violência. Por sua ojeriza ao passado, chegou a defender a destruição dos museus e a considerar a guerra como um processo de higienização do mundo. Identificado com o fascismo, o movimento desenvolveu-se em todas as artes principalmente na Itália e na França. “Barrado” por meu tio, no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, morreu o Futurismo ao fim da Primeira Guerra Mundial.

À guisa de biografia, devo contar que meu tio nasceu em Serro, MG, e seus estudos se fizeram em São Paulo, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em fins do século XIX e nos dias iniciais do século XX. Trabalhou por bom tempo na redação do famoso jornal “O Estado de São Paulo”. Por sua notória elegância e relevante cultura, mantinha convivência habitual com a sofisticada sociedade quatrocentona paulista de seu tempo.

Um dia, porém, com sua incontestável ajuda, desfez-se grande parte das inúmeras fazendas de sua família em Minas Gerais, obrigando-o a – no gesto do filho pródigo – regressar à sua terra e abrigar-se em uma das belas fazendas restantes, continuando, porém, ali, fiel ao seu conspícuo padrão de vida. Distante de seu “primeiro mundo”, arredio, porém sempre altivo, sem lamúrias, um dia adoeceu. Não de coisa à toa, resfriado, tropicões – não era de fazer acontecer senão algo grandioso – adoeceu de mal mortal!

Foi quando chamaram à fazenda o Dr. Antônio Tolentino, de quem era cliente e amigo. Contou-nos o médico que, ao chegar, intuiu, de pronto, que seu estado era bem grave. Entendeu, igualmente, que seu amigo já se conscientizara da gravidade de sua moléstia mortal. Pouco se poderia fazer para minorá-la.

Após tentativas vãs, em toda uma triste tarde de agonia, por gestos, meu tio pediu a seu médico papel e lápis. Faria – e fez – ali seu último discurso. Na folha em branco, acima, meu tio escreveu em grandes letras: C O R P O. Abaixo, foi tomando, por empréstimo, as letras com que compusera a palavra de cima. Por primeiro, a letra P, que colocou abaixo, riscando a do alto. Prosseguindo, riscou um O e o levou para baixo; após, riscou igualmente o R e o colocou no vocábulo que abaixo ia construindo; cortou o C, e o levou para a nova palavra, para onde, ao final, deslocou o último O, riscando-o acima e completando seu novo vocábulo: P O R C O.

Entregou o papel a seu médico. Já não falava. Morreu. No mesmo dia, logo que pude, tomei o papel do médico – meu cunhado, Antonio – e, em minhas mãos de criança, li sua breve e culta palestra. Foi a última resposta que concedeu às minhas constantes e ingênuas perguntas de menino. Era 1940.

Post/outubro 2010 - Feiz Bahmed