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Orlando, sempre ousado!

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O casamento era na igreja de Santo Tomaz de Aquino, em Messejana, bairro de Fortaleza, local onde, há tempos, viveu uma Iracema, segundo nos conta o quase poeta Zé de Alencar.

Chegamos cedo, eu e meu bom amigo cearense, Orlando, jovem e elegante, engravatados, ambos, para a cerimônia. Como é do hábito, pusemo-nos à espera da noiva, embora já estivesse ali o noivo, Antunes, como sempre acontece.

Estávamos de pé, e Orlando, sempre atento a tudo, chamou-me a atenção para uma moça que ele, solteiro e assaz mulherengo, fitava à distância, falando-me ao ouvido, com todo o ardor da sua juventude:

               – Veja ali, junto à pilastra, aquela “gata” loira, que, parece, não para de olhar-me…

               Mas, conhecendo, de longa data, meu bom amigo, eu sabia que ele, sim, é que não parava de olhar a loira, que se punha um tanto distante, e que ele descobrira entre tantos e tantas elegantes que lotavam a igreja. Não me interessei, óbvio, pela sua conversa, a não ser mais tarde, quando percebi que se aproximava da tal moçoila, que ele apelidara de “gata”, um cavalheiro que a tomou pelo braço. Foi quando, de forma muito racional, como sempre eu o aconselhava, falei-lhe, quase ralhando:

               – Orlando, veja que a “gata” tem a seu lado alguém que me parece ser seu feliz marido! Cuidado, moço, seja mais prudente e sensato…

               – Não creio, disse-me, em resposta. Com certeza haverá de ser um irmão ou amigo, sei lá.

               Com o correr dos minutos, percebemos que estava eu com boa razão. A forma como o casal se havia, abraçando-se e entrelaçando-se, dava-nos a certeza de que ou eram noivos – a loira e o cavalheiro – ou recém-casados, pelo muito dos cuidados com que ambos se punham em plena igreja de Deus.

               Orlando se aquietou, por via das dúvidas, e até passou a portar-se mais comedido, menos ousado, às vezes medroso, mas disposto sempre a encarar aquela descoberta que lhe fazia mui bem aos olhos.

               Findo o longo tempo de altar, do trivial e prosaico aconselhamento sacerdotal aos nubentes, do “até que a morte os separe”, saímos logo, como todos, e tomamos o meu carro.

               Já na saída da igreja, passamos pelo Mercedes do casal, parado que estava no adro, como se esperasse por alguém ou por outra coisa. Verdade é que, tão logo partimos, propositadamente acelerados, o carro do casal nos acompanhou. Um tanto nervoso, fiz ver ao Orlando que eles nos seguiam de perto. Punha eu maior velocidade no plano da rua e, em atrás de nós, o casal fazia o mesmo, deixando claro, para mim, que, certamente, iam em nosso encalço.

              À vista do ocorrido na igreja, disse a Orlando que seu procedimento me fazia crer que o casal nos seguia e isso não me parecia nada bom. Orlando, um tanto otimista, refutou:

               – Você está vendo coisas! Um carro, quase sempre, vai atrás de outro. Nada de anormal.

               – Se lhe parece normal, vamos entrar numa das ruas à direita ou à esquerda, e assim os deixamos passar à frente e ficamos livres desse imbróglio em que você nos pôs.

               E assim fizemos. Tão logo nos apareceu a oportunidade, entramos à direita, numa ruela, na esperança de que eles não continuariam no rumo em que íamos. Foi quando se confirmou minha previsão. O Mercedes do casal nos acompanhou nesse total descaminho de nosso trajeto… E não o fez por menos, buzinou forte e pareceu-me que quem buzinava estava um tanto irascível.

               – Está vendo, Orlando?! Disse eu. Vamos um tanto à frente, mas acho que devemos parar e esperá-los. Não podemos correr de enfrentá-los, se isso é o que eles pretendem. Mais alguns minutos, parei meu carro. Atrás, o casal, como supunha, também parou.

               – Pois vamos descer, disse-me Orlando. Se querem briga, não sou covarde.

               Descemos, decididos a saber o que queriam eles, já que o cavalheiro também desceu e nos pareceu, a pouca distância, um tanto nervoso. Fomos ambos ao seu encontro. Ao nos aproximarmos, disse-nos ele:

               – Estamos certos de que os senhores estão indo para a recepção do casamento, não? Como não sabemos o local, os acompanhamos desde a igreja. Não estão indo para a recepção?

               – Sim, disse eu. É que buscava aqui um posto de gasolina que há mais adiante, mas voltaremos no rumo do local da festa… Teremos prazer em guiá-los. É no Clube Náutico. Siga-nos, que estamos perto.

               Orlando não quis se omitir. Dirigiu-se ao desconhecido:

               – O Senhor é daqui?

              – Não, somos de Teresina, Piauí.

              – Belíssima, encantadora cidade!

              E assim ganhamos o ânimo de que tanto necessitávamos.

Post fev/2012 Feiz Bahmed