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Rodrigues, Valente e Romântico

 

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Era um livro português bastante antigo, que me foi emprestado há anos por meu amigo Ferraz, pouco tempo após aportar no Rio, vindo da sua saudosa Lisboa. Trouxera-o em sua bagagem internacional e era, conforme me dissera ele, além de obra rara, um bem de família. Atento às recomendações a mim feitas, alusivas à excelência do escrito, entrei a lê-lo tão logo me vi sozinho, na companhia da obra incomum.

Conto ao eventual leitor que, realmente, o Ferraz dissera verdade: o livro era composto por capítulos inesquecíveis. Tendo devolvido sem demora a obra emprestada, desditosamente, ao longo do tempo, fugiram-me da memória todos os capítulos inesquecíveis… o nome do autor e o título do livro. Foi uma exceção haver guardado a história de um impetuoso Rodrigues, português nascido em Évora, educado em Coimbra, de onde trouxera nenhum lustro, mas bastante orgulho, em mistura com valentia, atrevimento e audácia.

Vivia ao tempo em que a “guerra” política entre Portugal e Espanha se fazia na imprensa de ambas as nações, assim como nas ruas, nos bares e até nos lares marcados por nobres sistemas éticos. Tudo não era senão um forte entrevero crítico e mútuo, em que um país desprestigiava a sociedade do outro, na zombaria, na burla e no deboche dos costumes, da ética e dos governos coroados. A crítica ao país vizinho tornou-se tema consensual em ambas as pátrias, ganhou os salões, e até mesmo o clero alienígena era criticado nos púlpitos das catedrais e das paróquias mais humildes.

Tanto que coube a Rodrigues – conta o livro – compor uma quadrinha, ainda que de pé quebrado – restos de alguma iluminação poética que, a despeito de tudo, trouxera não das aulas, mas das noitadas de Coimbra. O poemeto, que se popularizou em toda a Lisboa e nas ruas de muitas das cidades lusas, explorava o fato de o Arcebispo de Lisboa, Dom Antônio, ter o mesmo nome do arcebispo espanhol, de Madri, e dizia:

Vagava Rodrigues pelas cidades portuguesas e, de forma costumeira, entrava em balbúrdias, anarquias e frequentes desordens que, quase sempre, acordavam a polícia, da qual sabia ele fugir mundo afora, saltar os limites, buscar a fronteira e cair em solo de Espanha, livre e distante da polícia portuguesa.

Inversamente, também em Espanha, quando sofria as críticas ao seu Portugal, entrava em brigas, ardis, armações e ciladas, mas,  valendo-se de seu perfil vigoroso, arrojado, forte e impetuoso, quase sempre desviava os que o desafiavam. Porém, por sabedoria, jamais enfrentava a polícia, que se tornaria pronta a atacá-lo, insuflado o seu ânimo pela igual divergência e contraposição dos espanhóis a  Portugal e a portugueses.

“Entre o Antônio de cá e o Antônio de lá
existe uma grande disputa:
o de cá é filho da fé, o de lá… não é.” 

Assim, quando prudente era, mormente após bagunças ruinosas, Rodrigues se fazia ágil em busca do caminho inverso; perquiria, nas plagas espanholas, a fronteira mais vizinha e ia  ter, logo de volta, à sua pátria amada.

Certa noite, estando em Madri, entendeu que bom seria ir ao teatro assistir a uma peça que fazia sucesso na cidade, já pelo tema, já pelos novos atores dele pouco conhecidos. Rodrigues dominava bem a língua espanhola, mas tudo fazia para nela aperfeiçoar-se. Chegando cedo, postou-se na primeira fila, onde melhor se ouvia e melhor se captavam as gírias e as expressões menos comuns.

Tudo corria naquele caminho morno em que se colocam os primeiros diálogos de uma peça, tal qual as cenas primeiras de um filme e até mesmo as esperançosas primeiras conversas de amor. Até que, lá pelo meio do segundo ato, o ator que representava um famoso ministro espanhol se exaspera e, colérico, enfurecido, grita sua fala:

– Antes que acabem por lusitanizar a nossa Espanha, enforquemos o idiota Rei de Portugal, o maluco, o capadócio Afonso V, chamado o africano, o bronco, presumido, e adoidado português…

Em meio à fala do personagem, Rodrigues, de um salto, alcança o palco, e, espada erguida, dá vivas a Afonso V, protesta, aos gritos, em fúria; tumultua, espanta atores que fogem e plateia que se assusta! Confusos, homens e mulheres buscam a saída do teatro, onde se aglomeram, temerosos da desordem que acaba em pânico!

Com a fuga geral, o ambiente se acalma e Rodrigues segue a alcançar a porta principal. À sua frente, apressada, temerosa, abrindo-lhe caminho, a moça assustada e linda, deixa cair seu lenço, que Rodrigues, requintado, apanha e lhe devolve, quando dela escuta:

              – Quieres, caballero, matar a todos los hombres de España?

              – Sí, sí, responde Rodrigues. Para quedarme solo com todas sus mujeres!

Postado em julho/2009 - Feiz Bahmed