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Dor na Família Real

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                 Desde cedo seduzido por obras de arte, no princípio da década de setenta, descobri que o Príncipe D. Pedro Henrique de Orléans e Bragança estava expondo suas aquarelas na Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo, onde, então, eu residia.

              Simpatizante, havia muito, da monarquia brasileira, fui ao evento com intenção de adquirir algumas das obras de arte expostas, e, ao mesmo tempo, conhecer pessoalmente o artista, na figura de um notório representante dos Orléans e Bragança. Lá encontrei boas pinturas figurativas que guardavam, a meu ver, a feição simples, sim, mas grandiosamente elegante, tal qual imaginava ser o autor, artista e nobre príncipe.

              Desapontado com a ausência de D. Pedro Henrique na exposição, pois voltara ele ao Rio de Janeiro e deixara em São Paulo um marchand, que mostrava e negociava suas peças de arte, escolhi duas belas aquarelas e pus em ação um “golpe de mestre”: retirei o último cheque de meu talão, com a numeração de final zero, e o preenchi, nominando como beneficiário o autor das pinturas. Ao fazer o pagamento, o administrador da exposição falou-me, educadamente:

              – O Senhor me fará a fineza de preencher outro cheque, pois D. Pedro se encontra no Rio e não tenho procuração dele para assinar em seu nome.

              Simulando surpresa, respondi-lhe:

              – Meu Deus! Veja o Senhor que este é o último cheque de meu talonário e não tenho, no momento, como efetuar o pagamento de outra forma. Lamento, mas não levarei as gravuras que tanto me agradaram.

              Diante dessa evidência, contrafeito, o marchand resolveu aceitar o meu cheque adrede preenchido.

              O “golpe de mestre” foi certeiro. Como lhe dera um cheque do Banco em que eu trabalhava, no dia seguinte fui à seção competente, contei o fato ao chefe e a ele dei ordem de informar-me quando da apresentação do documento. Alguns dias depois, troquei o cheque então apresentado, e em cujo verso constava a assinatura do nobre D. Pedro Henrique, por outro, emitido por mim naquele momento. Nada perdeu o artista, nada perdeu o marchand, nada perdeu o Banco; mas ganhei eu, com o cheque original, um significativo autógrafo, que, com outros, guardo até hoje.

              Após transferir-me para Belo Horizonte, e aqui inaugurar minha própria galeria de arte, a Dotart, estabeleci contatos com D. Pedro Henrique e tive oportunidade de adquirir dele muitas aquarelas – técnica de sua especialidade, considerada, por muitos, de dificultosa elaboração.

              Dessa demorada correspondência, renasceu em mim a vontade de conhecer pessoalmente o artista, e, certa feita, aproveitando uma ida ao Rio, ainda que sem ter tido a chance de prévia comunicação, eu e Maria Helena – minha mulher e sócia na galeria – fomos, ter à casa de campo de D. Pedro, situada no município de Vassouras, Estado do Rio.

Ao chegarmos ao portão principal da residência principesca , após nos apresentarmos, fomos, de forma muito cordial, recebidos pelo filho de D. Pedro, o príncipe Antônio de Orléans e Bragança, que, lembro-me bem, se fazia acompanhado de um belíssimo cão, digno de uma casa imperial! Como o Príncipe D. Pedro, com sua esposa, ainda estava à mesa do almoço, fez-nos sala o filho, Dom Antônio, com quem, cordialmente, conversamos sobre a família real, sobre Informática – era ele executivo da IBM – e sobre outros assuntos que nos inspiravam interesse.

              Logo após, veio a nós o esperado príncipe D. Pedro Henrique de Orléans e Bragança e sua mulher, a elegante e simpática princesa Maria Isabel da Baviera. Lembro-me de termos ficado surpresos com o traje de Dom Pedro, que, em plena casa de campo, num domingo, na simplicidade daquela ambiência, envergava um completo terno preto, com colete e gravata, dando a si um trato externo que, pelas circunstâncias, apontava o refinamento e o apuro que bem lhe cabiam, por descendência, nobreza e habitualidade.

              Após adquirir algumas peças artísticas de sua autoria para nossa galeria, conversamos por algum tempo sobre arte e amenidades, na simpática presença da princesa D. Maria Isabel, que, então, mostrava a minha mulher os seus bordados.

              Essa cordial recepção que nos foi dada estimulou-me a voltar, após alguns meses, para propor ao príncipe uma exposição de sua arte em nossa galeria, em Belo Horizonte. Pareceu-me contente com o convite e acertou comigo entrar a produzir a fim de ter o número de aquarelas necessárias à mostra pretendida. Salientou seu desejo de que o evento não tivesse qualquer conotação política, já que a pretensão, sim, era fazer uma exposição artística e, nunca, uma “convenção monárquica”, dado que havia em Minas muitos adeptos da monarquia, entre os mais aficionados, aliás, este modesto escriba e blogueiro.

              Passado algum tempo, pedi à gerente da Dotart que fosse até Vassouras combinar com o nobre artista a data viável para o evento já tratado. Foi quando ele informou que estava com viagem marcada para Paris, onde a família Orléans e Bragança iria comemorar os duzentos anos de certa efeméride da dinastia. Assim, tão logo voltasse, entraria em contato conosco e realizaria a exposição. Em entrevista concedida à revista “Manchete”, dias após, repetiu a informação, evidenciando seu carinho para com Minas, Belo Horizonte e, bondosamente, para com nossa galeria.

      Passados dois ou três meses, voltou ao Brasil, mas logo depois adoeceu e, para nossa tristeza, veio a falecer pouco tempo após seu regresso, frustrada, assim, a planejada exposição artística.

             Supus findas, assim, minhas lembranças e o contato com os nobres Braganças, quando, ainda há pouco, vejo, com tristeza, desaparecer no oceano, no doloroso desastre do voo 447 da Air France, o Príncipe Dom Pedro Luiz de Orléans e Bragança, neto do artista, o nobre Dom Pedro Henrique, e filho, ainda jovem, do Príncipe Dom Antônio de Orléans e Bragança, que tão cordialmente nos recebera quando de nossa primeira ida a Vassouras.

Os mineiros amigos da família imperial brasileira assistimos, por intenção de Dom Pedro Luiz, a uma missa que, nesta cidade de Belo Horizonte, mandamos celebrar na Catedral da Boa Viagem, no último 19 de junho. Seu cruel desaparecimento é mais uma dor no âmago dos Orléans, estirpe de alta nobreza, fidalgos de extensa cultura e notória grandeza de caráter e de alma.

Postado em Junho/2009