Pesquisa:

A Miss Brasil Eleita Duas Vezes

voltar Comentar Imprimir

             
              Em 1955, morávamos, eu e Maria Helena, minha esposa, havia cerca de dois anos, na graciosa e iluminada Fortaleza, no litoral do Ceará, e lá estávamos, quando, naquele ano, os então duzentos mil habitantes da cidade ganharam uma benesse que muito os emocionou, porque concedida a poucas cidades brasileiras: a linda Emília Correia Lima fora eleita Miss Brasil.

             Lembro-me do dia em que a eleita chegou a Fortaleza, quando, bem cedo, grande número de pessoas deslocou-se para o aeroporto, a fim de decorá-lo convenientemente para a recepção da Miss cearense, primeira sucessora da divina Marta Rocha, de quem recebeu a faixa.
 
            Minha lembrança desse detalhe do evento se fez duradoura porque, estando eu, naquele dia, no gabinete da gerência local do então Banco da Lavoura de Minas Gerais, recebi o portador do bilhete de um amigo que – estando no aeroporto, onde iriam colocar uma faixa de saudação à Miss que chegaria – perguntava-me sobre algo que estava a dividir a opinião dos homenageantes em dois grupos. Debatiam eles sobre um simples sinal diacrítico, na saudação da faixa que se escreveria com vultosas letras: “À (craseado) Emilia Correia Lima…” ou “A (sem crase) Emília Correia Lima”? 
 
            Já que o amigo me elegera juiz da disputa gramafilológica, respondi que entendia ser de outra ordem a decisão a ser tomada; pelo seguinte: o “a” com crase era, a meu ver, gramaticalmente tão correto quanto o sem crase.  Sem a crase, conferiria maior distinção, elegância ou donaire ao cumprimento à bela homenageada; com a crase, daria à saudação um tom de estreiteza, convivência, familiaridade. Então, respondi: “Que decidam pelo coração. A gramática nada tem a ver com a festa”.
 
            Passado algum tempo, que não sei precisar quanto, a mesma Emília Correia Lima marcou seu casamento com um feliz mineiro, para um domingo ensolarado, e, tendo sido convidados, eu e minha esposa aos noivos apenas enviamos cumprimentos e flores. É que havíamos marcado importante compromisso com nossa amiga D. Lúcia Sarazate, irmã do então ilustre e honrado governador do Ceará, o saudoso Paulo Sarazate. Já havíamos nos comprometido a comparecer, em igual horário – onze da manhã –, a um almoço em sua casa de campo, em Maranguape, construída justo no sítio onde José de Alencar, em seu romance-poema, nos contou ter vivido a índia Iracema, “a virgem dos lábios de mel”, e ali amado um homem branco de nome Martim.
 
         Para acessar o caminho que iria ter à chácara de D. Lúcia, curiosos, nos propusemos a passar pela frente da igreja, no centro de Fortaleza, onde se realizaria o casamento da doce Miss Emília. Foi-nos bastante difícil avançar com nosso carro por entre a multidão que, naquela hora, lotava o adro do templo, onde não mais cabia vivalma. A curiosidade, mormente a feminina, enchia a praça, que só mais daria espaço para passar a princesa Emília e seu futuro príncipe, já ambos no templo, certamente entre sorrisos, alianças e beijos.
 
            A custo, conseguimos ganhar o outro lado da praça e seguir caminho para a bela chácara, onde, antes do delicioso almoço, nós, os varões, como de praxe, em companhia do marido da anfitriã, Major Jiruca, disputamos uma ou duas partidas de basquete – evento esportivo que, para nosso orgulho, ganhava relativo destaque na mídia especializada de Fortaleza, que acompanhava os jogos, fotografando os que se destacavam.
 
          Agora, voltando ao centro de Fortaleza,vale apresentar-lhes meu grande amigo Chara Barroso, membro de numerosa família cearense, comerciante com ampla loja justamente ao lado da igreja onde se casara a Miss Emília Correia Lima. Era a primeira quinta-feira após o domingo do memorável casamento, e o Chara – como me contou seu sócio e ele próprio – foi, precisamente ao meio-dia, até a porta da sua loja e, olhando em torno, entrou a sentir-se seriamente tonto, com risco de cair. Amparado por alguns clientes e pelo próprio sócio, foi conduzido a uma cadeira no interior da loja, onde, já sentado, disse:
 
          – Fui à porta e quando conferia meu relógio com o da torre da igreja, senti-me estonteado, aturdido, e julguei ter ouvido um imenso estrondo!
 
          – Não, Chara, disseram-lhe, você nada sofreu. Foi a igreja que – a começar da torre que você mirava – desabou totalmente. Todo o templo está, agora, no chão!
 
          Ao ouvir isso, Chara não conseguiu falar, preferiu desmaiar, para acordar pouco depois, à custa de tapas e água fria.
 
        Apenas quatro dias após a cerimônia do casamento da Miss Emília Correia Lima, quando recebeu a maior lotação de público de todos os tempos – certamente o maior peso tolerado em toda sua centenária história – a antiga igreja, sem nenhuma causa externa, sem qualquer “ajuda”, desmanchou-se totalmente, sozinha, e tornou-se um alto monte de madeira e pó em pleno chão. Sim, como disse o poeta Gonçalves Dias, repito eu aqui: “Meninos, eu vi!”
 
          O desmoronamento não anunciado, instantâneo, sem empurrão ou tranco – podemos chamar de suicídio? – deu-se ao meio-dia, hora em que na praça central, dentro do templo ou no adro, não havia uma só pessoa, pois era hábito arraigado em Fortaleza fechar todas as repartições e todo o comércio às onze horas e reabri-los só às treze, após o almoço e a indefectível sesta tropical. Assim, o desmoronamento, em pleno dia, em zona urbana central, à exceção de meu amigo Chara, sequer assustou ou feriu alguém.
 
          Anunciei que uma Miss Brasil elegeu-se por duas vezes. E não foi? A primeira, por um júri de gente altamente especializada no assunto. A segunda, sem sombra de dúvida, por Deus. 

Postado em junho/09 - Feiz Bahmed