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Dever de Casa

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1943 d.C.

 Cursava eu o quarto ou quinto ano no então Ginásio Diamantinense, na saudosa Diamantina dos meus anos dourados de meninice e juventude, onde eu tinha um inteligente e amigo professor de Português, de nome Mauro Vilela.

 De hábito, semanalmente, o professor dava a nós, alunos, como dever de casa, a incumbência de uma redação sobre assuntos variados, pré-determinando a dimensão do trabalho.

De uma feita, na desincumbência de um desses trabalhos, fizera eu o rascunho, a lápis, do tema indicado, deixando para, posteriormente, “passar a limpo” o escrito.

              Morava eu, à época, em um hotel da cidade e, chegando à residência um tanto tarde, entendi que seria penoso reescrever o rascunho à tinta. Estava o Brasil em plena Segunda Guerra Mundial, e incontáveis mercadorias se encontravam em rigoroso racionamento. Isso me deu a idéia de, pilheriando, escrever ao pé do rascunho: “Caro Professor, deixo de fazer a redação à tinta, pois não sei ser de seu conhecimento o recente racionamento desse material didático.”

               Na aula subsequente, o professor, como sempre fazia, caminhando entre as carteiras, ia comentando a redação de alguns alunos e explicitando a nota dada ao trabalho de cada um. Chegando à minha redação, leu, alta voz, o recado que eu havia escrito, e disse ter dado nota nove ao meu trabalho, por não conter erro. Contudo, não daria dez, pois, igualmente, essa nota era, também, “um material didático” rigorosamente racionado.

              Em meio às risadas de meus colegas, entregou-me meu texto e continuou sua tarefa, por entre as carteiras, dando-me tempo para, em silêncio e por vingança, elaborar esta modesta quadrinha, escrita no caderno, na página de meu trabalho:

              Caro mestre e companheiro,
              Pra acabar com esta lorota,
              Se é tinta que faz a nota,
              Vou lhe enviar um tinteiro.

              Surpreso, o professor leu para toda a classe a minha trova e, riscando a nota nove, concedeu-me um dez!

              1968 d.C.

              Convidado para fazer parte da hoje tradicional Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, pelo então presidente e fundador – o curvelano Alfredo Viana de Goes – fui ter, pela primeira vez, ao plenário da Academia, sediada, naquele tempo, na Rua dos Caetés, em Belo Horizonte. Logo que me viu entrando no recinto, o Secretário da Academia, meu antigo professor Mauro Vilela, em alta voz, e à guisa de cumprimentar-me, recitou: “Caro mestre e companheiro, / Pra acabar com esta lorota, / Se é tinta que faz a nota, / Vou lhe enviar um tinteiro.”

              No decorrer da reunião, contou o antigo episódio ao plenário e, ao sairmos, perguntei-lhe como ele, passados perto de trinta anos, lembrava-se do evento da minha trovinha, da qual eu mesmo já me havia esquecido. Respondeu-me, para minha satisfação, que não fora difícil. Tendo continuado como professor da língua pátria, nunca deixara de contar a história a cada turma a que anualmente lecionava.

             2009 d.C.

             Logo depois, fui residir em São Paulo e sequer tomei posse solene na Academia, para cuja cadeira eu já havia escolhido, como patrono, Ephigenio de Sales, serrano que governou o estado do Amazonas, e, para minha alegria, meu padrinho de batismo. E hoje, quase sessenta anos após tê-la escrito, repito agora a quadrinha de que a memória do querido Mauro Vilela me fez lembrar. E a reescrevo aqui na “banda larga” de um computador – nem a lápis, nem à tinta – sem caderno e sem papel. No espaço invisível e infinito da Internet.

Postado em maio/2009 - Feiz Bahmed