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Um Funcionário Exemplar

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Meu pai – Nagib Bahmed – fundou a Companhia Força e Luz do Serro,  em Minas Gerais, inaugurada no ano de 1918, tendo iniciado as obras por volta de 1915. Vale dizer que todo o material necessário foi adquirido na Bélgica e chegou ao Serro em valentes carros de boi.  Com um contrato firmado com a Prefeitura local, por um prazo inicial de vinte e cinco anos, comprometeu-se a empresa a iluminar todas as ruas da cidade, com o estabelecimento de multas para os casos de omissão do serviço, e demais complicadas cláusulas de uma sociedade anônima.

Certa época, inexplicavelmente, várias lâmpadas dos postes públicos entraram a desaparecer, e, tendo em vista as circunstâncias óbvias, só se podia supor que algum trapaceiro as retirava, pelas caladas da noite, para vendê-las a algum receptador, durante o dia. Cabia, assim, à Companhia repor, de imediato, as lâmpadas desaparecidas. O fato era, em regra, denunciado por residentes da rua prejudicada. Os furtos se repetiam de tal forma, que a Prefeitura local até deixou de aplicar as pactuadas multas à empresa de eletricidade, por notório que as falhas independiam, totalmente, da atuação da Companhia.

Já havia um bom tempo que a direção da empresa atribuíra a um de seus funcionários – de nome Gustavo – a função de, pela noite adentro, buscar descobrir o ladrão, ou os ladrões, que, de forma ardilosa, se escondiam no escuro da noite ou, talvez, da madrugada. Tratava-se, de fato, de um crime, mas a delegacia policial disponha de apenas dois soldados de farda e bota, e seu empenho investigativo no horário noturno era, realmente, inviável.

Mas veio o dia em que Gustavo – e é bom que se diga que os nomes dos envolvidos nesta transgressão são fictícios, por regra, e mais porque todos eles já se foram desta para a outra melhor vida… Mas, dizia eu, num belo dia, vale dizer, numa bela noite, Gustavo, o funcionário da Companhia, seguiu Zé Presépio – um conhecido meliante que costumava perambular pelas ruas do Serro – e o viu, em dado momento, subir em um muro e retirar a lâmpada de um dos postes. Mais adiante, usando uma velha escada postada em plena rua, voltou a retirar outra lâmpada.

Feliz com o achado, Gustavo, logo cedo, foi levar a notícia a meu pai, que, admirado e elogiando sua eficácia, mandou que ele, naquele mesmo dia, procurasse o Zé Presépio e o trouxesse ao escritório da empresa.  Foi o que fez, com a urgência e a austeridade que o caso requeria.  Apresentou-se o funcionário, acompanhado do larápio, que, ao que parecia, pela sua passividade e bom humor, não imaginava, que seu malfeito tivesse sido descoberto.

Meu pai recebeu Zé Presépio e, como estivesse no horário do café, mandou que lhe servissem uma xícara. Dispensou a presença do funcionário Gustavo, que se retirou um tanto contrafeito –  pois supunha que poderia ser útil para levar o bandido à delegacia –  e entrou a dialogar com o meliante:

              – Meu caro Presépio, disse meu pai. Sei que você é um notívago…

              – Não, Seu Nagib, não sou nada disso, respondeu Presépio. Tudo é  futrico desses excomungados, que a rua tá cheia dessa gente…

              – Você, Presépio, está me entendo mal. Notívago é quem gosta da noite; de ficar acordado até tarde; há alguns que ficam até o sol nascer, entendeu? Sei que para você não é sacrifício ficar acordado até bem tarde.

              –  É, estimei diferente, mas, na verdade, desde minino gosto de andar de noite…

              –   Pois é justamente por isso que o chamei aqui. Sabe? Seu José Presépio, de uns tempos pra cá, andam roubando lâmpadas dos postes, deixando as ruas às escuras e prejudicando o bom nome da nossa Companhia; além do prejuízo da reposição das lâmpadas. Um horror!

              –  É bandido, Seu Nagib, vagabundo, que a cidade tá cheia.

              – É por isso que o chamei. Como você gosta da noite, quero lhe propor ser funcionário da Companhia Força e Luz, com a função de ver se apanha algum gatuno desses, a fim de a gente dar a ele o castigo que merece. Para começar vou lhe pagar trinta mil réis por mês, mas se você for mesmo eficiente, o ordenado pode subir.

             –   Eu até fico muito empenhado ao Senhor,  e vou dar atrás desses canalhas sem-vergonhas. Eu apanho um deles!  Posso começar de hoje mesmo?

             –  Claro, Seu José.  Estive no Rio de Janeiro, e soube que a Companhia de lá tem vários funcionários que fazem esse mesmo trabalho, à noite. Eles até os chamam de “Tenentes da Noite”. Você, a partir de hoje, é o nosso “Tenente da Noite”. E bom trabalho, Seu Presépio. Bom trabalho!
Segundo meu pai, que mais de uma vez me contou essa história, daquele dia em diante, jamais sumiu uma só lâmpada das ruas do Serro. Gustavo não se conformava com o prestígio dado a Zé Presépio. Queria vê-lo nas grades, como merecia. E dizia a meu pai que, certamente,  continuavam a roubar lâmpadas. Só que, quando isso acontecia, o Presépio, acordado, corria a colocar outra no lugar, tirada do estoque que tinha em casa… Sabe-se lá?

O fato é que, tirando dessa história os nomes das pessoas, que são inventados, como já disse – exceto o do meu pai, claro – , tudo o mais que contei aconteceu mesmo. Por Deus do Céu.

 

Postado em abril/2009 – Feiz Bahmed