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De Saia Justa

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“De saia justa. Bras. Gír. 1. Em situação desfavorável e/ou embaraçosa, desconcertante. 2. Sem possibilidade de ação ou reação; de mãos atadas.” [Dicionário Aurélio – Século XXI] 

  
 Há algum tempo, lecionava eu Língua Portuguesa e Literatura para o curso ginasial, e chegara a vez da prova oral que, na época, era o exame final dos cursos. Tais provas eram acompanhadas de perto por estudantes de outros cursos e por diversos professores.  Todos se punham sempre nas salas de exames, compondo a plateia que, por vezes, poderia assistir a “espetáculos” inusitados, nascidos das respostas burlescas dos jovens iniciantes.

               Estava eu já em meio à inquirição dos alunos, um por um, de toda a classe. Sorteado o “ponto”, dei início às minhas indagações relativas à matéria a um dos alunos, quando, para minha surpresa e satisfação, o Reitor do Colégio entrou em nossa sala e se assentou ao meu lado, no “trono” do professor.

              Ouvindo ele o de que então se tratava, pediu-me, educadamente, licença para fazer uma ou duas perguntas ao examinando. Entrou, então, a perguntar ao aluno sobre autores famosos de nossa Literatura, até que chegou ao grande Machado de Assis. O meu aluno, arguido, respondeu que se tratava de um famoso escritor brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, em 1839; autor de obras bastante conhecidas, como “Dom Casmurro”, “Quincas Borba”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e outras.Continuando, o aluno informou ainda que Machado não fora apenas romancista, mas também  poeta – não tão brilhante na poesia quanto na prosa –, além de emérito cronista e teatrólogo…

             Naquele exato momento, o Reitor fez o aluno calar-se e, entre sorrisos, fingindo bom humor, mas claramente irritado, refutou:

             – TEATRÓLOGO?! Onde essa cabecinha foi buscar tal neologismo?!… Teatrólogo, gente! Deus do céu… teatrólogo! Só me faltava esta! Mas vamos a outros notáveis literatos, que não sejam teatrólogos…

            O que poderia o humilde e jovem professor fazer?  Tinha certeza de que, com convicção, lecionara em aula a vida de Machado de Assis, e teria ensinado, por correto, que o grande romancista fora, também, teatrólogo.

            Porém, caberia dizer ao Reitor, ali, que o examinando estava certo? Ora, seria colocar o dirigente e líder do estabelecimento – à vista de parte do corpo discente e dos idosos docentes – em situação dramática; bem pior que a em que eu me encontrava (bem que minha mãe sempre dizia: “Vá ser engenheiro, meu filho”; e o idiota aqui se meteu a dar aulas!).

            Como eu dizia, minha intervenção teria sido um desastre para o Reitor, para mim e para o Colégio. Só me cabia o silêncio, que, em muitos casos, é o que melhor fala sem que nada se diga.
Como é notório que “desgraça pouca é bobagem” – de quando em vez, o Reitor, agora mais tranquilo, mirava a plateia e repetia, eloquente:

            – Teatrólogo! TE- A-TRÓ-LO-GO!

            Nada mais me ocorria que pudesse fazer sem perpetrar uma vulcânica catástrofe no Colégio e, certamente, porta afora! Vítima inocente, só me restava colocar-me, como o fiz, além de calado, visivelmente sério e macambúzio.

            Em casa – por que não dizer? –, um tanto perplexo, corri ao dicionário, para buscar amparo à minha convicção, temente de um aterrador e infame resultado. Por primeiro, ao Dicionário Escolar.  Lá estava: “Teatrólogo. S.m. Escritor de peças teatrais; dramaturgo.” / “Dramaturgo. S.m. Autor teatral; autor de dramas.” E no Dicionário Michaelis: “Teatrólogo. [de teatro + -logo.] S.m. Escritor de peças teatrais.” Ressalte-se que, à época, não haviam nascido Aurélio e  Houaiss.

            Meu consolo foi dar nota 100 (era essa a medida de antanho!) ao menino, que, aprovado, foi por mim consolado, com a informação de que estava ele corretíssimo. Cabia-lhe, sem problemas e sem catástrofes, fazer da minha declaração de “mestre” o que melhor lhe conviesse. E parece que ele o fez, até exagerando um tanto no direito de defesa.A vida nos prega cada uma!

Postado em abril/2009 – Feiz Bahmed