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A cidade mais honesta do mundo

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Em 1955, exercia eu – havia pouco tempo – minha primeira gerência de agência no antigo Banco da Lavoura, hoje, Banco Real, na cidade de Paraisópolis, Sul de Minas, na divisa com o Estado de São Paulo. Terra de imensos cafezais e de nosso talentoso artista plástico Amilcar de Castro, àquele tempo, nem artista, nem, de longe, famoso.

Conhecendo a potencialidade da bem próxima cidade paulista de São Bento do Sapucaí, ao pé da serra da Mantiqueira, a apenas oito quilômetros de Paraisópolis, propus à diretoria do Banco – após a necessária pesquisa – a fundação, naquela cidade, de um escritório bancário, casa que ficaria subordinada e integrada à minha agência de Paraisópolis.

Obtida a autorização, passei a cuidar dos mil detalhes necessários à instalação do escritório, não sem antes receber, ali, o apoio da sociedade local, e ser, honrosamente, convidado para um banquete em homenagem à primeira casa bancária a instalar-se no município. Desse evento – completando minha alegria – participou, coincidentemente, um filho da terra, o eminente político, orador e escritor Plínio Salgado, a quem que eu já admirava e lera.

Tudo bem encaminhado, aluguei a loja que, para minha satisfação, ficava no piso térreo da casa do delegado local, o que, obviamente, me concedia confortável segurança. Faltava-me o imprescindível cofre. Ao pedir à Administração do Banco, em Belo Horizonte, informe sobre onde adquiri-lo, me foi dito que o Banco mantinha convênio com determinada indústria de cofres, à qual iria determinar enviasse um a São Bento do Sapucaí, o que realmente aconteceu, uma semana após meu telefonema.

Funcionava o Banco ali já há cerca de seis a oito meses, com ótimos resultados operacionais, compatíveis, claro, com o modesto tamanho do município, quando recebi, pela manhã de um nada venturoso dia – um telefonema do gerente Jairo: “Arrombaram o escritório e levaram o cofre! Com todo o dinheiro e, pior, com todas nas notas promissórias dos empréstimos concedidos às pessoas e firmas locais!”

Não, não vou contar do susto. Conto que a polícia paulista apurou, logo, logo, tratar-se de um bando de assaltantes paulistanos, que levou o cofre a um terreno baldio, não longe da cidade, onde foi encontrado arrombado brutalmente, sem qualquer moeda e sem qualquer papel! Um desastre! Lamento não conhecer se existe, na Língua Portuguesa, o aumentativo de “desastre”; assim, fica por isso mesmo! O que fazer? Chamei o Gerente Jairo, e combinamos a estratégia com que nos cabia agir.

Por primeiro, decidimos que não faríamos um só comunicado ou aviso aos devedores, emitentes das cerca de duzentas e cinquenta notas promissórias, num total de perto de um milhão de cruzeiros, nem aos respectivos avalistas. Tínhamos a informação relativa ao nome dos devedores e os respectivos valores devidos, mas estávamos impedidos de cobrar-lhes, quer administrativa, quer judicialmente; algo só possível à vista do título de crédito, segundo a lei. Toda a cidade conhecia o ocorrido e, claro, igualmente os devedores. Esperaríamos que eles viessem à Agência denunciar seu débito. Não cobraríamos juros de mora por qualquer atraso, e faríamos novo título, de valor menor ou idêntico, se acaso o devedor aparecesse e concordasse.

Passados não mais que quatro meses, se tanto, informei à Diretoria do Banco que: a) todos – eu disse todos – os débitos foram assumidos pela totalidade de mais de uma centena de devedores, os quais, sem que fossem chamados, compareceram ao Escritório, pagaram a dívida pelo valor simplesmente informado pelo Banco, ou emitiram novos títulos em substituição aos extraviados; e b) eu havia adquirido outro cofre – e com certa ironia, ainda acrescentei: “bastante mais robusto que o primeiro enviado”.

Isso mesmo. Sem que precisasse chamar um só dos devedores, todos, voluntariamente, compareceram ao Banco, que não perdeu um só centavo de tudo que havia emprestado aos clientes do município – aos autóctones e aos apenas residentes na cidade mais honesta do mundo! Tá aí o Jairo, então gerente do Escritório, que não me deixa mentir (Ô Jairo, não me deixe mentir, tá?).

 Postado em março/2009 - Feiz Bahmed