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O Casamento de Sebastião do Lino

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O casamento de Sebastião do Lino era esperado por todo o mundo em derredor de Moinho Velho, distrito de São José da Barra. Tião nasceu por lá mesmo, mas Solange, sua noiva, era de outras terras, até meio longe, no alto do Vale do Jequitinhonha.

Um viu o outro no Jubileu de Santo Amaro; namoraram, noivaram, e chegou o dia do casamento, mais ligeiro que de costume naqueles lados. A festa se fez na casa grande da fazenda de Seu Chiquinho, pra quem Tião trabalhava: de dia, juntando gado, tirando leite; de noite - havendo precisão - acompanhando o patrão, armado pra enfrentar surpresas, nos comícios, bailes e festas da rendondeza.

No dia das bodas, puseram bandeirinhas de papel colorido, dependuradas em cordões, na entrada da casa, pelos quatro cantos do curral e na varanda da fazenda. A festa começou ainda com o sol de fora e varou noite adentro, arranhando a madrugada. Foi quando Tião chamou Solange pra pegarem a estrada, que a casa era longe, bem depois da ponte.

O cavalo de Solange era o melhor da Fazenda; arreado com capricho e emprestado pelo Seu Chiquinho, que tinha uma baita coleção de animais de sela. Castanho claro, era chamado de Pinguinho. A besta de Tião, bem-apanhada, forte, era compra nova, mas bem falada na região.

Beirava as três da manhã, noite iluminada, quando ambos montaram e se puseram a caminho. Meia hora adiante, a besta de Tião, inesperadamente, empacou. Empacou de não dar um passo adiante. Ou se assustou com coisa no chão, ou tropeçou, sei lá, a besta empacou de vez. Não obedecia mais ao mando de Tião.

Bom cavaleiro, Tião esporou, bateu o chicote no pescoço da mula, mas nada. Até desandou! Foi quando Tião desmontou, tomou o cabo do relho e, batendo, gritou para Dotada - era o nome da mula:         

- Premera veiz!

Voltou, esporou forte, quando, ao que parece, amedontrada, a besta desempacou;

Um tanto desapontado, seguiu seu rumo, acompanhado de Solange, até que a danada empacou de novo, à toa, à toa. Agora, Tião não perdeu tempo. Apeou, cascou-lhe o açoite, deu com o pau do chicote na testa de Dotada, e, zangado, gritou de novo:

- Segunda veiz! Mula dos diabos!

Com tudo, tudo dando certo, a danada da mula resolveu atrapalhar a vida, ou melhor dizendo, atrapalhar a noite de Tião e Solange. De forma tal que, parecendo por pirraça ou implicância, Dotada parou de novo, virou de lado, e empacou mais uma vez!

Tião desceu de arranco, tirou a garrucha carregada e, sem bater, berrou:

- Tercera veiz! Sá filha da mãe!

E testa a testa com a besta, explodiu dois tiros bem na cara da infeliz! A besta cuspiu sangue, nem rinchou, nem gemeu, caiu de banda no barranco.

Foi aí que Solange entrou no assunto, gritando pra Tião:

- Que é isso, Tião?! Home de Deus, o que é isso?! Cê tá doido, home?! E emendou:

- A pobre da besta pode tá é doente, parando assim, à toa! Tem que tê calma; e não ir atirando com essa ligeireza!

Tião branqueou a cara, pegou o freio bem no focinho do cavalo de Solange e, meio magoado, meio embestado, olhou no fundo dos olhos da mulher e falou, pausadamente:

- Pre-me-ra-veiz!

Pulou na garupa do Pinguinho e, calado, embezerrado, pegou o caminho de casa.


Postado em dezembro/2008-Feiz Bahmed


 Nota: Por tradição oral, conheço a história, há muitos anos. Seria verídica? Teria se passado pelos lados de minha terra, como afirmam alguns? Pode ser. Creio, no entanto, que se trata de história anônima. Porém, se houver autor, apareça, a fim de que lhe dê os créditos devidos e lhe devolva até os cartuchos vazios disparados por Tião naquela madrugada de amor danado!