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O Milagre do Padre Pedro

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1º Lugar no Concurso Permanente de Contos da Prefeitura de Belo Horizonte - Setembro de 1959.

             

        Se eu conheci o Padre Pedro? Mas que pergunta! Se conheci! Um santo, um santo! Não se lembra que toda a minha gente é de Morrinho do Sul, homem? Estive lá algum tempo, em casa de minha avó. Andava ela sentindo-se um tanto perrengue, sozinha e, segundo escreveu, saudosa de mim, por quem sempre teve grande xodó.

              Nas férias grandes - tinha meus 10 anos - tomei o trem e, em coisa de cinco horas, cheguei a Morrinho. Fui mais pelo passeio, pra acabar com as saudades de vó e de lá trazer as minhas, que agora você cutuca, falando em Padre Pedro. E se vai mesmo escrever sobre a vida dele - o que, aliás, já deviam ter feito há muito tempo - conto-lhe eu a história das pedras. “História de pedras?” Perguntou Juninho. É, sim. Escuta, que escutá-la nada lhe custa, e, depois, resoolve se vale a pena escrevê-la. Pode pôr no seu livro, que quiser. Mas, olhe, sem dizer meu nome. Invente Outro qualquer.

              Morrinho era um lugar bem pequeno, como até hoje deve ser. Guardado entre morros altos - muros verdinhos de mato que o separavam do mundo.  Cá embaixo, vivia a cidade. Sem crescer nada de nada, havia anos, talvez por preguiça de subir o morro. Era menor do que eu imaginava quando minha mãe contava os casos de lá, onde nasceu. Ela saiu de Morrinho há tanto tempo e, até hoje, costuma perguntar se fez besteira, ou se foi bom pra gente. Fala assim, mas tenho que  ela sofre saudades de lá.

              Localizada no centro da cidade, para quem entrava, era abrir a porta da rua e já caía na sala de fora, arrumada com um baMe lembro que a rua saía da Praça da Igreja; era estreita, comprida, comprida, inteirinha de terra vermelha. Descia toda vida. Ao fim, nem era rua, virava estrada, entrava nos pastos, subia o morro e virava mato… Era a “Rua”. Não carecia de nome pois só havia ela. O resto eram poucos becos esconsos, sujos, ainda que habitados, cheios de galinhas ciscando chão afora e de cachorros deitados, quentando sol.

              Minha vó, viúva de vô Alfredo, morava na casa antiga que compraram nos tempos de quando se casaram. A construção devia, então, ser nova e bem feita, como “nova e bem feita”, com certeza, devia ser minha vó Nizinha. Com o tempo, minha avó e a casa deram de derrubar-se. A vida devia ir pondo rugas na cara de vó, e empenando portas e desenhando trincas nas paredes da casa.

              Pequena a morada, mas não tanto que não coubesse nela, ainda que embolados, os nove filhos que Deus entendeu de dar a vó Nizinha. Dos nove, dois não chegaram a crescer: ainda nem sabiam falar e já sabiam morrer. Morreram. Ficaram sete: três homens - dois sumiram vida afora pra ganhar sustento, casar e viver. As moças casaram cedo e foram morar na roça. Viviam de gado e do café. Só Estergilda mudou de rumo. Conhceu um ourives no Jubileu de Santo Afonso, rumou com ele para o Rio de Janeiro. No início, dava notícias, amiúde. Depois, calou. Nunca mais voltou a Morrinho. Mandava carta, uma por ano, retrato dos meninos, quase sempre perto do mar. De modo que - encurtando o assunto - só ficou ali mesmo em Morrinhos o Leonildo, comerciante de secos e molhados. Aparecia pouco. Só fazia por almoçar aos domingos com vó Nizinha.

              A casa de vó Nizinha, embora modesta, estava entre as melhores de Morrinhos. nco largo e cadeira de balanço. A mesa, pequena, guardava em cima dela o oratório com três santos: dois menores, dos quais nunca soube os nomes, e o maior deles: São Sebastião, segundo me disseram.     Na parede, encimando a mesa, um crucifixo pendurado. Ao seu lado, emoldurada, a estampa do Sagrado Coração de Jesus, em frente da qual vó se benzia sempre, quando ia deitar-se ou quando saía pra rua.

              O chão era de tábuas largas - mas largas mesmo! - lavadas sempre toda sexta-feira, com folhas do mato metidas numa bacia d’água.  Uma beleza de chão, apesar das fendas entre as tábuas. Coisas do tempo. Estava me esquecendo é do retrato. Era bem enquadrado, com vó nova, nova, ao  lado de vô Alfredo - que Deus o tenha em bom lugar!  Junto da sala, dando para a rua, estava o quarto que me deram pra ficar. Era chamado “quarto de hóspede”. Ali eu dormia e tomava banho na bacia de metal que me levavam toda semana. A janela, como expliquei, abria para a rua. Nela eu me debruçava pra ver o povo passar.

              Fazia coisa de duas a três semanas que eu havia chegado em Morrinho, quando veio  a  noite em que ocorreu o fato que vou contar. Vou contar a história da noite só para sair no livro, pois nunca falei disso com ninguém. Só minha mãe sabe, por conta de vó que contou pra ela.

              A hora, não sei dizer direito, porque o relógio da casa, fazia tempo,  tinha  enguiçado uma roda e não batia mais. Marcava direito as horas, mas calado, e só funcionava meio virado de banda. Acordado no meio da escuridão - pois tinha apagado a lamparina ao deitar - ouvi rolar o que parecia serem pedras no chão da sala. Barulho alto! Não, não estava dormindo, não… Ouvi com esses ouvidos que um dia a terra há de comer, barulho parecendo de pedras rolando no chão da sala. Uma barulheira dentro da noite quieta.

              Imóvel, escutei o silêncio que se seguiu, mais para ver se vó também tinha ouvido. Ninguém se mexeu. Fui virando, virando na cama, até que dormi. Mal o dia entrou a clarear, pulei e fui atrás de minha vó. Tinha que contar a ela o acontecido. Ela achou que a minha história era coisa de menino, mas, quando voltamos à sala, lá estavam três pedras, dessas que chamam de pedra-rolada, limpinhas, uma beirando o tamanho de um ovo e as outras menorzinhas, todas debaixo da  mesa, quase encostadas na parede… Foi aí que minha avó acreditou no que eu dizia.

              O sucedido foi assunto o dia todo. A vizinha, amiga de todo o dia, veio logo, querendo saber o que tinha acontecido. Contei tudo a ela. Minha avó não tinha explicação para o fato. Certamente não estava segura de que era algo sobrenatural, mas não lhe acudia explicação com que pudesse me tranqüilizar. Mandou recado, então, para o tio Leonildo lá na venda dele… Que viesse falar com ela. 

              Lonildo chegou. um tanto apavorado com o recado, deu tento da coisa, fez perguntas em busca de uma trilha que pudesse levar ao fato, de uma explicação que não tinha. Queria dar sossego a minha vó. Tomou as pedras na mão, sentado no banco, calado, suspendendo as sobrancelhas seguidamente - que era sestro dele - mas não deu conta de falar nada. Parecia pensar. Certamente pra mostrar tranqüilidade, desviou do assunto, deu notícias dos meninos, falou de minha tia Tereza, mulher dele, conversou, tomou o café que lhe trouxeram na sala e, ao despedir-se - disse que tinha coisas a olhar na venda - mas foi incisivo:

              - Tem coisa que o melhor é não escarafunchar muito, e não ficar espalhando o acontecido.

              Ficou de voltar. Porém, adianto que não voltou.

              Foi Leonildo sair, e minha avó repetir a sentença do filho: “é não escarafunchar muito”. E, durante todo o dia, a quem falava do assunto, repetia: “O melhor é não escarafunchar muito”. Queria fugir do assunto. Acabaria esquecido. Com o tempo, naturalmente.  Chegando a noitinha, desconversando da coisa, insinuei, junto a vó Nizinha, minha intenção de dormir noutro quarto. Daí, cheguei ao que pretendia: minha avó me chamou pra dormir com ela. Não era por nada. Deixou claro que isso atendia mais ao seu interesse que à minha vontade. Não pretendia duvidar de minha coragem de voltar a dormir no quarto de hóspede. Fiz questão de esclarecer que atendia a um pedido dela, pois havia escondido o quanto pude que estava tomado de medo de voltar ao quarto de fora.

              Por toda a maneira, queria que a coisa se passasse como um gesto de boa educação: acudir a quem, por tradição, merecia o amparo de um homem, que eu já pretendia ser. Ficamos combinados e, por dois dias, dormi ao lado dela. Foram noites tranqüilas, que puseram, se não um ponto final, quando menos um “ponto-e-vírgula” na lembrança agressiva do episódio. No terceiro dia, falei a minha avó que desejava voltar ao meu quarto. Afinal, precisava afirmar-me como homem, pensei. E falei de modo a demonstrar minha coragem:

              - Homem que é homem não tem medo, vó!

             Parece ter visto nela um certo orgulho. Ora, já não era eu uma criancinha, teria ela pensado. Brioso, retornei ao meu quarto. Fazia já coisa de três dias que tinha voltado e me assustei de novo. No meio da noite, talvez mais tarde que da primeira vez, escutei, num ruído desordenado, rolar pelo chão o que, tinha certeza, seriam as pedras, de novo. Pulei da cama. Pulei da cama e, mesmo no escuro, corri à porta do quarto de minha avó:

              - Vó!  As pedras!  De novo, vó!

     Ela acordou num instante e já me recebeu de vela acesa. Gabou minha valentia e me garantiu que eu havia sonhado, porque estava impressionado com o que tinha acontecido antes. Com firmeza, tentava me convencer, repetindo que havia sido um sonho:

              - Reza um mistério e vira pro canto. Isso é sonho seu.

              Porém, quando abrimos os olhos na manhã do outro dia, as pedras estavam lá, na sala,  uma bem atrás da outra, as duas debaixo da mesinha do oratório!

              Nos dias que se seguiram, o povo todo tomou conhecimento da história. Não havia meios de esconder o medo e a cisma que ficaram na alma de todo mundo. “Que era mexida do gato”, amenizavam alguns. “Que era feitiço, coisa feita”, afirmavam outros. Mas a maioria de todos endossava o pensamento que minha vó havia tentado dissimular por algum tempo, mas que agora punha claro pra quem quisesse ouvir. Não escondia nem de mim mesmo: “era o Demo solto; obra do capeta”. E, por lá, contavam que na fazenda do Neco, fazia coisa de um ano, o Tinhoso tinha jogado casca de banana na cozinha, cuspido nas vasilhas e enforcado um bezerro novo, recém-parido. Andava, assim, o Coisa-ruim, segundo se dizia, de cabresto a rastos por aquelas bandas. Como todo mundo sabia que dizer seu nome abertamente só fazia chamá-lo e instigar-lhe as iras, cada um, de todos, o denominava do jeito que aprendera: Coisa-ruim, Beiçudo, Demo, Tinhoso, Gato-preto, Excomungado…

               Alguém então lembrou - e lembrou bem - que o caminho era o Padre Pedro! Talvez que sua intervenção nem mesmo precisaria alongar-se em tríduos ou novenas. Bastaria a presença de quem, como ele, era um santo. “Era um santo”, dizia minha vó, “que Deus mandou para Morrinho”. Era buscá-lo em casa.

              Tinha então seus setenta janeiros, vividos na mais pura humildade e modéstia, que são, quando assim sinceras, o traço eloquente das santidades. De longe - todo mundo sabia - vinha gente pedir a benção do Padre Pedro e rogar-lhe milagres. Romaria, às vezes. Não foi um nem dois os que largaram as muletas na porta da Igreja. Mas ele nunca aceitou a autoria dessas coisas. “Que era Deus”, dizia, “a Providência Divina, mormente a fé de cada um”.

              Tímido, magro, humilde, metido numa batina surrada pelo tempo e já querendo branquear-se ao longo das costuras, quem o visse não diria quem ele era. Falava como a gente, mas era lido nos filósofos e conhecia os clássicos. Amante da Astronomia, buscava o céu, por isso, em suas duas dimensões: com a prece e com a luneta.

              Pois Padre Pedro era a solução, não cabiam dúvidas. Decidiu-se tudo naquela noite e não houve discordância. Até meu tio Leonildo, que não era lá muito de reza,  achou razão na providência.  Vencida a noite, mal o dia pingou no céu, minha vó botou pernas na rua e foi pegar Padre Pedro, antes da missa das seis.  Quando menos, ele iria dizer se a conclusão era desarrazoada. Seria sua a última palavra. Contou-lhe o acontecido, demorando nos detalhes, repondendo as suas interrogações. Tudo levava a crer ser coisa do Demônio, pensava minha avó. E só Padre Pedro era capaz de vencê-lo. Levara-lhe as pedras no bolso do casaco e os argumentos na ponta da língua. Porém, não foi preciso muita conversa para convencê-lo.

              - Dona Nizinha - disse ele -, é estranho o fato. É estranho. Mas, a Senhora sabe, ou devia saber, que coisas assim só com licença especial do Senhor Bispo…

              - E então, Padre Pedro? - replicou minha avó.

              - Vamos esperar que Deus nos ilumine. Vamos rezar e benzer a casa, primeiramente. Mande erguer um altarzinho na sala. Coisa simples. Eu apareço para a gente orar em comum e aspergir os cômodos.  É o que basta, por enquanto, D. Nizinha, é o que basta. Deus haverá de nos guiar e de nos atender.

              Dia marcado, combinada a hora, minha avó, cheia de fervorosa fé, voltou com a certeza de que foi Deus que a mandou atrás de Padre Pedro. Sabe-se, em Morrinho, que sua benção tem poder de curar e de salvar, pois  vai direta aos pés de Deus. Os seus milagres são a prova disso. E entrou ela muito feliz em sua casa, dizendo a todos que Padre Pedro viria abençoar sua casa.

              Foi, então, que no dia e hora acertados, minha avó insistiu que eu mesmo fosse buscar Padre Pedro. Fazer-lhe companhia e trazer seus paramentos, a água benta, os catiçais e o que mais coubesse na ceremônia. Tomei banho, pus a camisa de domingo e lá fui, orgulhoso. Padre Pedro não me fez esperar. No caminho, puxou conversa comigo, Contei-lhe meu nome, que estava no grupo… Quis saber se já tinha ajudado missa, se gostava de Morrinho… E não me lembro do que mais falou e perguntou.

              Quando cheguei, sobraçando uma valise grande e alguns embrulhos, a sala já estava cheia. Os vizinhos, alguns parentes e minha avó. Eu estava um tanto orgulhoso, pois iria acolitar o Padre, pois conhecia o latim das respostas de cerimônias comuns. Assim as da missa como a dos batizados e casamentos. Que me lembre, nunca fiz feio na liturgia. Era, pois, sem mais, o elemento indicado para sacristão naquela hora solene.

              Padre Pedro entrou e cumprimentou os presentes, que lhes beijavam a mão. Enquanto se paramentava, vestindo a sobrepeliz e colocando a estola vermelha, ia, com os lábios tremulantes, cochichando ao ouvido de Deus alguma coisa própria da hora, certamente em latim, de que, ali, só ambos entendiam. O silêncio caiu sobre a sala antes cheia de vozes. Minha avó apressou-se em acender os dois círios que ali estavam. ao pé do crucifixo, e, mal eles começaram a arder, Padre Pedro entrou a orar o que era de direito.

              De quando em quando, com a entonação ou com o olhar, pedia-me uma resposta latina, decorada, a qual eu adivinhava pela deixa. E ia ela dizendo as rezas. Depois, como era de esperar-se, entrou pelo corredor e. com o aspersório de prata, atirou água benta na cozinha, na saleta, na sala e nos quartos, molhando até a gente com a água abençoada. Não faltou um canto da casa. Minha ávó nos seguia - Padre Pedro e eu na frente - arrastando pelo soalho seus sessenta e tantos anos e sua infinita fé em Deus e no Padre que tão bem ela conhecia. Finda a aspersão, Padre Pedro colocou tudo em cima da mesa e, desvestindo os paramentos, abraçou afetuosamente minha avó, para dizer-lhe, com voz alta, o que todos ouviram:

              - A Senhora pode ficar tranqüila. Aqui, onde caiu esta água, nunca mais entrará a não ser o Bem e os anjos de Deus.

              E olhando as pedras , que a minha avó havia posto dentro do oratório, ainda falou, em tom de sussurro, mas decisivo:

              - Pode jogar isto fora, se quiser, porque aqui elas não voltarão!

              Ainda me lembro de ter ouvido de uma vizinha, que, nessa hora, subiu a manga da blusa e passou a mão pelo braço, exclamando: “Gente, eu tô arrepiada!”. Era a palavra de Padre Pedro que a todos emocionava.

              Dando por fim a cerimônia, Padre Pedro falou em sair, mas minha avó atalhou:

              - Sem café o Senhor não vai!

              Das latas enfumaçadas, tirou biscoito, broa, queijo, pão-de-ló e a rosca-da-rainha que Padre Pedro sempre apreciou. E, ao ver as coisas na mesa, não se fez ele de rogado. Sentou-se à cabeceira e deitou os olhos nas quitandas esparramadas pela mesa comprida.

              Não se falava mais na cerimônia, mas todos ainda ouvíamos o Padre Pedro. Lembro-me de que ele contou uma graça. Gostava disso. E muitos enxugavam os olhos de tanto que riam. “Ai meu Deus do Céu, Padre Pedro é um gozo!, alguém disse.

              É verdade que eu ainda não me havia dado por servido de todo, quando Padre Pedro levantou-se e, desculpando-se pela pressa, disse a minha avó:

              - Não vou pagar o café, Dona Nizinha. Estava muito gostoso, mas tenho compromissos ainda hoje. E a Senhora me arranja o menino, outra vez, para levar-me de volta estes castiçais e os embrulhos. Tomando a maleta, chamou-me, pedindo-me que lhe levasse a carga, agora mais pesada de umas roscas que minha avó, furtivamente, lhe enfiou na bagagem. Despediu-se e saiu comigo, deixando na casa e na alma de minha avó a tranqüilidade que que sua palavra santa sempre proporcionava às horas difíceis.

              O tempo, depois, searrastando, dias e meses após meses, se incumbiu de revelar o milagre, entre os muitos que Padre Pedro andou fazendo em Morrinho, e nas redondezas. Trouxe a certeza de que sua oração, naquele dia, fora, direta, aos ouvidos de Deus. Ao que se sabe e ao que se conta, nunca mais, até hoje, ali se viram coisas estranhas. Nunca mais ali caiu pedra ou rolou no chão coisa qualquer. Foi como, algum tempo atrás, minha avó, em carta, contou a minha mãe.

              Voltando àquele dia, retornamos, Padre Pedro e eu, na direção da Igreja. Cinco horas da tarde, dessas tardes de sombras compridas sobre o chão de Morrinhos… Caminhávamos calados. Ele, por não querer dizer nada, e eu, por não saber do que falar. Cumprimentava, tocando seu chapeu preto e bem engomado, os que por nós cruzavam  e os que, àquela hora, se deixavam sentados em tamboretes pelas portas das lojas e biroscas, à espera de que o dia acabasse de todo.

              Por fim, chegamos. Tomou-me a maleta das mãos e, com a ponta dos dedos, segurou minha cabeça, que se pôs, assim, sem querer, olhando o chão. Fez um silêncio, que não entendi e, depois, de arranco, me disse:

             - Aquelas pedras… Meu filho… Aquelas pedras… - e, enfático - Foi você, não foi?!

              Senti que alguma coisa como gelo me descia da nuca até os pés e voltava, corpo acima, como uma bola de fogo. Atônito, não me ocorreu contestar ou procurar rodeios. Nem ocorreria nunca a ninguém deste mundo.

              - Foi - respondi engasgado.

              - Você pôs o tamborete ou cadeira e, por cima da porta…, indagou, afirmando, Padre Pedro.

              - Não, Padre, foi na greta, por debaixo…

              - E onde pegava as pedrinhas?

              - Na beira do córrego. Guardava no bolso da calça.

              - Hum… fez Padre Pedro.

              - Já pediu perdão a Deus e se arrependeu, já?

              Eu devia ter no rosto a mesma vermelhidão que a tarde punha no céu de Morrinho, àquela hora. Parado, sem coisa pra falar, chutava a terra com o bico da botina, enquanto esperava que Padre Pedro afrouxasse a mão que havia posto sobre minha cabeça pendida. Depois, saindo, ainda olhando para o chão, sussurrei, saindo:

             - Bênçao, Padre.

             E voltei, rua abaixo, passo a passo.

             Padre Pedro entrou na Igreja. Conversar com Deus, certamente.

Postado no Natal de 2008 - Feiz Bahmed