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Amor no Deserto

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I
Oasis
Rafik desde cedo morou num aconchegante oásis de nome Halab, posto por Alá ao Leste do deserto da Síria, de onde, mirando o rumo infinito do Norte, os olhos não vêem, mas adivinham a cidade de Damasco, lá bem longe, longe, ao pé do mar.  Halab é como  uma ilha de beleza e graça no centro do branco e ondulado deserto que se pôs em seu entorno e o abraçou à viva força.
Ali Rafik tinha a sua mulher, Sheired, que lhe dera Zara, a filha mais nova, rainha da casa. Seus então recentes dezoito anos lhe emprestavam dois atrevidos olhos pretos, rimando com seus cabelos também negros, que, graciosamente, brincavam, às vezes, de esconder seu rosto.

Havia dia e hora em que cabia a Zara buscar, na fonte do oásis, a água de esplêndida pureza e limpidez, presente de Alá àquele pedaço de terra e aos beduínos que com ela alimentavam corpo e alma, e desmistificavam o calor do deserto de Halab.

Certo dia, ao voltar de seu afazer quase cotidiano, contou à mãe que, ao longo da fonte, um milionário, de certo, um califa - soube ela  que  se  chamava  Abdulah - montara no deserto dezenas de brancas tendas para seus fiéis acompanhantes, enchendo também o espaço da areia com enorme quantidade de camelos, “lindos camelos”, repetia Zara. Um ou dois dias após, Zara retornou à fonte, em busca da água e da nova paisagem feita lá pelo nômade califa, coisa assim tão rara e bela, que nunca antes se vira por ali.

Nesse dia, assustada, teve uma surpresa.  Dela aproximou-se  um dos acampados e lhe sugeriu conhecer a rica tenda do honrado Abdulah, o que Zara prazerosamente aceitou de pronto, sem jamais imaginar que tal visita havia sido uma sugestão do eminente califa, que a vira antes e se encantara com sua beleza.  Lá chegando, Zara surpeendeu-se com tanta riqueza e esplendor da tenda, ornada com placas de ouro e pedras raras,  de variadas cores.  Alegrou-se com a delicadeza e a afabilidade do milionário anfitrião, enchendo-se de emoção e encantamento.

Abdulah, por sua vez, fascinado com a formosura e as meigas maneiras de Zara, entrou em estado de felicidade e regozijo. Contemplou a jovem, que resplandecia, alegre, linda e radiosa, sobretudo com aquela vestimenta azul, cor de céu, que deixava à vista alguns pequenos bocados da carne morena de Zara, tostada da quentura do oásis, queimada pelo eterno sol sem sombras daquele deserto, ou, quem sabe, por Deus mesmo, quando nascera. Como a comitiva de Abdulah se fazia acompanhar de dois poetas, um deles, a  pedido do anfitrião, rimou, em metáforas, versos em homenagem a Zara:

“Seus pretos cabelos se enrolam sobre as faces

e produzem discórdias que comparo a comoções;

e penso: a manhã foi coberta pela noite,

ou o plenilúnio é que foi coberto pelas sombras.”


Extasiado, Abdulah entendeu de falar a Zara de sua admiração e da forte atração que sentiu ao vê-la de perto, bem mais intensa do que a que lhe invadira no primeiro dia em que a vira à distância. Aproveitou-se da lisonja feita para consultá-la sobre a possibilidade de ela aceitar com ele viver em casamento, por toda a existência que o misericordioso Alá, bondosamente, lhes concedesse.  Antes que Zara, já rubra,  respondesse, acrescentou que, além de acompanhá-lo vida afora, teria ela, pelas bodas, cem camelos seus, à sua escolha, entre os mais espertos e lindos!  A riqueza dos árabes do deserto se media pelo número de camelos que formavam sua cáfila, e a deAbdulah, Zara já o sabia, era feita de mais de mil alimárias!

Tomada de grande susto e emoção, Zara não demorou a responder-lhe. Agradeceu a generosa oferta, mas esclareceu que não pretendia deixar o oásis em que nascera e, menos ainda, a companhia de seus pais, a quem amava acima de tudo. (Seriam mesmo essas as razões de Zara? Sempre duvidei disso!).  Desapontado e triste, Abdulah deixou-a partir e a seguiu com os olhos até que  o vento do deserto, ao longe,  levantasse cortinas de areia, tal qual fumaça que a escondia  entre alvacentas nuvens, muito  além do acampamento, na linha onde a areia desaparece e começa o céu.

II

Chegando a casa, Zara contou, emocionada, tudo o que acontecera, incluindo na fala, por sua boa memória, tudo que lhe dissera o apaixonado califa. Foi quando seu pai, apoiado de forma veemente por sua mãe, disse-lhe que a ela, Zara, teria faltado amor a sua família, pobre que sempre foi, à espera de que Alá lhe trouxesse algo com que aliviar o trabalho do dia-a-dia, a fim de que, nos anos que lhe restassem, pudesse ter algum conforto, e mais, soubesse que a filha estaria para sempre amparada e feliz. Ainda que não amasse seu rico pretendente, - “o amor sempre vem com o tempo” -, valia até sacrificar-se um pouco em favor de si mesma e da família que nunca tivera, além do pão e da azeitona, algo melhor do que viver. Que o misericordioso Alá a perdoasse por esse pecado de seu coração.

Zara, emotiva, respeitosa, chorou o que valia chorar, mas não contraditou o pai. Recolheu-se, à guisa de ir descansar e dormir. Sem que, ainda que pouco, houvesse gozado do sono da noite, amanheceu com a certeza de que errara e, por isso, decidiu que voltaria à fonte naquele mesmo dia  e daria, corajosamente, seu assentimento ao carinhoso pedido de Abdulah.  À sua tranqüilidade pela decisão tomada somaram-se a alegria e a felicidade de seus pais, o que fazia bem mais forte e irreversível a sua determinação. Vaidosa, foi ao espelho, limpou um resto de lágrimas, acendeu o rosto e partiu para a fonte. Lá, com intrepidez, diria de seu agrado em aceitar a proposta do califa.

Foi o que, de pronto, ao chegar, disse a Abdulah, que a encarou, espantado, por algum tempo, para , em seguida, falar-lhe carinhosamente:

- Zara, querida, de tanto que a vi e a amei, apenas tendo-a junto a mim por tão pouco tempo, esta noite sonhei com você e, durante toda a madrugada, a revi em sonhos dos mais ditosos que Alá já me deu em todas as minhas noites sonhadas.  Zara, nós nos amamos em meus sonhos… Foi o que levou a minha alma a colocá-la em meu passado e, assim, não a ter mais em minha mente e em meu coração. Querida, já não a quero, é certo, porém, quanto, a quis!

Zara, silenciosa, sem respostas, triste, arrependida, retornou ao caminho de casa. Por mais que nãoquisesse lembrar, ferida em seu orgulho, levava consigo amarga decepção e um desastroso  desapontamento.  Seus pais, ao saberem do ocorrido, encolerizaram-se, a ponto de  Rafik, pai de Zara, firmar propósito de ir ter com o Vizir e reclamar do  descumprimento de uma promessa séria feita por um califa!  E um dia após, indo até o sábio Vizir da região, a ele tudo explicou, pedindo-lhe sua apreciação sobre o que ele considerava um ato sujeito a repreensão e castigo, sobre ser um pecado escrito no Alcorão, sujeito, pois,  às penas das labaredas do inferno.

III

De imediato, o Vizir solicitou a presença de Zara, que lá foi e a ele confirmou tudo que seu Pai havia dito, mostrando-se triste e revoltada com o injusto, sádico e indecoroso procedimento de um califa, impiedoso acólito de Maomé. O sábio Vizir - que Alá assim o conserve - foi rápido em dar a entender que havia razão na queixa de Zara e de seu pai.  Determinou, de pronto, dia e hora em que faria o julgamento público do acusado. Para tal, decidiu que reuniria no oásis, junto à fonte, no dia seguinte, Zara e seu pai, como reclamantes,  e Abdulah, o denunciado.

E assim se deu, atendido o horário,  quando, acatando as regras, o Vizir chamou à sua presença o agora réu Abdulah, que, inquirido, confirmou as afirmações de  Zara, sem negar qualquer detalhe do ocorrido e do que fora falado. Cabia, por praxe milenar, que a reclamante, em alta voz, rogasse ao Vizir o início do julgamento. Zara, que decorara o texto da petição, a fez:

- Eu, Zara, em nome de Alá, misericordioso, rogo ao Vizir El Sayed Gamal Talaat, que, a meu pedido, inicie o julgamento do por mim denunciado Abdulah.

O Vizir, relatando, deforma pública o ocorrido, intimou o réu, Abdulah, a colocar ao alcance da reclamante Zara toda a sua cáfila, para que ela escolhesse os cem camelos que, por justiça,  lhe pertenceriam.  Abdulah, ferido em seu orgulho, inclinou-se para demonstrar sua resignação, ao tempo em que, assim se pondo, escondia suas lágrimas. Deu imediata ordem a seus escravos, que cumprissem a determinação do Vizir, sem mais demora.

Isso feito, Zara, com a ajuda do pai, entrou a selecionar os camelos, escolhendo os mais novos e aqueles que lhe pareciam mais fortes. Não raro, hesitante, trocava um dos escolhidos, buscando em meio à cáfila outro que lhe parecia mais sadio ou mais jovem. E, assim, durante horas, procedeu à contagem, até que fosse escolhido o último dos cem camelos, apartados os que sobraram.  O sorriso bonito de Zara dava conta de seu deslumbramento pela posse daquilo que iria mudar o seu destino e o destino de sua família.

IV

Após um razoável descanso, o Vizir exigiu silêncio e voltou à fala:           

-Saibam, o réu e a reclamante, que, como me facultam a tradição e a lei, após examinar com rigor todo o ocorrido, que aqui hoje se faz  julgado, por decisão agora a ser por mim solenemente  enunciada, cuido, antes,  de embasar minha sentença no que me ditam o juizo e o coração, e o faço dizendo que o réu Abdulah, como por ele aqui confessado foi, declarou que, na noite que se seguiu ao dia em que conheceu Zara, em sonho a possuira, e que essas felizes horas sonhadas, por favor de Alá, aplacaram  toda a sua paixão.

- De igual forma, neste julgamento, à minha vista e na visão de todos, Zara, nos longos momentos em que passou contando os desejados camelos, também sonhou que os possuía a todos, como seus: felicidade de um sonho que Alá lhe concedeu nos momentos em  que   ganhou a alegria e a emoção  de os escolher e contar.

Assim, considero e julgo que o amor ardente  de um, e a rica recompensa material doutro, se realizaram nos sonhos de ambos. Que voltem, agora, à posse de Abdulah os camelos separados, pois os sonhos de ambos se compensaram.   Esta é a minha sentença final e definitiva. Que Alá ilumine ambos os enleados para que entendam que, assim julgados, estão mutuamente pagos.


(Juro pelos negros olhos deZara, que tudo isso, tal como aqui contei, se passou no deserto da Síria no início do século XIV d.C.)


Outubro/2008 - Feiz Bahmed