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Histórias de Palíndromos

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A história começa em janeiro de 1982. Era Belo Horizonte, havia almoço no Palácio das Mangabeiras.  Francelino Pereira, o anfitrião. Presentes José Monteiro de  Castro e Vivaldi Moreira, presidente perpétuo da Academia Mineira de Letras. José Monteiro indagou: - ”Que me diz, Vivaldi, do livro inédito de Afonso Arinos de Melo Franco ’Amor a Roma’? Como é mesmo o nome de uma expressão como esta do título do livro, que pode ser lida de trás pra diante, guardando o mesmo sentido?”      Vivaldi disse saber, era uma bela palavra, mas, por mais que procurasse, não lhe vinha à mente. Deu-lhe, segundo ele, um branco total! Todos insistiam e o estimulavam em  vão: ”Como é?”, foi novamente indagado.  Vivaldi, após o almoço, foi para casa sentindo-se derrotado. Trancou-se em sua grandiosa biblioteca e entrou a buscar a que chamara  danada, fujona e outras mais. Ligou para o grande filólogo Aires da Mata Machado Filho, que em nada o ajudou. Obcecado, consultou os melhores dicionários e os mais valentes filólogos da região. Até que, após dias, inviabilizado o seu telefone, encarregado que estava de buscar ajuda, recebeu, então, por telegrama, o socorro do culto médico Fernando Veloso: “Não será palíndromo?  Do grego - palin, outra vez, e dromos, corrida?”

Era!Tudo o aqui contado é ancorado em longo artigo de Otto Lara Resende, que, em 13 de julho de 1986, no jornal  “O Globo”, relatou o episódio. Narra Otto  que Vivaldi Moreira, logo no dia seguinte ao recebimento do telegrama, divulgou o ocorrido em crônica publicada no “Estado de Minas”, do que lhe valeu receber longa carta do conterrâneo Feiz Nagib Bahmed, na qual este lhe dizia serem, os palíndromos, um de seus hobbies,  e enumerava sessenta exemplos como “a torre da derrota”,”orava o avaro”, “a cara rajada da jararaca” e, por fim, citava o que é conhecido como o mais antigo palíndromo do mundo: “sator arepo tenet opera rotas”.

Ainda guardo comigo a crônica de Vivaldi Moreira, datada de 30 de janeiro de 1982, na qual ele diz, ipsis litteris: “… sou gratamente surpreendido por longa e meticulosamente bem redigida missiva, bastante lisonjeira, de parte do escritor Feiz Nagib Bahmed, que vai além e alude a palíndromos perfeitos e imperfeitos, e me remete cerca de sessenta, os mais engenhosos e bastante pitorescos…”. Tal crônica, tempos depois, foi transcrita em seu livro ”Personagens & Situações”, que dele recebi, como presente, em reunião a que compareceu em nosso Rotary Club de Belo Horizonte, do qual era sócio honorário. 

Em seu artigo, Otto, cujo nome, curiosamente, é um palíndromo também!, conta, ao final, que Jaguar, ao lançar o primeiro número do jornal “O Pasquim”, pediu a colaboração de Chico Buarque de Holanda.  Chico teria oferecido um palíndromo de sua autoria, que lhe custou cinco horas de trabalho. Não foi bem recebido. “Só Houaiss deve saber o que é isto”, comentou Jaguar. Otto teria defendido Chico Buarque, informando: “Sendo o letrista que é, não admira que Chico fosse um ‘palindromist, an inventor of palindromes’  (na definição do Chambers)” .     

O termo palíndromo é considerado substantivo e adjetivo, por abonação  de Houaiss, Aurélio e Michaelis, e, em inglês, está no Chambers - palindromic.

Mas, voltemos aos palíndromos.

“SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS”, além de ser o mais antigo palíndromo conhecido,  é tido como dos mais perfeitos e, ainda, como fórmula cabalística, com alto poder curativo…  Segundo Otto Lara Resende, diz o inglês Cuddon que, aqui na América do Sul,  esse palíndromo “cura mordida de cobra e facilita parto”.  Além de palíndromo na leitura horizontal, ele o é, igualmente, se posto em posição vertical, lido de cima para baixo e, inversamente, de baixo para cima, em todos os cinco seguimentos das letras iniciais, confira:

 

1 2 3 4 5
S A T O R
A R E P O
T E N E T
O P E R A
R O T A S
5 4 3 2 1

E qual o significado dessa misteriosa frase? Não se sabe ao certo. Sem discutir as diversas hipóteses para o sentido oculto desse palíndromo, também chamado “quadrado mágico”, é bom que se saiba, ao menos a título de curiosidade, que existem diversas traduções para a fórmula “sator arepo tenet opera rotas”, que, ao que parece tem origem latina. Algumas dessas traduções: “O lavrador Arepo guia as rodas com cuidado.”, “O lavrador mantém cuidadosamente a carroça nos sulcos”, ou “Deus, o grande semeador, mantém cuidadosamente o mundo em sua órbita”, ou ainda, “Deus conduz as regras da criação para os trabalhos do homem”. Seja como for, o sentido cabalístico desse palíndromo tem atravessado os séculos. 

Existe o palíndromo ”perfeito”, que é aquele que, direta ou inversamente lido, em ambos os casos, mantém íntegras as  palavras que o compõem, sem necessidade de ligar-se ao termo subseqüente, ou a parte dele, para formar a palavra seguinte. Exemplo: ANDE ASSE ESSA EDNA.  Contrariamente, o palíndromo ”imperfeito” é aquele que, para ter sentido, necessita complementar-se em algum termo adiante, como, na leitura reversa, o  palíndromo seguinte, constante da nossa relação acima: ATIRA RAMO AO MAR A RITA.                   

A divulgação do assunto me valeu receber várias cartas de palindromistas de São Paulo, Rio e até da Paraíba, datadas, todas, de 1986, e que me solicitavam “intercâmbio” de palavras e frases palíndromas. Remeti as de minha coleção a todos os que me solicitaram, e estou aguardando ainda a chegada, a qualquer momento,  dos palíndromos que ficaram de me remeter em troca. Mas, o corrêio, sempre cuntatório… (Quem não souber o que é “cuntatório”, faça como o Vivaldi, abra o Aurélio ou o Houais, que eles explicam. Mas não façam o mesmo com relação ao verbete “palindromista” mencionado acima, o qual, a despeito de ser registrado em inglês pelo Chambers, não o é pelos dicionários da Língua Portuguesa).

O palíndromo existe em todas as línguas, vivas ou mortas. Porém, vamos aos nossos (aos que conheço, claro):

E ATÉ O PAPA POETA É
A TORRE  DA DERROTA
OTO COME MOCOTO
LA TEM METAL
E ASSIM A MISSA É
A LAMA DA MALA
MISSA É ASSIM
SALTA ATLAS
ARI ME TEM IRA
A TIRA DA RITA
A DAMA AMADA
ORAVA O AVARO
ANEL E HELENA
A CAFE E FACA
AMOR A ROMA
ADIA A IDA
LUAR A RAUL
O GOL LOGO
A DOR RODA
A VIDA, DIVA
O CORTE E TROCO
ORAVA OTO AVARO
RAMON AMA NO MAR
ASSAM A MASSA
AULAS A LUA
LUZ AZUL
APOS A SOPA
ROMA É AMOR
ABUSE E SUBA
A DROGA GORDA
O GOLIAS SAI LOGO
SO TAPAS E SAPATOS
LA TEM METAL
LUZ AZUL
NAU PARA ARAPUAN
O LOBO E O BOLO
SOCORRAM MARROCOS
SARAVA AVARAS
ANITA A TINA
ATO IDIOTA
RARO É ORAR
ORAR É RARO
ACAIACA
A DIVIDA
A COCA
A GAGA
ORA O ARO
O COCO
MIRIM
MUSSUM
LAVAL
OVO
RAMON AMA NO MAR
SAIRAM O TIO E OITO MARIAS
ROMA ME TEM AMOR
MORRAM APOS A SOPA MARROM
RAMOS ME VE E VEM SOMAR
É LEI NADA A DANIELE
ARI E RAMON MATAM NO MAR: E IRA
A MALETA É ATE LAMA
A CARA RAJADA DA JARARACA
RAUL, OTIMO O MITO - LUAR
ATIRA RAMO AO MAR A RITA
ANOTARAM A MARATONA
ANDE ASSE ESSA EDNA
AMADA LENA, O ANEL A DAMA
ATAI A GAIOLA SALOIA GAIATA
SOCORRAM ME SUBI NO ONIBUS EM MARROCOS
IN GIRUM IMUS NOCTE ET CONSUMIMUR IGNI
ATE REAGAN SIBARITA TIRA BISNAGA ERETA
O ROMANO ACATA AMOR E ROMA ATACA O NAMORO
LUZA ROCELINA A NAMORADA DO MANUEL LEU NA “MODA” DA ROMANA ANIL E COR AZUL


Se o eventual leitor conhecer outra palavra,  ou frase, ou, principalmente, um verso   palíndromo, mande-me para que eu o publique, como sua colaboração. Ou, então,  tente construir algum, o que seria ainda melhor e muito bem-vindo. A propósito, aqueles que me solicitaram o “intercâmbio”, há doze anos atrás, podem agora aproveitar-se deste veículo para enviar seus palíndromos.

     Postado em set/2008 - Feiz Bahmed