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Padre Bento e seu Fiel Mensageiro

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Severino tinha sua próspera fazenda em Pedro Leopoldo, ao Norte de Belo Horizonte, de onde distava cerca de sessenta quilômetros. Sua bem razoável renda mensal provinha da tradicional cultura de inúmeras verduras, legumes e frutas diversas, além de caldo de cana, levados, diariamente, ao mercado municipal.

Possuía dois serviçais que de tudo cuidavam, cabendo a ele unicamente carregar sua caminhonete bem conservada e, cedo – bem cedo – rumar para a capital e logo entregar o produto já negociado com mais de um comprador do mercado.

Em seu caminho, passava ao lado da Chácara Nossa Senhora da Glória, um sítio muito atraente, usado para descanso e retiros espirituais de padres de colégio belo-horizontino. A chácara ficava numa baixada, a cerca de cem metros da rodovia, à qual se ligava por uma ladeira pouco íngreme e bem cuidada.

O primeiro contato de Severino com Padre Bento, residente na Chácara, na função de supervisor, deu-se em uma das viagens diárias do fazendeiro, que, ao passar pelo sítio, viu o Padre acenando e andando rápido em sua direção. Severino, estacionou o carro e, um tanto intrigado, ficou à espera que o padre se aproximasse. Era um pedido a Severino – que entregasse uma carta, um tanto urgente, na igrejinha posta na entrada da cidade, por onde ele certamente passaria.

Muito agradecido e incentivado pela boa vontade e presteza de Severino, acabou por se tornar um costume do Padre Bento cercar o habitual viajante em seu caminho, pedir-lhe para comprar, em Belo Horizonte, utensílios, mantimentos, e, às vezes, pequenos objetos de uso na Chácara. Houve até um dia em que lhe deu a incumbência de desencalhar um papel no Cartório do Sexto Ofício e, vai que vai, Severino chegou a casa já com o escuro.

Apesar de embaraçado por aquelas constantes paradas para atender as carências de Padre Bento, Severino não tinha como esquivar-se delas. Ao demais, no Natal, fora convidado para, com a esposa e o filho, participar da Missa do Galo e da farta ceia a eles oferecida pelos habitantes da Chácara Nossa Senhora da Glória. Até, de Papai Noel, deram pro Francisquinho uma caixa de bombons!

O grande problema nasceu quando as paradas em seu caminho, cada vez mais constantes, tornaram-se diárias, a ponto de, num dia de chuva, Severino passar açodado pelo caminho da Chácara, sem olhar pros lados, e – dia seguinte – Padre Bento mostrar cara de quem não gostou. Mas, Deus do Céu, aquelas paradas – pensava Severino – já o fizeram, muitas vezes, perder negócio de verduras, que murchadas, iam para o lixo. Não raro, compradores reclamavam atrasos de Severino, justo quando Padre Bento demorava subir a ladeira, e, às vezes, voltava embaixo em busca do esquecido e se remanchava, remanchava, pra desespero de Severino.

Em casa, Severino trocava idéia com sua dona, que lhe dizia pra mudar de caminho – passar por Contagem – o que, no entanto, valia gastar mais vinte reais e meia hora de estrada. Contratar seu sobrinho, Sabininho, que choferava bem, seria gastar, por baixo, mais duzentos paus todo mês! Um inferno! Conversou com seu Batista, homem vivido, seu padrinho de batismo, e dele só ouviu zanga e desavença: “Por que não cortou no começo? Agora é tarde!”

Foi um ou dois dias depois da conversa com o padrinho, que Severino, manhã cedinho, mas já de sol aceso, montado no Ford velho de guerra, chispou caminho afora e, no tradicional ponto de encontro, viu Padre Bento, lá embaixo, agitado, desinsofrido, a abanar-lhe as duas mãos; que parasse o carro!

Parou. Pôs a cara pra fora da boleia e gritou:

– Seu Padre! Mudei de religião!

E desembestou estrada afora.

Post  jan/2010 - Feiz Bahmed