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Pequena Diferença

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Era Fortaleza, Ceará, e o ano, 1954. Para lá havia ido, inaugurar e gerir a primeira agência bancária privada do Sul do Brasil naquela capital, do então Banco da Lavoura de Minas Gerais, hoje, Banco Real. Quase todas as outras, ali instaladas, eram autóctones, à exceção de uma, estrangeira.

Ajudado, naturalmente, pelo grande prestígio do Banco que representava, não fora difícil para mim conquistar uma ampla e expressiva comunidade local. Entre outros, ganhara como cliente a grande empresa de origem alemã, proprietária da renomada e nacionalmente conhecida “Casas Pernambucanas”, cuja razão social, até hoje, é Arthur Lundgren Tecidos S.A. O escritório da empresa em Fortaleza se fizera, então, tesoureiro de toda a sua rede do Norte e do Nordeste do país

Seria desnecessário dizer que a Lundgren, enquanto nossa cliente, mantinha expressivos negócios em nossa Agência, merecendo especial atenção de todo o quadro de nossos perto de oitenta funcionários.

Certo dia, compareceu ao Banco um alto executivo da empresa, levando uma listagem bem grande de nomes de acionistas de todo o país, para os quais devia a Lundgren remeter os dividendos anuais a que faziam jus. Cabia-nos confeccionar uma quase centena de cheques administrativos, de diferentes valores, um para cada acionista listado. O referido executivo ficou de voltar à Agência após um par de horas – tempo necessário para a cuidadosa confecção dos documentos.

Feito e rigorosamente conferido todo o trabalho, o Contador da Agência levou-me, na gerência, todos os cheques confeccionados, para que eu os assinasse. Perguntei-lhe, por dever de ofício, se havia conferido com rigor a transação e ele respondeu-me: “Sim. O total, em cruzeiros, dos cheques por nós emitidos ‘bate’ com o valor do cheque, para pagamento, preenchido pela Lundgren Tecidos. Há, apenas, a inexpressiva diferença de dez centavos a menos no cheque da empresa.”

Aculturado, desde cedo, ao rigor do negócio bancário, no qual é inadmissível qualquer desigualdade contábil, ainda que de inexpressivo valor, avisei ao executivo da Lundgren, que lá fora receber os documentos, da divergência de valores apontada pelo nosso Contador, deixando claro que só me referia a uma diferença contábil na documentação da empresa, jamais, obviamente, ao desimportante valor de tal diferença.

De pronto, entretanto, entrei a medir e pensar se teria sido conveniente a ingênua informação da diferença de “um tostão” em negócio da empresa que confiava à Agência, havia tempo, expressivos milhões e milhões de cruzeiros. Chamei nosso Contador, e ele ainda ponderou que conhecia bem as características singulares do povo alemão e temia que nossa cliente, de origem germânica, tomasse o assunto como uma estranha e mesquinha cobrança de quem nos confiava grande parte de suas avultadas finanças.

Em casa, com o assunto plantado na cabeça, expliquei a minha mulher o que ocorrera. Mas arrependi-me de ter-lhe contado, porque ela foi logo entrando com um sermão:

– Essa sua mania de banco, que não pode faltar duzentos reis! Você acha que uma empresa daquele tamanho dá valor a essas idiotices de bancário e… e de mineiro! Você tá pensando que está no Vale do Jequitinhonha, barganhando com boiadeiro?…

– Chega!, disse eu, ainda mais nervoso. Não vou receber tostão de megaempresa nenhuma. Se achar ruim, que ache. E vá pro inferno!

No dia seguinte, da gerência onde estava, enxerguei, à porta da Agência, nada menos que Mr. Peterson, com seus perto de dois metros de altura, Vice-presidente da Lundgren do Brasil. Trajava terno preto, colete preto e sapatos pretos. Pela primeira vez, viera ter à Agência; e eu sabia o motivo. Se perdesse a grande conta da Lundgren, já tinha eu até um “plano B” para tocar a vida.

Convidei-o a entrar e, fazendo-me de feliz com sua presença, entrei a falar de amenidades, até que ele, muito sério, hirto, retirou do bolsinho do colete preto um pequeno embrulho cuidadosamente feito, que me entregou, dizendo:

– Aqui estão os dez centavos que estavam a menor em nosso cheque de ontem. Fiz questão de eu próprio trazê-los, pois quero cumprimentá-lo pela inflexibilidade e pelo rigor que o seu Banco empresta até em minúsculos valores. Devo dizer-lhe que transferirei para aqui toda a negociação financeira da nossa empresa.

Agradeci, bastante aliviado, e um tanto feliz. Finda a visita, guardei em meu bolso o tostão embrulhado. Uma honrosa lembrança de um negócio probo e sério que, até algum tempo atrás, havia no Brasil.

Post jan/2010 - Feiz Bahmed