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A Sucessão do Coronel Francesco

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A Agência do Banco Financeiro de Goiás S.A., na cidade de Rio das Pedras, sempre foi um estabelecimento rentável, movimentado, com uma organização que a sede, em Goiânia, entendia exemplar. Era dirigida, desde a sua instalação, pelo Coronel Francesco, um empresário dinâmico, bastante conhecido, embora nem filho da terra fosse. Para ali o mineiro Francesco emigrara quando jovem; batalhou, afazendou-se, enriqueceu; veio morar na cidade, onde o Banco lhe ofereceu a gerência da Agência

Durante sua longa gestão, a Agência ganhou uma movimentação inédita, tendo ele conseguido clientes de peso, entre os quais seria de destacar-se a Cooperativa Agrícola Santa Cruz, uma das empresas que entregava ao Banco, de forma continuada, consideráveis recursos em depósitos diários e substanciais. Outras pessoas, físicas e jurídicas, prestigiavam a administração do Coronel Francesco, pela sua honestidade, lealdade e estreita ligação com toda a clientela. Em suas eventuais e curtas ausências, o Marcelo, que exercia a função de contador, o substituía com razoável atuação.

Veio, no entanto, o dia – era 1998, fim de ano – o dia em que, de uma hora para outra, o Coronel Francesco morreu, ao que diziam, do coração.  Realmente, uma grave perda para o Banco Financeiro, que, após alguns dias, entrou a buscar, na praça e fora dela, quem estaria à altura de ocupar o posto deixado pelo Coronel na gerência da Agência.

Nesse ínterim, Marcelo atendia, já havia algum tempo, como gerente provisório, como era comum em outras agências, alimentando uma ainda que pequena, mas sempre uma esperança, de ter seu nome lembrado para a gerência definitiva. Foi quando a administração do Banco mandou a Rio das Pedras dois inspetores. É que o Banco recebera uma carta anônima – ou com nome fictício – postada em Rio das Pedras, denunciando que o contador Marcelo, na função de gerente, estava recebendo cheques frios de dois comerciantes da cidade, cobrando juros para si e guardando os documentos no cofre do Banco.

Os inspetores, tão logo chegaram à cidade, aguardaram a hora própria de conferir o caixa geral da Agência, ou seja, após o expediente, quando não mais caberia qualquer lançamento retificador. Pediram a chave do cofre ao contador Marcelo, fizeram conferência rigorosa e concluíram, após bom tempo, pela absoluta correção do encaixe.

Marcelo mostrou-se bastante apreensivo e contrariado com aquela visita inusitada. Até porque alguns comerciantes, vizinhos da Agência, perceberam e estranharam o fato da fiscalização ser feita por dois profissionais, quando o normal foi sempre o trabalho ser conferido a um só inspetor. Porém, evidenciada foi a normalidade da Agência, e era tudo o que interessava a Marcelo. Entretanto, ele se perguntava, preocupado, qual teria sido o motivo daquela inusitada inspeção.

Os inspetores, bem treinados, usaram um artifício pouco conhecido: despediram-se e se deslocaram para uma praça próxima de Rio das Pedras e por lá ficaram por dois dias, findos os quais, retornaram à Agência e refizeram a inspeção, que, como da primeira vez, resultou em absoluta regularidade. O uso de tal “truque” visava pegar de surpresa o gerente que, caso estivesse agindo mal, tão logo se visse livre da fiscalização, após a despedida dos inspetores, retornaria tranquilo à burla, se acaso a usasse.

Passados cerca de quinze dias, quem compareceu à Agência foi um diretor adjunto do Banco, dr. Bernardo, vindo de Goiânia. Trancou-se com o Marcelo em sala reservada e, sem mais, entrou a interrogá-lo:

– A que se deve o desentendimento havido entre você e a diretoria da Cooperativa Agrícola, a principal e mais tradicional cliente da Agência?

– Qual desentendimento, doutor? Sinceramente, não entendo o que possa estar ocorrendo. Convido o senhor para irmos, juntos, à Cooperativa e lá esclarecermos esse assunto tão estranho.

– Não; já tenho uma reunião marcada com a diretoria da Cooperativa, e irei lá, só, para falarmos do assunto. Recebemos, Marcelo, uma correspondência que informa com detalhes, certa desavença entre o Senhor e a diretoria da Cooperativa Agrícola.

– Diante de tanta mentirada, dr. Bernardo, melhor é transferir-me daqui, para minha paz e também a do Banco, o senhor não acha?

Dr. Bernardo então foi até à Cooperativa, onde toda a diretoria se mostrou absolutamente surpresa com o assunto que lhes fora levado. Todos os diretores afirmaram que qualquer problema entre a Cooperativa e o Marcelo seria uma tremenda infâmia de algum desocupado. Esclareceram que havia, isto sim, da parte deles, muita admiração e absoluta confiança na gestão e no profissionalismo do Marcelo.

– Para a substituição do Coronel Francesco, disse o presidente da Cooperativa, não haveria melhor escolha que a da entrega da gerência ao Marcelo, que tem se portado inteiramente à altura do cargo.

O dr. Bernardo usou o telefone para contato com a administração do Banco em Goiânia, despediu-se e rumou para a Agência, onde, chamando o Marcelo, falou-lhe, sem mais delonga:

– Meu moço, você é o novo gerente desta casa. Sua nomeação lhe chegará às mãos dentro de um ou dois dias. Parabéns pela sua honestidade e capacidade de trabalho.

Marcelo agradeceu e, naquele dia, voltou bem mais cedo para casa. Feliz, gritou por sua mulher, contou-lhe a novidade e concluiu, satisfeito:

– Não lhe disse que aquelas cartas que eu mesmo fiz para a Administração eram tiro e queda? E você me desaconselhando…

 

Post jan/2010 - Feiz Bahmed