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Geyse e Frineia

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Igreja Matriz - São Bernardo do Campo

Corria a Revolução de 1930, que preconizava a regeneração dos costumes, os quais, certamente, não estavam lá essas coisas. Vai daí, então, que com ela surge um gaúcho – Batista Luzardo, feito chefe de polícia do Rio de Janeiro –, que baixa uma portaria proibindo o uso de maiôs alguns centímetros acima dos joelhos. Os cariocas entraram a gozar o caipira dos Pampas. Deu até samba! (“Com que roupa?”, de Noel Rosa).

Algum tempo depois, o estranho Jânio Quadros se fez presidente do Brasil e, de pronto, vetou as brigas de galo e o uso de biquínis. Os brasileiros, por perigosa desobediência civil, revogaram ambas as aluadas determinações.

Agora, em 2009 (século XXI!), setecentos alunos da Universidade de São Bernardo do Campo (Uniban), em coro, uníssonos, heróicos, agridem e injuriam sua colega Geisy, em nome do convenível “ambiente acadêmico”, afrontado por ela por trajar-se, em aula, com vestido descabidamente posto um tanto acima dos joelhos.
De pronto, a polícia acudiu – pois gritavam! –, cobriu-a com um conveniente e pudico jaleco, e a retirou do recinto universitário, salvando, incólume, o ambiente acadêmico. (Eu sempre confiei na PM. E você, Luizinho, me gozava! Agora, só falta descobrir quem roubou as provas do ENEM. Mas a Polícia Federal já indiciou cinco.)

Coisas parecidas, porém, não são de agora.  No século IV antes de Cristo, na cidade de Téspia, nasceu uma grega chamada Frineia. Conta-nos a História que, aos dezesseis anos de idade, Frineia já era uma linda mulher. E, na palavra dos historiadores, aos dezoito, tinha já atingido tal perfeição e tão grande plenitude de formas que, das mulheres da Antiguidade, consideradas maravilhas de beleza, poucas houve que pudessem comparar-se a ela. Em razão da formosura e graça de que a Natureza a dotou, e por sua conhecida extroversão, Frineia reinou muito tempo sobre Atenas como a mais bela e cobiçada cortesã daquela época. Em sua casa, recebia os mais brilhantes espíritos, as glórias mais puras de seu tempo.

 

 

Um dia, em meio à multidão de seus admiradores, Frineia avistou um rapaz bastante tímido, mas simpático. Ela dele se aproximou e conheceu, assim, o célebre escultor Praxíteles. No dia seguinte, foi ao seu atelier e, pela primeira vez em sua vida, posou para um artista. Praxíteles executou, sobre o modelo escultural de Frineia, a famosa estátua de Afrodite, a deusa grega da beleza e do amor.

Linda como um sonho, foi, porém, na Grécia Antiga, levada ao tribunal por Eutias, um admirador magoado por não ter ela correspondido a seu amor extremo. A essa sua mágoa, juntavam-se denúnicas hipócritas de invejosos da invulgar beleza de Frineia. A ela atribuíam conduta bastante liberal, ofensiva aos deuses de plantão. Demais, alegava-se que seu carisma, sua sensibilidade, o frescor de seu divino encanto e a atração de sua silhueta semisselvagem levavam tortura e suplício aos adolescentes gregos.

A divina Frineia comparece ao Areópago supremo, ao ar livre, na Colina de Marte, onde, parece, lá estava, já, toda a Atenas.

Três juízes, um promotor, advogados de acusação e, claro, Hipérides, o defensor de Frineia, ouvem as testemunhas convocadas, que, unânimes, depunham contra a indefesa cortesã, em busca de sua condenação. Cessadas as acusações hipócritas, Hipérides, emocionado, falou o quanto pôde em defesa da acusada. Por fim, combalido e fatigado, ato contínuo, subitamente retira-lhe a capa que a guarnecia e mostra o primoroso corpo desnudo de Frineia aos juízes, que se põem atônitos, perplexos e vacilantes. E o veredicto, segundo se conta, foi: treze votos a favor e nenhum contra a ré…

Olavo Bilac, no livro “Sarças de fogo”, em longo e belo poema intitulado “O julgamento de Frineia”, põe em versos toda essa história e narra o desfecho do julgamento nestas maravilhosas estrofes:

“Vai ser julgada. Um véu, tornando inda mais bela
Sua oculta nudez, mal os encantos vela.
Mal a nudez oculta e sensual disfarça.
Cai-lhe, espáduas abaixo, a cabeleira esparsa…

Queda-se a multidão. Ergue-se Eutias. Fala,
E incita o tribunal severo a condená-la:
‘Elêusis profanou! É falsa e dissoluta,
Leva ao lar a cizânia e as famílias enluta!

Dos deuses zomba! É ímpia! É má!’
(E o pranto ardente corre nas faces dela, em fios, lentamente…)
‘Por onde os passos move a corrupção se espraia,
E estende-se a discórdia! Heliastes! Condenai-a!’

“Vacila o tribunal, ouvindo a voz que o doma…
Mas, de pronto, entre a turba Hipérides assoma,
Defende-lhe a inocência, exclama, exora, pede,
Suplica, ordena, exige… O Areópago não cede.

‘Pois condenai-a agora!’ E à ré, que treme, a branca
Túnica despedaça, e o véu, que a encobre, arranca…
“Pasmam subitamente os juízes deslumbrados,
Leões pelo calmo olhar de um domador curvados:Nua e branca, de pé, patente à luz do dia

Todo o corpo ideal, Frinéia aparecia
Diante da multidão atônita e surpresa,
No triunfo imortal da Carne e da Beleza.”

 

Esta página, que retrata um momento histórico do século IV antes de Cristo, e que oportunamente lhes dedico, caros estudantes da Uniban, mostra a diferença abissal, de vinte e cinco séculos, que separam – e modificam – o nosso entendimento de hoje do sentimento da Grécia Antiga, nascente, cabeceira, mãe-d’água, que inundou de luz todo o Ocidente do mundo.

Quanta semelhança entre o episódio de antanho e o de agora, quando vocês, novos Eutias, em impiedosa turba, arrogam-se ainda a autoridade de severo tribunal que condena a jovem Geisy. Diverge, entretanto, o passado do presente, quando, lá, na antiga Grécia, o heróico defensor, para livrar a ré, a sua “branca túnica despedaça e o véu, que a cobre, arranca…”   E cá, na moderna São Bernardo do Campo, um bom soldado da milícia pátria, para remir a ré, a sua rubra e curta ”túnica” cobre e esconde, e com um vulgar jaleco a salva.

Post / Nov / 2009 – Feiz Bahmed