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Quem deu ao Mundo a Crise de 2008

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O Banco Central dos Estados Unidos, o Federal Reserve Bank-FED, sempre foi dirigido por talentosos economistas, tidos, mundialmente, como raros exemplares da ciência econômica. Um desses gênios, dirigente do FED, Alan Greenspam, percebendo, em 2001, que o País estava em plena recessão, algo que jamais convinha ao tradicional império, resolveu dar fim a esse grave fenômeno: promoveu uma importante queda nos juros – a “Selic” deles –, fixando a taxa em 0,75% ao ano.

  Esse eficaz remédio manteve a taxa de juros em patamares bem baixos, levando os cidadãos americanos a buscarem financiamentos vantajosos junto aos bancos, que abriram com liberalidade suas carteiras de crédito. Os empréstimos eram procurados para compras de barcos e automóveis luxuosos, num inédito cenário consumista, à vista da moderação das taxas. De todos, os financiamentos mais requisitados eram os destinados à compra de imóveis residenciais mais baratos, mormente pelo numeroso contingente dos economicamente menos favorecidos, uma classe carente de moradia. Mas outros imóveis, mais caros, embora em menor número, também disputavam os créditos bancários, bastante atraentes em razão dos módicos juros então correntes.

Os bancos realizavam os financiamentos a essas taxas módicas, normalmente com vigência garantida por três anos. Após esse prazo, se houvesse um acréscimo da taxa de juros, a do financiamento seria reajustada. Dentro de igual critério, mas com taxas iniciais mais elevadas, poderia o cliente optar pela garantia da manutenção da taxa do financiamento por um período de quatro ou até cinco anos.

Com juros baratos, ofertas abundantes de crédito e uma população desejosa de adquirir sua casa própria, os imóveis tiveram, naturalmente, um considerável acréscimo nos preços, por mais de quatro a cinco anos consecutivos. Não poucos especuladores faziam três ou mais financiamentos em bancos diferentes, repassavam alguns a terceiros, naturalmente com vantagens financeiras, e voltavam a financiar a aquisição de outros imóveis.

Os empréstimos feitos pelos bancos a pessoas ou famílias de baixa renda – denominados, em inglês, subprime – eram créditos arriscados, já que, se houvesse um aumento da taxa dos juros, passaria a ser relativamente improvável a adimplência desse grupo de tomadores.

Essa hipótese se fez realidade, quando, no início de 2005, ocorrendo certo surto inflacionário nos Estados Unidos, o FED se viu obrigado a elevar os juros, com o objetivo de sustar a inflação, já que as baixas taxas vigentes propiciavam a continuidade ou até mesmo um indesejado incitamento ao fluxo inflacionário.

Os juros básicos dos Estados Unidos, que desde 2001 eram de 0,75% ao ano, foram, em 2005, abruptamente elevados pelo FED para 5,25% ao ano. Tal escalada mais que quintuplicou o débito dos financiados, inviabilizando o pagamento dos empréstimos feitos a grande número de tomadores, mormente, por óbvio, dos prestacionistas enquadrados no denominado subprime.

Iniciou-se, assim, uma ampla sucessão de inadimplência, que levou os bancos a tentarem realizar as garantias reais recebidas, por meio da venda dos imóveis financiados, que eram, contratualmente, garantidores das dívidas.

Inverteu-se, então, o processo mercadológico: um volumoso número de casas, apartamentos e lojas foram postos à venda pelos bancos, em virtude do que o valor dos imóveis sofreu expressiva queda de preço, havendo ofertas inusitadas de casas a ínfimos preços.

Elevar, de forma inopinada, o juro básico de um país de 0,75% para 5,25%, ou seja, aumentar a taxa de juros em 600%, é algo que só mesmo um economista bastante corajoso se arriscaria a fazer.

Por tudo isso, os bancos entraram, a um só tempo, em extrema apertura de caixa, perdendo, de forma drástica, a condição de proporcionar créditos às empresas, que passaram a não encontrar neles a disponibilidade de recursos financeiros necessários para financiar os níveis de investimentos e de consumo até então habituais. Ou, ainda, na condição de bancos multinacionais, passaram a não dispor dos recursos com que, por incontáveis anos, vinham financiando países de todo o mundo, o que fez com que a crise se tornasse um triste evento mundial.

Os primeiros reflexos nos bancos do agravamento da inadimplência no subprime começaram a ser vistos já no primeiro semestre de 2007. Foi quando a New Century Financial, a maior empresa independente de crédito imobiliário subprime dos EUA, entrou com pedido de proteção contra falência e demitiu metade de seus funcionários. Concomitantemente, o Citigroup anunciou perdas de US$5 bilhões em um semestre e esses, como outros desastres financeiros, entraram a gerar um efeito cascata no sistema bancário, já em 2007.

O Brasil vem sendo visto como um país que está, relativamente, livre da desmedida agressão da já famosa crise. Entretanto, a fim de prevenir-se, vem injetando largos recursos nos bancos nacionais, estimulando-os a ativar, de forma agressiva, o crédito ao mercado. Isso, pelo que se sabe, não vem sendo atendido na razão dos recursos recebidos pelos bancos. Teriam eles invertido o processo contra o qual sempre brigaram, e estariam pondo os recursos “debaixo do colchão”? Ou seriam os tomadores que estariam correndo dos juros absurdos cobrados pelos bancos?

Se isso, torna-se curiosa a observação do presidente Lula: “…é preciso que as taxas de juros sejam adequadas ao momento histórico que vive o Brasil”. (Folha de São Paulo, 27/01/2009) E acrescentata: “… precisamos ajustar a questão dos créditos nos bancos públicos e nos bancos privados…” (grifo nosso). Ainda não disseram ao Lula quem manda nos grandes bancos públicos? Ou já os venderam para o pessoal, sem falar com a gente?

O restante conhecido de toda esta triste história de crise, crise, crise, a mídia tem sido pródiga em contar para todos nós, todos os dias…

Postado em janeiro de 2009 - Feiz Bahmed