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Geração que não Comeu Peito de Frango

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Frango em Minas e neste mundão de Brasil é comida, se não diária, perto disso. Não é um prato. São vários: a coxa, o peito, as asas, a sobrecoxa, o pescoço… Cada uma dessas partes com umsabor, uma consistência, um pretendente e, talvez, até mesmo, um tempero - sei lá - diferenciado.

Na minha infância, nosso almoço diário tinha um ritual não escrito, mas inviolável. Começava pelo horário: 11 horas ante meridiem - e ai de quem se atrasasse!  À mesa, o paletó era peça obrigatória e as falas consentidas eram  tão-somente as alegres e prazenteiras, proibidos os soturnos, sombrios ou desditosos comentários, frases, gestos ou mesmo pensamentos…

Quanto ao frango, bem sabíamos, o peito pertencia, por mérito e tradição, a meu pai.  (”Vocês não sabem que o peito é de seu pai, meninos?!”).  Bom moço, vassalo, graças a Deus, dos ditames paternos, jovem e dócil, humildemente não me cabia disputar com meu pai aquilo que lhe aprazia (”A César o que é de César, a Deus o que é de Deus”).  Afinal, quanto ele lutou e deu de si a todos nós e, mais, quanto tinha eu de vida pela frente, para entupir-me e gozar os deleitantes peitos e peitos de frango! Na ausência de meu pai, tudo se resolvia pelo direito manus militari, em processos belicoso-fraternais.

Casei-me, como é sabido. Quando floresciam os fatais sete anos de bodas, veio a realidade num almoço pouco ou nada formal, em que ouvi a sentença: “Ora, você está cansado de saber que o Carlinhos só come o peito!”.  É.  Realmente não teria eu por que embaraçar a alimentação do filhinho. Daí foi que me pus a meditar seriamente sobre a fatalidade da minha geração: foi, sem qualquer dúvida, a geração que não comeu peito de frango.

Mas, ainda assim, certo dia, na esperta porém ingênua tentativa de propor ao filhote uma razoável partilha, ouvi, novamente: “Aborrece!  Aborrece esse menino procê vê! Sai de casa, cai na droga e na bebidá! tá?!” Não, de jeito nenhum. Eu até nem gosto muito de peito, sou doido é com asa ou pé de frango. Mas, aqui em casa, ninguém faz pé de frango!

Postado em novembro/2008 - Feiz Bahmed