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ABC da crise financeira de 2008 B

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I

Tenho ainda na memória certa historieta posta em um livro infantil do curso primário, segundo a qual um carinhoso avô, velhinho (no passado todos os avôs eram velhinhos com longas barbas brancas), convida uma aluvião de netos (já não os fazem tantos quanto antigamente) para irem ter a sua casa, onde lhes seria servido um bolo feito por mais de mil pessoas!!!

Os netos puseram-se em alvoroço, já que, pensaram eles além de saborear a gulodice, certamente sobrariam toneladas de bolo para serem levadas para casa. Entretanto, lá chegando, decepcionam-se com o pequeno tamanho do manjar, igual aos que, em casa, “a mamãe fazia todos os sábados”.Nesse ponto da história, entra o vovô com a elucidação do título dado ao bolo ali presente:

- Acreditem vocês que este bolo foi feito por mais de mil homens! (Risos incontroláveis). É um bolo de fubá.  Como sabem, o fubá é feito de milho. O milho é plantado por um homem, com uma enxada. A enxada é feita por outro homem, com o ferro, que é tirado da terra por outro homem, que se vale de uma máquina construída por oito homens, máquina com um motor feito por cinco homens, pintada por outro homem, com a tinta feita por uns três homens… Tudo isso apenas com relação à enxada. Saibam que longe estou de chegar à descrição do começo da feitura do bolo. Ainda nos falta falar dos homens que construíram a forma, dos que produziram o açúcar, o forno, o leite, a manteiga, e vocês já viram que chegaremos a, talvez, mais, bem mais de mil pessoas que trabalharam para “construir” esse delicioso bolo…

II

O governo acaba de informar que as empresas de construção civil terão uma linha de crédito de três bilhões de reais, patrocinada pela Caixa Econômica Federal, pagando juros baixinhos, para garantir-lhes mais capital de giro com que construir prédios, salas e apartamentos.

É provável que alguém pergunte: “Não poderiam oferecer igual crédito às fábricas produtoras de bengalas e de guarda-chuvas para a população? Por que esse privilégio das construtoras civis de receber benesses do governo?”   Respondo: porque a construção civil é igualzinha ao bolo do vovô: um apartamento é construído e “comido”, perdão, e habitado pelo trabalho de mais, muito mais de mil homens…

Na construção de um imóvel, tem o homem do cimento, o homem do ferro, o do tijolo, o da pedra, o da areia, o da madeira, o da ferramenta, o do projeto, o da porta, o da janela, o do andaime, o do mármore, o do vidro, o da fechadura, o do armário, o do cano, o do fio, o da telha, o do quê mais?  Tem o carpinteiro, o bombeiro, o pintor, o engenheiro… E logo que o imóvel, pronto, é entregue ao dono, este há de se haver com o homem do fogão, o da geladeira, o homem da televisão, o da mesa, o da cadeira, o da cama, o do colchão, o do filtro, o do microondas, o do forno, o da poltrona, o do sofá, o do tapete, o do telefone, o da luz, o da cortina, o de mais coisas e o de outras coisas e… o escambau!

Uma construção e a moradia agitam, movem e mexem com mais gente, com mais indústrias, com mais comércio, vale dizer com mais pessoas remuneradas que todos os homens do bolo! Do ajudante de pedreiro ao engenheiro, do carregador de piano ao industrial, enfim, emprega milhares de brasileiros, move, assim a economia nacional, como se diz, de A a Z.

Assim, oferecendo crédito para as empresas de construção civil, a Caixa Econômica estará vendendo baratinho um bom remédio para “curar a crise”, ou, se querem, oferecendo um comprimido para que o “resfriado” brasileiro não vire a pneumonia americana…

Postado em outubro/2008 -  Feiz Bahmed