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ABC da crise financeira de 2008

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A Folha de São Paulo publicou, em 25 de outubro de 2008, e-mail de um leitor, que repetia comentários anteriores de outros leitores e dizia:  “Eu gostaria que alguém me explicasse o seguinte: por que o governo empresta dinheiro para bancos podres e não diretamente para o povo?” E concluía: “Por que não facilitar o crédito com juros baixos para a aquisição da casa própria?”.

“Eu gostaria que alguém me explicasse…” - Eu explico. Atrevo-me a alguns comentários embasando-me  em perto de quatro décadas vividas como executivo e dirigente de instituição financeira privada. O que é, o que faz e como trabalha um banco?  Banco é a empresa financeira que recebe do público depósitos e investimentos e que, ficando com pequeno percentual desses valores em seu caixa, empresta o restane do dinheiro captado a pessoas físicas e a empresas, após cadastro que informe a idoneidade moral e financeira dos solicitantes. É, por lei, vedado aos bancos fazerem empréstimos a parentes próximos de seus diretores.

Mero intermediário financeiro, como o nome indica, um banco, por determinação legal, não pode imobilizar senão seu capital próprio em imóveis, máquinas, ações etc., assim como não pode aplicar os recursos captados do público em negócios especulativos ou diferentes dos de sua finalidade, que é a de emprestar e financiar a terceiros o que for recebido de seus clientes em depósitos ou investimentos.

São pessoas jurídicas - sempre sociedades anônimas - que só se estabelecem após conseguirem aprovação explícita (Carta Patente) do Banco Central. Na atualidade brasileira, são empreendimentos com boa - não raro, ótima - situação econômica, com seu ativo constituído por imóveis, ações e créditos com garantias reais de bens  e avais.

OS RECURSOS QUE O GOVERNO DESTINARÁ AOS BANCOS

Em face da crise mundial da atualidade, estão os bancos sujeitos, como todas as empresas, a eventuais prejuízos, por inadimplência de clientes ou por elevadas retiradas atípicas de depósitos, determinantes de sérios comprometimentos da sua situação financeira, isto é, de reservas de moeda corrente em caixa. Se, por um eventual pânico provocado pela crise, um grande número de clientes vier, a um só  tempo, a exercer seu direito de sacar o dinheiro depositado, os bancos, tecnicamente, não possuem disponibilidade financeira para atender tais saídas inusitadas de recursos.  Não havendo quem os socorra, quebram.

Note-se que o dinheiro posto pelo Banco Central à disposição do forte sistema financeiro brasileiro visa à proteção dos pequenos bancos que estejam ou venham a estar em aperto de caixa, o que, num momento de crise, é justo esperar-se. Há que se considerar, a propósito,  que todos nós estamos espantados,  ultimamente, com o alto volume de lucro do sistema bancário. Há até quem se revolte por ver a exuberância da lucratividade bancária atual. Mas, como em quase tudo na vida, há o “outro lado da moeda”, pouco lembrado: quanto mais robustos estejam os bancos, mais garantido estará nosso dinheirinho entregue a eles, no dia-a-dia…

A ajuda governamental se faz, por isso, no sentido de assegurar a estabilidade financeira de alguns bancos, evitando, assim, que eles, embora, às vezes, em situação econômica garantida e estável, entrem a  “apodrecer” e falir, por eventual escassez de moeda, levando prejuízo a seus depositantes e a todo o sistema nacional de crédito. Quando um ou mais bancos nacionais entram em falência, como tem acontecido no exterior, perde o banqueiro e perdem os acionistas, mas a grande parcela do prejuízo fica para os incontáveis cidadãos brasileiros ou empresas que ali depositaram suas economias.

Agora, sou eu quem pergunta: quem vai socorrer tais vítimas majoritárias das perdas?  A Sociedade São Vicente de Paula? A Associação Comercial? Quem, numa democracia ou em outro sistema organizado de governo, tem o dever ético de proteger o povo?   Assim, se o governo acode o banco, na verdade está indo em socorro à população que, de boa fé, ali depositou seus recursos em investimentos, cadernetas de poupança, e conta corrente. Igualmente, está indo em socorro também às firmas que atendem às demandas da população, pelas disponibilidades necessárias a seu capital de giro,  provisoriamente deixadas nas instituições financeiras.

Desse modo, estará o governo não só amparando o povo, mas, de forma preventiva, evitando que surja um desastre econômico capaz de prejudicar seriamente o país e a população. Seria isso errado ou aético?

Há, posteriormente, que se ajuizar se a situação falencial ou pré-falimentar, de quebra ou insolvência do banco, terá sido culposa ou dolosa, cabendo então à  Justiça penalizar os implicados no ocorrido.   Mas aí, são outros quinhentos reais; perdão, outros quinhentos milhões de reais.

                                                                                                                      Postado em outubro/2008  - Feiz Bahmed