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A Amazônia Internacionalizada

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por-do-sol
A Amazônia é um mundo. Um mundo, localizado no norte do Brasil, que desperta certa cobiça principalmente nos países desenvolvidos que, sabendo-a o mais precioso tesouro ambiental de todo o planeta, a veem colocada em região pobre, política e comercialmente inacessível ao poderio econômico e tecnológico do desenvolvido hemisfério Norte.  Abrigo de tão grandioso patrimônio, o Brasil recebe, no exterior, críticas, até certo ponto válidas, pelo fato de o país se servir da Amazônia para um extrativismo vegetal predatório, certamente alterador do clima e causador de forte impacto para o chamado ecossistema.

A floresta que cobre a Amazônia é o maior pedaço de terra do planeta, no qual vicejam cerca de quinze por cento de todas as espécies de plantas e animais conhecidos. Em seu subsolo, excluído o petróleo, possui imenso potencial de minérios que somam um estoque que, segundo especialistas, chega ao valor impressionante de 7,2 trilhões de dólares. Vale ressaltar, ainda, que tais números são o somatório apenas do total de riquezas já registradas.  Calcula-se que, sob as terras da floresta, ainda restariam acumulados mais minérios do que as citadas reservas conhecidas.

Muito se fala no Brasil da intenção dos Estados Unidos de tomar para si ou internacionalizar as terras amazônicas. Houve quem afirmasse que naquele país se utiliza, no circuito escolar, um mapa da América do Sul no qual o Brasil foi desenhado sem a Amazônia. Fala-se de um livro didático americano que confirma essa falha no mapa brasileiro, porém, não são poucas as vertentes que descreem dessas informações e consideram espúrias todas as supostas provas que as acolhem.

Sou dos que pouco acreditam que haja um processo formal americano visando à tomada da Amazônia ou sua entrega ao mundo num processo de internacionalização. Mas, no contexto de um alto percentual do povo americano – incluindo-se o setor escolar, colégios e universidades – existe esse pensamento, nutrido pela conhecida pobreza com que o currículo escolar     americano trata os assuntos da geopolítica, marginalizando a geografia do mundo fora de suas próprias fronteiras.

De tal modo que a maioria dos estudantes americanos, ainda que de boas universidades – por incrível que possa parecer – desconhecem a posição geográfica da Amazônia; não sabem se ela se localiza na África, na Ásia ou alhures, mas conhecem bem a verdadeira ou suposta disposição de seu país de tutelar, a seu modo, a região amazônica.

Tanto assim que o senador Cristovam Buarque, na ocasião em que participava de um debate nos Estados Unidos, em 2001, foi questionado por um estudante norte-americano, que pediu sua opinião sobre a internacionalização da Amazônia, tendo esclarecido, previamente, que gostaria de ouvir a opinião do humanista Cristovam Buarque, e não a do senador brasileiro.

Cristovam Buarque, educador, político, doutor em economia, homem de extensa cultura, ex-reitor da Universidade de Brasília e ministro da educação do governo Lula, deu aos presentes, de improviso, brilhante resposta que, logo depois, publicou em forma de artigo, que transcrevo abaixo, ipsis litteris, extraído da página 469 do livro “Discursos históricos brasileiros”, de autoria do poeta, contista e tradutor Carlos Figueiredo.

Postado em 08/2009 - Feiz Bahmed

100 Discursos Históricos Brasileiros

AMAZÔNIA

“Fui questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia, durante um debate recente nos Estados Unidos.  O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava sua resposta de um humanista e não de um brasileiro. Foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para uma resposta minha.

De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.

Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem da humanidade quanto a Amazônia é para o nosso futuro.

Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio da humanidade.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado.  Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais.  Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França.  Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano.  Não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio cultural amazônico, possa ser manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante o encontro em que recebi a pergunta, as Nações Unidas reuniam o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu disse que Nova York, como sede das Nações Unidas, deveria ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade.

Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha a possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver.

Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.”(Cristovam Buarque)

Postado em 08/2009 – Feiz Bahmed