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Um Ícone da Poesia Rimada

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Embora tido como legítimo representante do movimento simbolista brasileiro, há neste soneto de Alceu Wamosy, em meu modesto ver, um tanto de parnasianismo, pelo apuro formal de que se reveste – tal como um Bilac poetando. Mas não se deve a isso o grande apreço que nutro pelo poema, e sim ao fato de ter ele, como outros poemas de Wamosy, um estilo que me soa aveludado. Seu contexto fala à sensibilidade dos poucos que ainda entendem que a poesia vale a pena.

DUAS ALMAS

Alceu Wamosy – RS (1895-1923)

Ó tu, que vens de longe,ó tu, que vens cansada,
Entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
Vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
E a minha alcova tem a tepidez de um ninho,
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
Se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
Podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua…
Hás de levar contigo uma saudade minha…

 

Postado em maio/2009 – Feiz Bahmed