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Planejamento Estratégico da Infidelidade

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I


Guilherme olhou o relógio e falou bem alto:

– Faltam dez pras duas da madrugada! Que vocês me desculpem, mas tenho que ir.

Estava na boate Kit, com os amigos Marcelo, Maciel e Miranda, desde as nove horas daquele sábado cansativo, pois cedo fora ao clube e não voltara mais a casa. Ao se dar conta da hora, entrou a recear voltar tão tarde, sem que lhe ocorresse uma desculpa plausível para dar à esposa pela demora. Os outros, embora chorosos, acabaram por concordar quando Marcelo ponderou:

– É triste, gente, chega a ser desesperador; mas só o Miranda, em seu venturoso e abençoado solteirismo, pode dar-se ao luxo de ficar até o sol nascer, gozando a presença dessas gauchinhas que estão aqui, enfeitando a boate nesta noite!

Os quatro amigos habitualmente buscavam o bar do Tuca para algumas cervejas e as conversas de sempre. Ali, era comum planejarem algo mais emocionante que lhes alegrasse a noite. Naquele sábado, não poderiam ter encontrado melhor destino que a boate Kit. É que lá se encontrava um grupo de belas gaúchas que, vindo por turismo conhecer Ouro Preto, cedo decidiram trocar as “maravilhas barrocas” da cidade histórica pelas luzes brilhantes e quentes da noite de Belo Horizonte, que algumas visitavam pela primeira vez. 

Guilherme e os fieis companheiros, como bons anfitriões, na boate, cercaram as turistas de muita gentileza e carinho, além de todas as vodcas e uísques permitidos. Após horas, lamentaram ter que abandonar a noitada para atender ao chamado da responsabilidade. Contudo, a promessa de que as gaúchas permaneceriam na cidade por mais uma semana e voltariam à tradicional Kit, às mesmas horas, aplacou-lhes a tristeza, e eles, que também prometeram lá voltar, entraram a sonhar com novos encontros em alguns dos dias seguintes.

No carro, voltando a casa – e ao juízo – ponderaram sobre a inviabilidade de cumprir a promessa feita. Afinal, se já seria problemático chegar a casa naquela noite, como iriam se haver para repetir a visita por mais uma ou duas noites seguintes? Foi quando Guilherme, astucioso, sugeriu um plano, segundo ele, infalível:

– Batutas, digamos que, já amanhã, domingo, a gente fale em casa que na próxima terça, depois de amanhã, inicia-se em Caeté um curso…

– …Por exemplo, curso de “Novo Sistema Dinâmico de Marketing…”,

emendou Marcelo, com ar debochado, ponderando, entretanto, que Caeté não é lugar disso. Juiz de Fora, sim!

– Isso mesmo! Concordaram todos.

– E é imprescindível ir já na segunda-feira para Juiz de Fora, e sumir no mundo por uns três dias de frequência a um proveitoso e indispensável curso… na boate Kit! Ou, quem sabe, alhures? Emendou Guilherme, rindo, já pensando na estratégia a ser seguida.

– Bravo! gritou alguém no aconchego do carro.

Marcelo ficou incumbido de todo o planejamento. Iriam ele, Guilherme e Maciel, que, envolvido pelo entusiasmo dos companheiros, foi, corajosamente, o último a aderir ao plano. Combinado ficou, desde aquele momento, que comunicariam imediatamente em casa a realização do imperdível curso, que “caíra do céu”, destinado a empresários avançados – o que eles eram, sem dúvidas. Ademais, o curso era gratuito, e seria realizado no famoso Hotel Glória, em Juiz de Fora, para aonde teriam de embarcar na segunda-feira, já que o curso começaria na terça.

O “Sistema Dinâmico de Marketing”, tema do curso, já era bastante sugestivo para impressionar os de casa e, talvez, até os curiosos vizinhos. Era, sem dúvida, um argumento bastante sólido para se esconderem por três dias em território nacional.

Em casa, Guilherme, o pai do plano, pediu à sua querida mulher, Marília, que lhe visse o terno – o novo –, a camisa e, enfim, que, como “linda e boazinha que era”, lhe arrumasse a mala, do jeitinho que ele gostava. O mesmo fez Marcelo, tão logo esclareceu os motivos da viagem. Porém, o desditado Maciel não obteve o mesmo êxito: Marcinha, sua mulher, mandona, não concordou com que ele faltasse ao trabalho para realizar um curso que, segundo ela presumia – e como a Marcinha presumia! –  pouco ou nada tinha a ver com suas ocupações profissionais.

Na segunda-feira, então, logo cedo, Guilherme e Marcelo fizeram questão que suas dedicadas esposas os acompanhassem até a estação, onde tomariam o trem que sairia às 13h10min, rumo ao Rio, com parada em Juiz de Fora. Lamentaram a ausência do Maciel, mas conheciam bem a Marcinha, sua autoritária mulher, e a pouca coragem do amigo para enfrentá-la. Sempre!

Após as despedidas apaixonadas, ambos entraram no vagão e, de lá, ainda se despediram, sorrindo e acenando para as companheiras carinhosas que, solidárias, permaneceram na estação até a saída do trem.

– Às vezes, é até interessante ficar só em casa, falou Vitória, mulher do Marcelo, no que ganhou a pronta anuência da companheira.

– É mesmo, a gente até descansa um pouco da rotina, não tem mais horário rígido, marido pedindo as coisas e tudo. É como umas gostosas férias, ponderou Marília.

II

Fazia parte do plano, estrategicamente elaborado, tomar o trem em Belo Horizonte e descer alguns minutos após em uma das estações adiante, o que ocorreu em Barão de Cocais. Dali voltaram eles à capital para, liberados, entrarem no que Marcelo, humoristicamente, apelidou de “feriado conjugal”.

Tão logo em terra, seguiram para o Hotel Ideal, onde sabiam estar hospedado o encantador grupo de gaúchas, que ficaram surpresas com a chegada de Guilherme e Marcelo. Imediatamente, iniciaram todos suas prazerosas aventuras em passeios românticos pela cidade - pelas redondezas, para não se mostrarem nas vias populosas da capital, o que seria correrem altos riscos. Assim, melhor mostrar o Pampulha, Mangabeiras, Sabará, locais mais tranquilos, onde passearam sua felicidade em belos carrões locados para aquelas saborosas férias.

Na volta, o destino daquela noite não poderia ser outro senão a conhecida boate Kit, onde havia já mesas reservadas para os leais clientes e suas belas acompanhantes que por lá ficaram, entre o pisca-pisca de luzes coloridas, o bumbar de enfurecidos roks pesados e a alegria da dança e dos abraços. Ao fim da noite, entrando pela madrugada, fez-se a hora de parar e ir-se embora.

Era, assim, tarde, quando regressaram ao hotel. Seria, então, o momento de Guilherme e Marcelo conseguirem ali seu apartamento. Na portaria, para o necessário check in, ouviram a triste notícia de que não havia um só apartamento disponível.

– Pode ser um quarto de fundo, qualquer coisa, com duas camas pra gente, moço, esclareceu Guilherme.

– Lamento, mas já perdi, hoje, mais de cinco hóspedes, por falta de vagas. É o show  dos americanos, na Pampulha, amanhã. Tá tudo cheio.

Essa decepcionante notícia teria que ser levada às suas queridas acompanhantes. Foi quando a Lu – despachada e “pra frentex”, como a apelidaram – sugeriu a solução salvadora:

– Se vocês não se incomodarem, tem um sofá desse aí do canto, em cada quarto da gente. Vocês se encostam aí e podem até sonhar com os anjos.

– Ora, retrucou Marcelo, afinal, vamos tirar a liberdade de vocês!

Foi quando Guilherme, por trás de Marcelo, aplicou-lhe um beliscão oportuno e necessário, bem em cima de sua saudável costela. Que ele calasse a boca; não tinha procuração para recusar nada em seu nome, murmurou Guilherme, completando com um “imbecil”, falado ao pé do ouvido de forma perto do inaudível.

E foi por essa fortuita emergência que ambos tiveram, não somente nessa noite, mas nas seguintes, esplêndidos pernoites, após os quais, se seguiram passeios, almoços, boate, tudo mais descontraído, pela maior intimidade entre todos.

III

Passados já três dias da espúria partida dos dois companheiros para Juiz de Fora – para todos os efeitos, véspera do término do “curso” – o telefone, na casa do Guilherme, chamou por Marília. Era Marcinha, mulher de Maciel, o “escravo”, como o chamavam, e que não havia acompanhado os amigos na viagem, assim como não os acompanhara em outras incontáveis festas, a não ser quando levavam as esposas “a tiracolo”.

– Marília! Aqui é a Márcia. Tudo bem, querida? Eu passei a tarde toda na academia. Estou mooorta! Vim para casa a pé, pela avenida, nesse calorão. E até vi, garboso e elegante, o seu Guilherme, sozinho, andando apressado…

– Peraí, filha! Você tá sonhando! O Gui tá em Juiz de Fora, fazendo curso de marketing. Foi na segunda, com o Marcelo; fomos até ao embarque deles, na estação.  Tomaram o trem…

– Mas eu o vi na Avenida, bem! Deve ter voltado, não? Estava engravatado, elegante, paletó escuro… Não estou doida! Tô lhe dizendo. Ele deve ter voltado e você não está sabendo…

– Mas viu mesmo? O que é isso, Deus meu?! Espantou-se Marília.

Em casa, no jantar, Maciel ouviu de Marcinha a mesma história, mas contestou a mulher, dizendo-lhe que ela devia estar enganada, “redondamente enganada!”.

– O Guilherme foi para Juiz de Fora, querida! Às vezes, meu bem, o cérebro da gente tem dessas coisas. Já li sobre isso, não sei onde. Você pode ver coisas que não estão lá de fato… Ou você deve ter visto alguém parecido com o Guilherme… Isso acontece!

– Bem, é meu cérebro, né? Tô doida de pedra! Não era o Guilherme, pronto.

Maciel precisava sair logo após o jantar para um encontro e, apressado,

correu ao bar do Tuca, pois era cedo para estarem na Kit. Era ele quem sabia de tudo, tudinho. Sabia que seus amigos estavam em Belo Horizonte e, àquela hora, provavelmente, estariam no bar. E lá estavam eles. Maciel chegou, arfando, e foi logo pedindo a atenção de ambos. Foi incisivo:

– Olha, gente, o caso é sério mesmo! A Marcinha viu você, Guilherme, na avenida, hoje, e contou pra sua mulher! Vocês têm que tomar providências urgentes! E não me perguntem, pois não tenho a menor ideia de como salva-los! Porque tem mais, que vocês não sabem: a Marcinha me disse que a Marília ligou pra ela contando que as duas, ela e a Vitória, já compraram passagem e seguem para Juiz de Fora amanhã, no trem do meio dia. Querem desmascará-los, destruí-los!

– Seguem amanhã?! De trem?! Você tem certeza disso, Maciel?! Indagou Guilherme, atônito.

– Foi o que me disse minha mulher. Irão procurar vocês no tal Hotel Glória. Já imaginaram? Querem massacrá-los! Estão altamente desconfiadas de que algo muito grave deve estar acontecendo.  Virem-se, pois nada posso fazer, entenderam?  “Quem pariu Mateus que o balance”.

– A danada da Marcinha deve me ter visto mesmo…, concordou Guilherme. Foi quando a besta aqui foi comprar o comprimido para aquela loirinha com dor de estômago. Merda! 

Guilherme e Marcelo entraram em pânico, “de gravidade oito na escala Richter”, conforme comentara um deles!

– E agora, José?  O negócio seria a gente se mandar para Juiz de Fora de avião, sugeriu Marcelo.

– Que avião que nada, doutor! Telefone aí pro Totonho, que deve estar com o táxi no ponto, e vamos pôr pé na estrada é agora mesmo! Advertiu Guilherme. Se sairmos daqui até as dez, ali pelas três horas da madrugada estaremos dentro do tal Hotel Glória.

– Se eles tiverem apartamento vazio, né?

Totonho chegou apressado, dizendo que o táxi estava em ordem, e pegou logo as malas na cozinha do bar. O silêncio se fez onde, antes, eram conversa e risadas. Dentro do horário planejado, prontos para a travessia, emburrados, calados, seguiram no táxi pela avenida, a cento e sessenta por hora, até que a avenida, rapidamente, virou a estrada salvadora.

IV

As fiéis esposas, ocupadas em preparar-se para a viagem, telefonavam-se a todo o momento, traçando planos estratégicos, falando de horários, casacos, dinheiro e tudo o mais. No dia seguinte, tomaram o trem em busca do que já não julgavam ser apenas um pecado, mas algo perto de um delito, quem sabe? E dos graves!

Sabiam que o hotel ficava bem em frente à estação. Planejaram lá chegar com naturalidade e perguntar pelos hóspedes, Dr. Guilherme Lavinsck e seu companheiro, Marcelo Lobato.

– Não os encontrando, sugeriu Marília, nada mais justo que tomemos um apartamento de luxo para ambas. Que eles nos venham buscar, pagar as contas da hospedagem, dos camarões, de nossos uísques e tudo. Pagar – esta sim – a conta maior, do que nos está cheirando a sem-vergonhices, safadezas, que iremos pesquisar tim-tim por tim-tim.

À tarde, na hora aprazada, o trem entrou em marcha lenta, anunciando, assim, a chegada a Juiz de Fora. O coração de Marília, ao contrário, entrou  a apressar-se, doidamente, num descompasso estranho. Ao descerem, entrando pelo jardim, pararam, surpresas, em frente ao Hotel. À sombra de uma larga marquise, lá estava o Marcelo! Parecia tranquilo, vergado sobre uma pequena mesa, como se examinasse alguma coisa. As duas mulheres aproximaram-se e perceberam que Marcelo, concentrado, jogava damas com um senhor calvo e bem mais velho. Não as viu, senão quando uma delas gritou:

– Marcelo!

– Ele se assustou, fingindo surpresa; levantando-se de um pulo, correu e abraçou fortemente sua Vitória.

– Mas vocês por aqui? Que maravilhosa surpresa! Vou chamar o Guilherme, que deve estar em seu apartamento. Não vai acreditar quando lhe disser!

– Guilherme chegou afoito, quase correndo, e os dois casais se abriram em risos; a alegria sobrando nos gestos e no olhar de todos.

_ O curso terminou hoje pela manhã, informou Guilherme. Foi, realmente, um programa dos mais proveitosos; preleções muito elucidativas. Não poderíamos perder essa oportunidade.

Após acomodarem as esposas em seus apartamentos, com elas tomaram um táxi e visitaram tudo o que puderam ver no curto tempo de que puderam ainda dispor. Na noite do dia seguinte, tomaram o trem, de volta a Belo Horizonte. Após algumas horas de viagem, quando o silêncio e a penumbra se instalaram no carro em que viajavam, Marília, carinhosamente, tomou a mão de Guilherme e, decidida, corajosa, confessou-lhe:

– Meu bem, preciso dizer-lhe uma coisa. Nossa vinda aqui foi por uma cruel dúvida que tivemos, acredita? Alguém – depois lhe conto quem – inventou que o viu em Belo Horizonte, em plena rua! Jurou por Deus que você estava lá e não no curso, acredita? Naturalmente, lá estaria o Marcelo também. Angustiadas, pensamos que vocês teriam tramado uma cruel e tremenda…

Não conseguiu prosseguir. Entrou em pranto convulso e, entre soluços e lágrimas, pediu a Guilherme que a perdoasse por ter feito um mau-juízo a seu respeito.

– Mas você, Marília, disse Guilherme, entre nervoso e enérgico, você que me conhece há anos, acreditou num vagabundo qualquer que, por maldade, lhe impingiu uma mentira?! De nada valem os anos que juntos vivemos, o lar que construímos com amor e imensa sinceridade?

Marília voltou a pedir ao esposo que a perdoasse. E, ainda com o rosto banhado em lágrimas, com um comovido beijo, calou o razoável rancor e a implacável tristeza de Guilherme. Eternamente.

Post /setembro/2010   - Feiz Bahmed