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A Sopa

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           Era uma vez um velho rei de um pequeno país entre a Pérsia e a Síria, que fazia amigos na mesa luxuosa de seu Palácio. Realizava nela, quase sempre, jantares íntimos, nos quais recebia os dignos cidadãos de seu reino, e os seus notórios admiradores – com a escolha dos sinceros, pois, sábio que era, a estes bem distinguia. Além dos vinhos de alta fama, a mesa exibia sempre a mais tentadora e refinada culinária do mundo oriental.

             Nesses pequenos banquetes, falava-se das coisas do reino, elogiava-se sempre a gestão do monarca à frente de sua boa governação, realizavam-se saraus, danças, tudo sempre regado ao mais rico vinho daquele reino. Ria-se das graças do poderoso rei, criticavam-se, sem pena, os reinos vizinhos, forma a mais eficaz de trazer alegria e orgulho ao liberal anfitrião.

             Num desses jantares aconteceu um desastre. Um dos servos do reino, pela tremura das mãos – fruto do peso dos muitos anos de vida que já carregava, somados à emoção de servir ao rei –, deixou cair na veste do soberano algumas poucas gotas da rica sopa que então lhe servia.

            O rei estremeceu! Surpreso e raivoso, fitou o servo descuidado e, sem atrair a atenção dos convidados, chamou a si um de seus assistentes e ordenou-lhe que retirasse rapidamente da sala o servo que derramara a sopa em suas vestes, e mais: que transmitisse ao ministro da ordem régia – sua determinação de mandar à forca o rude escravo que o molestara em pleno banquete real.

            O assistente do rei chamou o servo e, ao determinar que saísse imediatamente da sala, deu-lhe ciência do castigo da forca a que já estaria condenado, por ordem recebida de sua majestade.

            Ao ouvir tal notícia, o servo, de imediato, correu em direção ao rei, e de forma súbita, sobre ele derramou toda a sopa ainda contida na terrina quase cheia, molhando-o totalmente, antes que fosse detido por alguém.

             O rei levantou-se absolutamente colérico e estupefato com aquela ousadia. Cercado pelos convivas, não pôde calar o servo que, com serenidade, mas em alta voz, falou para que todos ouvissem:

             Majestade, sei que serei enforcado por vossa ordem. Porém, que dirão de vós os que souberem que o rei altruísta que sois – magnânimo, bondoso e amigo dos seus servidores, famoso em todo o território do Oriente – mandou à forca o escravo por ter este, desgraçadamente, derramado pequenas gotas da sopa em vossa veste?  Assim pensando, decidi-me por cometer uma violenta transgressão moral e ética, que justificasse a pena de morte a que fui condenado. E, para isso realizar, atirei-vos toda a sopa contida nesta vasilha. Assim, majestade, ninguém, aqui e noutras partes, vos criticará por me ter matado, pois fiz por merecer a vossa, agora, justa sentença.

            Sabe-se que o servo teve sua sentença de morte revogada e ainda ganhou outros afazeres mais nobres no Palácio, onde viveu alguns poucos anos mais, até que a morte, naturalmente, o levasse

Post-escriptum: Os poderosos eram e são intocáveis.

Post agosto;2010 - Feiz Bahmed