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A Caçada

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       Bastante comum, mormente em Minas, a caçada ao veado é um esporte dos mais praticados no Brasil. A astúcia e a destacada velocidade desse animal em suas comuns debandadas campo afora despertam invulgar emoção no caçador. Difícil é acompanhá-lo, cercá-lo e, principalmente, feri-lo a tiro, o que torna a empresa um tanto mais ousada e ambiciosa que as demais e, por isso mesmo, bem mais emocionante.

        No oriente, em seu passado, a caçada ao veado era comum e, tanto quanto cá, aprazível. Porém, diferia bastante no modo de empreendê-la. A caça ao veado então se fazia sem o objetivo de matá-lo a tiro como no Brasil. Realizava-se com o famoso cavalo árabe, que tinha – e ainda conserva – uma enorme capacidade de deslocamento, aparelhando-se à caça nas altas velocidades da corrida.

              A origem do cavalo árabe continua até hoje, após inúmeras pesquisas e divergências históricas, cercada de muitas discrepâncias. Não existe dúvida, entretanto, de que é a raça mais antiga do mundo e a nenhuma outra se pode comparar em conformação, equilíbrio, e, de forma destacada, na beleza e na velocidade de seu incrível galope.

                 Assim, vale-se o árabe, em suas caçadas ao veado, sobretudo do cavalo, que, montado pelo caçador, é acompanhado por um cachorro treinado para cumprir sua imprescindível missão de – como em caçada se denomina – “levantar a caça”. Por sua argúcia e notadamente por seu extraordinário faro, é  o cão elemento necessário na busca ao veado. Cabe a ele encontrar a vítima e fazê-la, desperta, correr assustada pelo campo – ou, às vezes, pelo deserto, no caso do Oriente – quando então se mostra aos que a perseguem. A vitória do homem nesse tipo de briga é conseguir fazer seu cavalo alcançar a caça, bater violentamente em seu corpo a pata dianteira, num “tapa” geralmente fatal para o veado.

           Mas, vamos à nossa história:

            Conta-se que um antigo caçador, lá pelos lados de um deserto oriental, montou garboso cavalo árabe, acompanhado do seu cachorro predileto, e saiu para uma das suas costumeiras caçadas ao veado.

             Levantada a caça, parecia ao caçador ser aquele um dos mais velozes veados que já vira em suas incontáveis caçadas no deserto. Felizmente, no entanto, estava ele montado em um dos mais céleres cavalos, dos muitos que possuía, todos eles velozes afoitos e atrevidos.

              A corrida, então, se fez emocionante. Buscando o final da luta, corriam deserto afora o veado, o cachorro que o levantara e o valoroso cavalo.

              Após longo, imenso trecho de corrida desenfreada, certamente vencido seu coração, caiu o veado, e morreu. Igualmente estafado, tombou o valente cachorro e, um pouco mais adiante, de modo lento, triste e desolador, o cavalo também caiu, morto.

              Após esse trágico fim de uma empreitada que objetivava apenas contemplar o prazeroso lazer de um velho caçador – caçador e filósofo, que também o era –, o único sobrevivente filosofou para o nada que o escutava no silencioso deserto:

              – Bem… O veado, altivo, brioso, entregou sua vida em justa e absoluta legítima defesa. O meu valente e invencível cavalo morreu no cumprimento do dever que lhe cometi, e que corajosamente assumiu. Porém, o cão, pobre animal, morreu por pura ignorância canina. Pronto seu valioso trabalho de descobrir e levantar a caça, nada o chamava nessa corrida, e em nada ajudava ao fazê-la. Morreu por sua inarredável burrice!

               Post escriptum: Quantas vezes, nós, no trabalho, na política, na vida – e até mesmo no amor – corremos, desembestados, como loucos, para, ao final, morrermos na mesma condição de um idiota cachorro de caçada!

 

                                                                    Post agosto/2010 - Feiz Bahmed