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A Morte no Mercado

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Chafic era, na velha Síria, o mais antigo e próspero comerciante de tapetes persas. Sua tradicional e elegante loja ficava em importante bairro, a oeste da cidade de Damasco, então já capital do país. Tinha em seu estabelecimento comercial inúmeros empregados, que cuidavam do pesado ofício do transporte e da exibição de raros e pesados tapetes orientais. Além desses, a casa possuía alguns funcionários especializados no conhecimento das incontáveis técnicas da tapeçaria, que indicavam a excelência, a raridade e a valia das diversificadas peças.

             Dentre esses especialistas, um havia, Aziz Lazar, iraquiano, que Chafic trouxera para sua companhia, pelo muito que conhecia das tapeçarias orientais. Além de competente profissional, Aziz tornara-se amigo íntimo de seu patrão.

             A ele, naquele inesquecível dia, Chafic pediu que fosse ao mercado de Damasco, encontrar-se com renomado comerciante iraquiano, que trazia da Pérsia enorme quantidade de tapetes que ali colocava à venda.

            Era – lembra Chafic – uma agradável tarde de sol em Damasco, quando Aziz, pálido, ofegante, voltou apressado do mercado aonde fora, e sequer ali pudera entrar em contato com o iraquiano a quem deveria procurar. Chamou seu patrão e amigo Chafic e, assombrado, lhe disse:

             – Podes crer, amigo, embora seja difícil acreditar, na porta norte do Mercado, havia uma estranha figura, que, ao ver-me, fitou-me de forma demorada, estranha, e me seguiu com o olhar até que pude esconder-me, fugir e correr até aqui. Embora possas duvidar, essa estranha figura era – crês? – era a Morte!

             Chafic não poderia duvidar do que lhe dizia o amigo Aziz. Trouxe-lhe um copo de água, tentou acalmá-lo, sem êxito. Aziz, espantado, lhe pedia ajuda, precisava de um local onde pudesse esconder-se; era preciso fugir com urgência.

             – Não posso ficar aqui, pois esse ser estranho, te asseguro, era a Morte. Sei que virá atrás de mim, procurar-me, tal a forma que me fitou.

            – Nada mais simples, Aziz, sugeriu Chafic, tentando ajudar o amigo. Foge para o Iraque, tua terra, e te esconde em Bagdá, que tão bem tu conheces.

             Aziz viu sua salvação no conselho recebido. Buscou alugar um camelo e, ainda naquela tarde, rápido, pôs-se a caminho de Bagdá.

             Chafic, bastante impressionado com o que havia lhe contado o amigo, tentava tranquilizar-se. “Afinal, o Aziz, sempre muito apreensivo, poderia estar enganado. Perturbara-se e entrara em pânico, quem sabe?”. Entretanto, a curiosidade sobre o assunto levou Chafic à decisão de ir ao mercado no dia seguinte, à mesma hora em que lá fora o Aziz. Tentaria descobrir algo.

            Chegando ao mercado, viu que, realmente, na porta norte, lá estava a Morte. Decidido, corajoso, aproximou-se e arguiu:

            – Ontem aqui esteve o meu funcionário, Aziz Lazar, e contou-me ele que a senhora o teria encarado de forma bastante ameaçadora. Tomou-se de pavor e procurou-me. Se lhe for possível, diga-me se o estava, de fato, ameaçando.

            – Não, senhor! Respondeu-lhe a Morte. Meu olhar foi de grande surpresa por vê-lo aqui, em Damasco, pois tenho marcado que devo ir a seu encontro, amanhã à noite, em Bagdá.

Post-escriptum: Ela, o único “ser” que um dia nos encontrará onde estivermos

                                      Post agosto/2010 - Feiz Bahmed