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Minha séria encrenca com o escritor, poeta e psicanalista mineiro, Hélio Pellegrino

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Juro que minha pequena – mas brava – briga com o famoso escritor Hélio Pellegrino não teve, nem de longe, o arguto objetivo de enriquecer meu modestíssimo currículo, nele incluindo um “duelo” entre um “pobre marquês” e o nobre intelectual mineiro-carioca. Não. A prova disso é que foi ele quem começou – como adiante verá meu eventual leitor. Indiretamente, destratou-me, retruquei, vituperando. Sim, porque intelectual da altura dele não se xinga, vitupera-se.

Residia eu então em São Paulo – ele, Hélio Pellegrino, no Rio de Janeiro. Era um ano qualquer da década de ‘70. No Banco, onde garantia eu o pão (com manteiga) para meus filhos, fui procurado por meu amigo Jósio de Salles, filho de Ephigênio Ferreira de Salles, meu lídimo padrinho batismal, ex vi legis, ao pé das regras do Vaticano, a que, até hoje, humildemente obedeço.

Amigo fraternal de meu pai, o brilhante Ephigênio Salles nasceu na minha cidade do Serro (MG). Conheceu as letras no imponente Colégio do Caraça, em Minas, e rumou pro Norte pra trabalhar e viver no Amazonas, ao tempo da borracha, do dinheiro e da cultura. Ali, chefiando guerrilha notória, batalhou de arma em punho pelo domínio brasileiro do Acre. Representou o Amazonas como deputado federal e como senador e, entre 1925 e 1930, foi distinto e amado governador eleito daquele grandioso estado.

Voltando aos fatos, o que trazia a São Paulo o amigo Jósio, morador do Rio, filho de Ephigênio, era certa mágoa, que percebi logo ao vê-lo, pelo mal-disfarçado semblante sofrido que trazia. Por primeiro, referiu-me o nome do mineiro Hélio Pellegrino, conhecido escritor e poeta, famoso operário das letras que dominava a crônica carioca e era lido desde a Barra da Tijuca até Vigário Geral!

Havia pouco – revelou-me então o Jósio – publicara o escritor certa crônica, uma deplorável invencionice, em famoso diário carioca, o “Jornal do Brasil”, na qual, objetivando mostrar algum humor a seus leitores, atingia a família, os amigos e os admiradores do então já falecido Ephigênio Salles. É que o vulgar enredo da crônica referia o nome do ex-governador e se fazia sobre uma censurável inverdade.

Contava ele, em um quarto de página, que Ephigênio Salles, então governador do Amazonas, para ajudar seus correligionários, dava-lhes sempre empregos públicos no estado por ele governado. De acordo com o cronista, lá chegara, certa vez, não se sabe por que cargas d’água, um mineiro que, desprotegido, fora procurar Ephigênio para pedir-lhe um encargo qualquer do qual pudesse viver. Segundo o infundado relato, apesar das dificuldades da época pela grande pobreza do Estado, para amparar o conterrâneo e sanar seu problema, o governador resolvera empregá-lo no majestoso Palácio Rio Negro, comunicando-lhe sua decisão nestes termos: “O Senhor vai ocupar, aqui, o cargo de pianista do Palácio”, ao que ele repostara:

– Mas, doutor, eu nunca toquei piano; não tenho traquejo com música; não sei diferençar um dó dum ré…

– Mas isso não tem grande importância, respondera o governador Ephigênio, o Palácio também não tem e nunca teve piano algum…

            Jósio Salles, após informar-me o endereço do escritor, pediu que eu, na qualidade de filho de um fraternal amigo do Ephigênio e seu afilhado de batismo, portador de muitas lembranças de meu padrinho – inclusive de seu diploma de bacharel em Direito, este, com carinho, a mim oferecido pela família – fizesse uma carta ao escritor, mostrando-lhe o quão molestado me sentira com a publicação daquela ignóbil e ofensiva mentira.

Não tenho cópia da carta que então escrevi, mas lembro-me de lhe ter dito que cometera ele uma pérfida injustiça, dando azo a uma insolente mentira que, abrigada em seu conceito de emérito escritor e digno psicanalista, poderia virar, infelizmente, uma sórdida “falsa verdade”. O que afinal ele contara, – disse-lhe eu em minha carta – através de um órgão de alta divulgação, foi, pelo que eu sabia, uma conhecida anedota de botequim, que não mereceria ser assinada por um intelectual de renome, na Capital da República e em um tradicional órgão de imprensa nacionalmente acreditado.

Pesava mais essa inverdade, disse-lhe eu, quando se fez ela em detrimento de um morto, a quem, mais que a um vivo, até nas camadas inferiores e pouco éticas da sociedade, é consensualmente assegurado o privilégio de um manifesto respeito, com o que havia faltado sua apreciada pena. Com tal desrespeito, colocara ele a figura de Ephigênio de Salles, um político idôneo, probo e honestíssimo, como protagonista de uma piada pobre de humor, conhecida em todo o país, e atribuída a vários políticos de plantão. Por, seguramente, faltar-lhe inspiração para uma boa crônica, usou-a, numa emergência, visando cumprir seu dever profissional de acreditado e assíduo jornalista.

Lembra-me ter deixado claro em minha carta que todo o mal que se comete na Terra a vida registra, como um débito do autor, e o destino, de pronto ou mais adiante, cobra e pune o responsável. Assim sempre o faz, ainda que o malfeitor seja eminente cidadão, como ele o era, coroado de notoriedade e reputação, o que seus títulos, profissão, talento ou riqueza lhe conferiam. Que ele soubesse que sua publicação havia ferido os familiares do emérito mineiro, residentes na mesma cidade onde se faz e circula o jornal que recebera a publicação. Ferira igualmente a meu pai, seu incondicional amigo, e a mim, seu afilhado por duas vezes: na pia batismal e na Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, quando, às vésperas de minha ida para São Paulo o elegera patrono de minha então humilde cadeira naquele sodalício.

Meu amigo Jósio, assim como me procurou, buscou também em São Paulo antiga amiga de seu pai, esta sim, pianista do Palácio ao tempo da governança de Ephigênio, a qual, em sua residência, declarou-nos, certa feita, que o “Rio Negro” sempre teve um belo piano de cauda, em que ela costumava tocar nos jantares de gala ali realizados. Por essa razão, a ela, igualmente, pediu Jósio que também enviasse uma carta contestatória ao escritor.

Não obtive sequer uma resposta a minha carta, nem tomei, nunca, conhecimento de uma retratação pública ou de algo que, por qualquer forma, corrigisse a incorreta crônica. Porém, o destino colocou um modesto blog em nossas mãos e, através dele, aqui e alhures, no Rio e no infinito da internet, até onde posso – e com todo o respeito – apago e anulo, para todo o tempo, a afrontosa inverdade contada pelo hoje falecido Hélio Pellegrino, ao passo que sua infeliz crônica durou apenas um dia de jornal, publicação que, curiosamente, debilitou-se, e morreu.

Contudo, o mundo protege os “ricos” – e a sua memória. Digo isso porque, há pouco, adquiri um apartamento no bairro de Moema, em São Paulo e, quando dele me apossei, indo, pela primeira vez, à sua varanda, no oitavo andar, curioso, procurei informar-me acerca da paisagem que vislumbrava:

– Qual é esta linda via de duas pistas que daqui vejo bem ao pé desta rua?

– É uma nova avenida que, faz pouco, aqui construíram: Avenida Hélio Pellegrino.

Senti-me vituperado, desta vez pela memória do indicado cronista. E assim permanecerei, até que resolva trocar de endereço.

 

Post julho 2010 - Feiz Bahmed