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A Carta Morreu

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A Carta Morreu

Era uma vez um modo usual de falar a amigos distantes. A arte de dizer as coisas quando se estava ausente. Um bálsamo a quem, por longe, valia-se de um papel para nele colocar seu pensamento, sua solidariedade, sua amizade, sua gratidão, sua saudade e, muitas vezes, seuamor. Era algo realmente agradável e bastante atraente. Quase sempre começava assim: “Minha querida mãe: Esta é para saber como vão todos aí e desejar-lhes muita alegria, saúde e felicidade. Quanto a mim…”, ou, com frequência: “Meu prezado amigo Zequinha…”.

A informática matou a carta. Em seu lugar colocou mil coisas que parecem substituí-la, mas apenas a sucedem, e eliminam. Uma delas, a mais frequente, é o e-mail, que sequer ganhou nome nosso e que, quase sempre, começa assim: “Oi!”, ou nem começa. De pronto, já dá o recado curto e, sobre economizar papel e selo, não gasta muito com letras: “você” passa a ser “vc”; “que” vira “q”; e descobri, após pesquisa, que “msg” é a redução da palavra “mensagem”.

Ao contrário de outros escritos, as cartas são sempre guardadas, arquivadas, e, ao cabo do tempo, com elas se faz história. Tenho comigo vasta coleção de cartas familiares, trocadas entre meu avô materno – fazendeiro no antigo distrito Rio do Peixe, pedaço do Vale do Jequitinhonha – e seus filhos, quase todos, ao tempo, frequentando faculdades na cidade de São Paulo. Quando me sobra tempo, entro a “traduzi-las”, ainda que pouco legíveis, e com elas me informo de fatos e histórias da Minas antiga e da São Paulo “criança”, da estranha economia da época, dos problemas da vida rural daqueles tempos, vividos em fins do século XIX e entrados nos anos inaugurais do século XX.

Se, no passado, o telefone já havia tirado bastante do charme dos carteiros, estafetas que traziam sempre as esperadas “cartas de amor”, a internet os fulminou de vez, ao acabar com as missivas amorosas, enterrando-os no vale comum onde moram os corajosos, porém, nada românticos motoboys.

O fenecimento da carta não fez apenas por afetar hábitos seculares, foi avante e destruiu uma arte literária milenar. Perde a literatura – ou virá a perder – um meio atrativo de ler e de escrever. Talvez ponha como arcaico todo um acervo literário e, no tempo, por provável contaminação, como suburbano e brega. Quem sabe, até em desfavor das cartas mestras e seculares de um Padre Antônio Vieira, que encantam a todos os que delas, um dia, se avizinharam e as leram.

“Senhor, – Quando V.Sa. me faz mercê dizer que desejava falar comigo, e com tanto encarecimento, que posso dizer eu, cujo coração há mais de três anos está cozendo desgostos e discursos, sem poder romper o silêncio? Esta é a enfermidade de que adoeço, e a falta deste remédio a que me há-de matar, se Deus não abrir algum extraordinário caminho, com que me veja aos pés de V.Sa., pois todos os ordinários estão fechados.”
[Antônio Vieira a Rodrigo de Menezes, 1665]

VIEIRA E A EPISTOLOGRAFIA

O português João Lúcio de Azevedo, imigrante em Belém do Pará, em seu livro “Cartas – Antônio Vieira”, fala do valor da memorável correspondência do tempo de Vieira e diz que as cartas jesuíticas se fizeram dentro de elogiáveis cânones do ars dictaminis. O autor assim se expressa:

“As cartas jesuíticas cruzaram o mundo lançando mão de procedimentos discursivos disponíveis no legado, ainda vivo e renovado no tempo de Vieira. Da ‘ars dictaminis’, a arte de escrever cartas, se fizeram os diversos trabalhos que se encarregaram da ‘gentilidade’ em todas as quatro partes do mundo, vale dizer, dos brasis aos japões, até o aconselhamento político dos reis mais poderosos da Europa cristã”.

Tais cartas, como as de Vieira – informa o culto escritor – se faziam em seus modelos históricos da ars dictaminis, ou seja, nas então tradicionais “partes principais da sua disposição, em seus termos latinos: ‘salutatio’ (saudação ou cumprimento), ‘captatio benevolentiae’ (obtenção de simpatia ou boa disposição), ‘narratio’ (narrativa, relação) ‘petitio’ (pedido, solicitação) e ‘conclusio ’(fecho, conclusão)”.

Ainda temos em voga, no Brasil, livros de cartas, dentro da antiga ars dictaminis, cabendo citar o best-seller atual, assinado por Gabriel Chalita e Fábio de Melo, com o título de “Cartas entre amigos – sobre ganhar e perder”. Vale também citar a edição de 2003 do valioso livro de correspondência de Guimarães Rosa com seu tradutor italiano Edoardo Bizzari.

Como tenho o hábito de guardar cópia das cartas que, vida afora, escrevi a amigos e a pessoas que de mim merecem admiração ou afeto, penso deixar aqui registradas algumas das muitas missivas que em minha vida cometi.

Jamais, porém, pela presunção de conferir a tais epístolas algum mérito literário, que as sei pobres, mas para, com elas, dizer aos que me seguirão na vida, do merecimento de seus destinatários e do rico conceito em que os tive. É o de que me vale a internet, em sua serventia democrática, através da sua possibilidade de ampliar a liberdade de expressão e as livres comunicações sociais, dando voz a todos, quando, até há pouco, se exigiam burocráticos registros cartoriais e ainda “diploma” de terceiro grau de Jornalismo a quem “ousasse” escrever.
 
Tudo aqui faço – entenda-se – com o intuito de mostrar aos jovens recém-chegados aos livros, que uma carta, em muitos casos, substitui uma crônica, um artigo e, até mesmo, uma tese. Não as minhas modestas linhas, ou quejandos, mas as que contenham alto valor literário, que muitas ainda restam por aí em busca de leitores.        


Post junho/2010 - Feiz Bahmed