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Eu gosto de FERNANDO SABINO

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“Se sou mineiro? Bem, é conforme, dona. (Sei lá por que ela está

 perguntando?)” [Fernando Sabino].
 

              Sou contemporâneo desse mágico escritor a tempo integral. Escreveu ele vida inteira. E eu, vida inteira, o li, porque além de cumprir o dever de ler, que cedo me impuseram, lê-lo era e é imensamente agradável. Ainda livrou-me de comprar livros e livros, chatos pra danar, só porque havia eu que ler e ter alguns ou mesmo muitos, para atender aos preceitos de ordem valorativa, já que, bem cedo me entreguei a lecionar Letras (aqui pra nós, para aprender…), o que todo o mundo entendia que era só para ensinar…

              Guardo de Sabino deliciosas e curiosas crônicas, como aquela de quando ele habitava as prazerosas terras inglesas, e escrevia para a revista brasileira Manchete. Numa delas, contou que tomara um ônibus em Londres, estranhamente lotado, de modo que teve, como fazia no Rio, de viajar em pé, junto de todo aquele elegante povaréu britânico.

              Lá pelas tantas, um londrino qualquer, ao passar por outro, não teve como fazê-lo sem, de leve, dar de encontro ao luzidio sapato de seu conterrâneo. O inglês atropelante, de pronto, pediu desculpas à vítima, em tom bem cortês, como cabia a um anglicano classe A: “Please, excuse me, Sir.”

              – “No!” Retrucou a vítima. Não é dessa forma que se comporta um cavalheiro dentro de um coletivo.

               – Ó! senhor, respondeu o agressor, é que preciso descer no próximo ponto!

              O nosso Fernando Sabino põe fim à narrativa do incidente, declarando:  “Morando em Londres há dois anos, posso afirmar que foi a mais assustadora e acirrada briga a que aqui assisti, desde que pus meus pés nesta metrópole.”.

 USUCAPIÃO

               De outra feita, contou ele, no jornal “O Globo”, um intrigante caso que já publicara, mas, como recebera vários pedidos, atendia aos leitores que lhe solicitaram nova divulgação da crônica.

              Contava Fernando Sabino – o que guardei de cabeça até hoje – que certo fazendeiro mineiro procurara um advogado em sua cidade, para solicitar seu parecer sobre assunto grave que dizia respeito aos domínios de sua fazenda. É que um vizinho safado pleiteava a posse de um bom pedaço da terra de sua propriedade, dizendo que, se não fosse atendido, entraria em juízo, sob a alegação de que, pelo instituto do usucapião, aquele pedaço lhe pertencia.

              Alegava o usurpador que, havia dez anos, plantara uma árvore naquele espaço e lá estava ela, agora, copada e frondejante. Pela altura e tamanho, a árvore atestava o tempo em que ali fora fincada.

             O advogado disse ao consulente que o argumento do intruso era inconsequente e que, se lhe desse procuração, o defenderia com certa facilidade, consolidando como sua a posse da terra pleiteada por seu vizinho.

              O fazendeiro, “desconfioso”, como todo bom mineiro, foi atrás de outro advogado, também afamado na cidade, e contou-lhe, igualzinho, o caso do pretendido “usocapião”, acrescentando, igualmente, que o danado se defendia dizendo ter plantado uma árvore havia anos naquele pedaço, e que pelo porte dela, agora, via-se o tempo longo em que tomara conta daquele naco de terra.

              O doutor, com sérios e variados argumentos, de certa forma repetiu o que seu colega já lhe havia dito. Podia defendê-lo, por preço razoável, e entendia, de forma bem certa, ser viável demover, por sentença, a injustificável pretensão do intruso. Para tranquilizar seu possível cliente, chamou o colega de escritório, que confirmou a certeza de que, em tal caso, o consulente teria, por certo, uma vitória em juízo.

              Mas, para seu total sossego, faltava, por último, ir a um antigo advogado, bem conhecido na cidade – que até sua dona, na fazenda, tinha falado dele – pois era também de muito boa fama na região. Lá, contou ele a mesma história, repetindo que o moço queria as terras e que dizia que iria ingressar em juízo, pois tinha por prova a árvore por ele plantada naquela terra havia cerca de dez anos, segundo seu cálculo, de cabeça.

             Foi quando o advogado, ouvindo atentamente a história, indagando dos fatos ligados ao caso, após a prosa e tudo, foi muito claro e até meio bravo:

             - O Senhor vai entender minha opinião de que acho bastante difícil ganhar essa sua causa, demovendo esse que o senhor chama de intruso da posse da terra onde alega ele ter plantado essa árvore. Por minha experiência, sempre achei muito difícil ganhar em juízo uma causa com razões como essa, apresentada pelo seu vizinho. O juiz, quase sempre, fica do lado de quem alega o usucapião. Pra ser honesto, infelizmente, não posso pegar a causa.

            O fazendeiro, de repentino, se pôs de pé e disse ao bacharel:

             – Pois vou dar ao senhor, agora, a procuração.

             – Mesmo eu lhe dizendo de minha opinião isolada, que contesta a de outros vários colegas? Não entendo.   Por quê?

            – Ora, doutor, porque eu é que sou o homem da árvore…

                                                                                                                                   Post junho/2010 - Feiz Bahmed