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Quando a Memória Vai - Se Embora

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                  Havia algum tempo, ele começara a notar que nomes familiares escapavam de sua memória. Comentava com amigos e conhecidos essa fuga desagradável do nome de cidades que conhecera bem, de velhos amigos, de muitos conhecidos, mormente colegas de faculdade com quem convivera por tantos anos.

               – Sabe, Luís – dizia ele outro dia no bar – não é só a idade. Neste século, o número de informações que nos chegam por dia, por hora, é imenso. Jornais, televisão, revistas… E mais, o raio do computador, com mil novidades, dezenas de e-mails a cada instante… A internet com mil notícias de futebol, política, decretos, desastres e o escambau!

               A despeito das justificativas que relacionava, mais para si mesmo, não raro, ele se apavorava com a ideia, que se tornara recorrente, de que a fuga da memória é, seguramente, um dos sintomas do Mal de Alzheimer… Isso o levava ao pavor. Lembrava-se de um conhecido, dono da padaria, que começara assim, e, pelo que se sabe, está em casa, trancado e não reconhece ninguém. Mal de Alzheimer.

              – Rapaz, eu também estou como você – disse-lhe um colega de escritório – É muito comum eu esquecer o nome da nossa cozinheira, e ela está lá em casa há mais de ano! Acredite! Volta e meia, estou pedindo a minha mulher que me lembre o nome dela, pois quero pedir-lhe algo e não sei como chamá-la. Mas são os anos, estamos envelhecendo, compadre, envelhecendo…

              E não apenas um amigo lhe faz companhia nessa desdita, que, algumas vezes, se torna uma tragédia! Quase todos a quem confidencia a sua falta de memória, cada dia mais severa, lhe respondem de igual forma. Também se queixam do mesmo mal. Dizem, o que ele está cansado de saber, que o cérebro, para os maduros como eles, é um disco já empanturrado de informações, que nega fogo a toda a hora. “E isso não tem conserto, doutor”, é o que ouve sempre.

              Mas ontem, pelo que me contou, assustou-se deveras. E me assustou também. Havia se deitado, como sempre, pra lá da meia noite, mas o sono não o acudira de pronto. Entrara a pensar coisas, até que, em certo momento, assombrosamente, lhe viera à cabeça uma pergunta besta, esdrúxula: “como eu me chamo, mesmo?” Espantou-se com o absurdo de esquecer seu próprio nome. Não queria acreditar. Pensou que descobriria, lembrando o nome dos familiares: Artur, seu pai; Luísa, sua mãe; Olavo, seu irmão; Sabino, seu padrinho… mas não lhe vinha à cabeça o seu próprio nome. Absurdo! “Devo estar doente. Devo, não, estou doente!”, confessou em voz alta.

              Atento eu o escutava, ansioso por um final feliz. Ora, alguém, em sã consciência, esquecer como se chama é coisa que, em toda a minha vida, nunca ouvi dizer. Continuando, contou-me que, após tentar lembrar-se, por todos os meios, viera-lhe à mente a técnica do abecedário. Começou com a letra “a”, para ajudá-lo no restante de seu nome. Emendou com o “b”, com “c”, com o “d”: “da… de… di… do… du…” e, indo adiante, estando já no “m”, sem que lhe acudisse a desejada resposta, apavorou-se.  Sentou-se na cama, ao lado de sua mulher que dormia, e suando em bicas, atônito, confuso, perplexo, bateu forte no braço da companheira e gritou apavorado:

              – Dasdores!!!

              – Quê isso, Roberto?!

              – Nada.

                                                                                                                                                                                                                                                                  Post / fev / 2010 – Feiz Bahmed